Porto Alegre é a capital do Rio Grande do Sul, estado que fica no Sul do Brasil. Minneapolis fica no estado de Minesota nos Estados Unidos. Cidades com culturas, costumes e histórias diferentes. Neste 20 de novembro, quando celebramos no Brasil o dia dedicado a Consciência Negra, Minneapolis, a maior cidade de Minesota e Porto Alegre ficaram parecidas quando falamos de descaso, brutalidade, violência e agressão contra os negros. Quase seis meses depois do assassinato de Jorge Floyd que foi estrangulado por um policial branco que ajoelhou em seu pescoço durante uma abordagem por supostamente usar uma nota falsificada de vinte dólares em um supermercado, o Brasil assisti chocado e indignado uma cena de violência e brutalidade que lembrou Minesota.

A morte de um homem negro dentro de um supermercado de Porto Alegre causou indignação, revolta e tristeza nas redes sociais em todo o Brasil. Não poderia ser diferente entre ativistas que trabalham cotidianamente contra o estigma e a discriminação. João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi espancado e morto por dois homens brancos em uma unidade do Carrefour nesta quinta-feira (19), véspera do Dia da Consciência Negra. As imagens da agressão foram gravadas e circulam desde a madrugada desta sexta-feira. A Agência Aids conversou com alguns ativistas e diz junto a todas essas vozes: “Vidas Negras importam!” Vidas Negras importam e importarão sempre para todos nós que acreditamos e tentamos construir uma sociedade mais inclusiva, acolhedora, amorosa e igualitária.

Carolina Iara de Oliveira, travesti, negra, militante da luta contra aids e do movimento negro e vereadora eleita na Bancada Feminista do PSOL, disse que “o caso de João Alberto, homem negro morto em Porto Alegre a socos por homens brancos, numa cena de brutalidade extrema, é o retrato mais vil da cultura de violência e do racismo da sociedade brasileira. Nossa sociedade, que insiste em cobrir a realidade do racismo estrutural através da falácia da democracia racial, vira e mexe tem seus casos de racismo explícito para exemplificar sua violência e autoritarismo, além de ser o país que mata jovens negros a cada 23 minutos e que mais mata travestis e transexuais no mundo (82% dessas mortes de pessoas trans negras). Diante desse infinito número de cadáveres do racismo — sem contar os que morreram de covid-19 e que teve uma proporção maior de mortalidade entre pessoas negras e pobres — Mourão, vice-presidente, afirma que a morte de João Alberto não foi racismo, porque racismo não existe no Brasil. Ou seja, além de enterrar nossos mortos, temos de enterrar com risos e deboches da elite política e econômica do país. Nojo!”

A consultora em direitos humanos, gênero e raça, Noemia de Souza Lima, destacou que “o problema aqui no Brasil é que não temos a consciência que tem os americanos por exemplo, nossa comoção é seletiva, banalizamos a violência quando a vítima é uma pessoa negra. Por isso temos que o tempo inteiro gritar que “Vidas Negras Importam” até conseguimos tocar o coração das pessoas. Esse é um dos efeitos do racismo, banalizaram nossa dor. O João Alberto será apenas mais um, mais um número, fará parte das estatísticas. Não é a primeira vez que isso acontece. Precisamos descolonizar nosso pensamento. O racismo ceifa vidas, destrói sonhos, famílias”

A presidenta da Associação Missão Resplandecer e membro do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, Cleide Jane, também ficou indignada com o acontecimento. “As autoridades precisam reconhecer que existe racismo no Brasil, os policiais não estão preparados, eles usam e abusam do poder. O nosso país precisa se ressignificar, as pessoas precisam voltar a ter amor ao próximo. Ao colocar a farda, muitos policiais esquecem que tem família, filhos, mãe, eles só querem agredir. O Brasil precisa reconhecer que há racismo e que este país não gosta de negro, pessoas brancas maltratam pessoas negras.”

 

Diego Oliveira, produtor cultural LGBT+ e secretário executivo da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, lamentou a morte brutal de João Alberto. “Precisamos educar as pessoas melhor, fazer as pessoas compreenderem a história, porque esta no subconsciente das pessoas que pessoas negras são perigosas, e somente a educação pra curar essa doença de dentro de todos nós em algum grau.”

Saiba quem era João Beto

O soldador João Beto, como era conhecido pelos amigos, morava em uma comunidade na Vila Farrapos, zona norte da capital gaúcha. Casado e sem filhos, ele deixa a esposa, a cuidadora de idosos Milena Borges Alves, 43 anos.

Torcedor do Esporte Clube São José — time da terceira divisão do Brasileiro–, João Beto era visto pelos amigos como um “cara de boa” e “legal”.

“Ele era preto, pobre e morador de favela, mas era um homem que a comunidade amava. Andava sempre tomando uma cervejinha à noite, às vezes com a ‘patroa’ dele. Era um homem respeitoso, e a comunidade gostava dele por isso. Abraçava todo mundo com alegria e entusiasmo”, disse o amigo Flávio Chaves ao site Metrópoles.

Redação da Agência de Notícias da Aids

 

Dica de entrevista

Carolina Iara

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Cleide Jane

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Noemia de Souza

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Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo

Tel.: (11) 3362-8266

E-mail: diegorsoliveira@gmail.com