A chegada do coronavírus modificou a rotina da maioria dos brasileiros. Trabalhadores fazendo quarentena, home office, o afastamento de entes queridos para proteção e, além de tudo isso, o excesso de informações pela internet, tem gerado efeitos psicológicos negativos na população.

O causam impacto na saúde mental causado pelo desdobramento da crise “Pessoas que não têm histórico de problemas de saúde mental de repente estão enfrentando dificuldades para dormir, se concentrar e seguir com suas vidas cotidianas normais. Aqueles com histórico de ansiedade e transtorno obsessivo compulsivo viram seus sintomas se exacerbarem com as notícias da covid-19”, escreveu Amir Khan, médico do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido e professor da Universidade de Leeds, em um artigo para a al-Jazeera.

A Agência de Notícias da Aids conversou com profissionais da psicologia para entender melhor como é possível cuidar da saúde mental em tempo de quarentena.

O psicólogo sistêmico individual, João Meireles, explica que ficar dentro de casa influi muito na qualidade de vida das pessoas. “Em uma rotina normal, adultos e crianças ficam mais tempo fora de casa do que dentro. É necessário um reaprendizado que precisa ser feito para uma mudança de comportamento. É preciso aprender a ficar consigo próprio.”

“O primeiro desconhecido é a gente mesmo. A gente tem que tomar cuidado para vencer o medo, o pânico e uma manifestação histérica. O ser humano tem necessidade de pertencimento a um grupo. Quando ele fica isolado, tem medo de ficar por fora de tudo o que está acontecendo. Então a primeira coisa que ele faz é ficar com a televisão ligada, internet em noticiário o tempo todo”, acrescenta. 

Para evitar esse problema, João esclarece a necessidade de filtrar informações. “Ter distanciamento para separar aquilo que te serve e o que não te serve. A paranóia, ou seja uma consciência paralela, uma outra consciência que toma conta de nossos pensamentos de maneira irracional é muito comum nesses momentos. Esse pensamento toma conta da gente e nos paralisa. O que provoca uma noção de insuficiência e medo de não ser capaz de enfrentar todos os problemas, gerando ansiedade.”

“Temos que aprender a ficar no presente. O desconhecido e o futuro é como o vírus, não temos que travar uma guerra com ele, e sim, aprender a lidar. Em vez de ter a ilusão de matar o vírus, tem que ter a confiança em seu sistema imunológico, porque ficar em casa é acreditar em tudo o que você tem de bom  de abundância e tudo o que você pode aprender.”

“A gente sempre reclama que não tem tempo para fazer as coisas, para ler, para fazer exercício, para falar com amigos.Aprender a lidar e organizar o tempo nos fortalece. Isso serve também para organizar a casa, os armários. Criar uma rotina dentro da casa. A pior solidão é a de você mesmo. É quando não encontra em você mesmo um companheiro”, finaliza João. 

Nesse sentido, a psicóloga e sexóloga, Regiane Garcia, dá cinco dicas sobre como filtrar notícias. “Quem é o autor, que técnicas são usadas para atrair sua atenção, que tipo de valores e pontos de vista estão sendo apresentados na mensagem, como pessoas diferentes interpretam essa mensagem e, por último, o que foi omitido desse conteúdo.”

Alem disso, Regiane defende que é preciso buscar aquilo que dá prazer e acalma. “Ler ficção é interessante para viajarmos um pouco e sair nos distrair dessa realidade. Vamos ouvir músicas, palestras de profissionais sérios da saúde mental, da filosofia, da literatura. Assistir conteúdos que nos faz pensar. Vamos conversar com as pessoas pela internet, vamos cozinhar. Esse é um período excelente para se preparar para aprender novas coisas e depois, quando pudermos, compartilhar com as pessoas que amamos. Como, por exemplo, aprender uma boa receita e depois reunir os amigos para celebrar.”

Pra a mestre em psicologia clínica pela PUC – São Paulo, Lorena Cascallana, é preciso parar de reclamar por aquilo que não se pode fazer e questionar o que é possível fazer dentro de casa. “A queixa não faz nada além de carregar negativamente nossa saúde mental, o que também faz com que nossa imunidade abaixe. Além disso, aumentar a imunidade tem relação direta com consumir pensamentos positivos.”

“Assim, música positiva, boas leituras, intercâmbios virtuais, fazendo chamadas de vídeo e ligações com pessoas queridas. É por isso que esse momento não pode ser entendido como isolamento por si só”, disse ao enfatizar a importância de não se consumir noticiário o tempo todo. “As notícias nos fazem ficar alertas e esse estado de atenção e tensão também abaixa nossa imunidade.”

Por fim, Lorena afirma que é preciso ressignificar essa experiência. “Exercícios físicos para fazer em casa e música de diferentes ritmos ao longo do dia também vão ajudar a elevar o estado de espírito de seu corpo.”

 

 

Dica de entrevista

 

Lorena Cascallana

E-mail: lorenacascallana@gmail.com

 

João Meirelles

E-mail: joaoalfredomeirelles@gmail.com

 

Regiane Garcia

E-mail: regiane-garcia@uol.com.br

 

 

Jéssica Paula (jessica@agenciaaids.com.br)