Através da combinação de medicamentos, consegue matar as células que armazenam o HIV e com uma terapia semelhante a uma vacina, faz com que o vírus seja eliminado

Um estudo com pesquisadores de diversos países, incluindo pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), está conseguindo tratar o vírus HIV do organismo utilizando um coquetel de medicamentos e uma terapia celular. A pesquisa “desperta” os vírus latentes no corpo humano para que o organismo possa eliminá-los. Através da combinação de medicamentos, consegue matar as células que armazenam o HIV e, através de uma terapia celular semelhante a uma vacina, faz com que as pessoas consigam banir o vírus.

A pesquisa está sendo feito com voluntários que fazem tratamento para HIV/Aids e estão com carga viral indetectável e agora será ampliada. “Está funcionando e a gente vai ampliar esse estudo”, disse o infectologista Ricardo Sobhie Diaz, infectologista e diretor do Laboratório de Retrovirologia do Departamento de Medicina da Escola Paulista de Medicina (EPM/ Unifesp) – Campus São Paulo, em entrevista ao Quinta Chamada Ciência.

A epidemia de Aids existe há 40 anos e a estimativa o Programa das Nações Unidas para Aids (Unaids) é de que 37,6 milhões de pessoas viviam com HIV/Aids no mundo em 2020. De acordo com o Ministério da Saúde, 920 mil pessoas vivem com HIV/Aids no Brasil. A infecção pelo HIV não tem cura, mas tem tratamento – que é feito com medicações antirretrovirais que diminuem a carga viral e controlam a infecção. A estimativa do Unaids é que 27,6 milhões de pessoas no mundo tenham acesso à medicação, também chamada de “coquetel anti-HIV”.

“Pra gente entender os medicamentos que a gente usou, a gente tem que entender o tamanho desse desafio. O HIV entra no corpo da pessoa e fica de uma forma dormente, latente, não vai mais embora. Não existe nenhum caso no mundo em que a pessoa tenha adquirido o HIV e tenha eliminado ele”, pontua Diaz, lembrando que um dos grandes desafios é diminuir os danos ao organismo de um vírus que fica pra sempre.

“Um deles, é que [o HIV] fica inflamando o nosso corpo e faz com que a gente envelheça mais rápido. O outro grande desafio é curar as pessoas. A gente descobriu que o caminho para diminuir essa inflamação e até curar as pessoas é o mesmo. Tentar fazer com que esse vírus acorde e fazer com que as pessoas consigam reagir contra o vírus e eliminar”, continua o epidemiologista, acrescentando que com a combinação de algumas estratégias, os pesquisadores chegaram à conclusão de que é possível eliminar o vírus HIV, mas com as tecnologias disponíveis atualmente esse processo demoraria décadas. O desafio dos cientistas é encontrar uma forma de acelerar esse processo e, de fato, poder curar as pessoas.

“A gente imaginava que conseguiria curar o HIV porque ele fica só em lugares que a gente consegue eliminar, que não são células definitivas (como o cérebro, o osso). O conceito foi provado com a estratégia de transplante de medula, pra quem precisa de transplante de medula. Duas pessoas foram curadas e provavelmente tem uma terceira. Mas não dá pra fazer transplante de medula [em todas as pessoas]”, explica o pesquisador, detalhando o processo que está sendo estudado pela Unifesp.

Vacinas são “a arte imitando a vida”. No caso do HIV, o desafio é fazer “a arte melhor que a vida”

Ricardo Diaz considera que a vacina é “arte imitando a vida” e este é o desafio da pesquisa de uma vacina para o HIV. “Na vida, se você pega uma catapora, você não vai ter de novo. O que a vacina faz? Ela engana seu corpo e faz ele achar que você teve uma catapora para fazer com que você fique imunizado. Normalmente a arte não é melhor que a vida. A questão é que ninguém até hoje que se infectou com o HIV, eliminou o vírus. Então o desafio dos cientistas é fazer a arte melhor que a vida”, considera.

O epidemiologista Ricardo Diaz considera que, no caso da pandemia do novo coronavírus, o avanço rápido na descoberta de vacinas contra o Covid-19 se deveu a um movimento de solidariedade que alcançou o mundo inteiro e fez instituições de diversas regiões do planeta compartilharem suas pesquisas, resultados satisfatórios e também os caminhos que não deram resultados.

“A vacina [do Covid-19) andou rápido por solidariedade. Pesquisadores abriram todos os bancos de dados e essa solidariedade está possibilitando à ciência andar rápido porque a gente está com medo”, diz. Outras questões que influenciaram a agilidade para encontrar os imunizantes contra o novo coronavírus foi o reaproveitamento de tecnologias para vacinas que já tinham sido testadas, mas não avançaram da forma esperada e agora foram resgatadas e “repaginadas”, utilizando o mesmo modelo que já existia para combater outro vírus.

Combate ao Covid-19 deve utilizar estratégias já experimentadas no enfrentamento da Aids

Outro aspecto interessante é que iniciativas de tratamento já adotadas para enfrentar o HIV também deverão ser utilizadas para combater o Covid-19, a exemplo da Profilaxia Pós-Exposição (PEP) e da Profilaxia Pré-exposição (PreP).

No caso do HIV, o conjunto de medicamentos chamado de PEP é receitado para a pessoa que passou por um risco de se infectar com o HIV – seja por uma relação sexual sem uso de preservativos, ou por ser vítima de violência sexual, entre outras situações. Já a PreP é indicada para pessoas que não vivem com o vírus HIV, mas que possam ter uma exposição ao vírus. Essas pessoas tomam um conjunto de remédios que previnem a infecção pelo vírus que provoca a Aids.

Para o Covid-19, os cientistas pesquisam, além das vacinas (que poderiam ser comparadas à PreP), medicações que possam ser receitadas às pessoas que se expuseram ao novo coronavírus (PEP), evitando também a infecção e possíveis complicações. Seriam medicamentos aliados das vacinas no combate à pandemia.

O infectologista Ricardo Sobhie Diaz destacou que, apesar de não existir cura para a Aids, a terapia antirretroviral feita da forma recomendada pela equipe de saúde realiza o controle da infecção e também a possibilidade que as pessoas infectadas com o vírus HIV se tornarem indetectáveis. Quando a pessoa está com a carga viral indetectável ela não transmite o vírus HIV. “Indetectável é igual a intransmissível (I=I). Os maiores sintomas do HIV ainda são o estigma, o preconceito e a discriminação. Existe o que a gente chama de ‘sorofobia’, que é quando a pessoa é discriminada por viver com o HIV e isso é muito pesado para as pessoas”.