A chegada do coronavírus modificou a rotina da maioria dos brasileiros. Trabalhadores fazendo quarentena, home office, o afastamento de entes queridos para proteção e, além de tudo isso, o excesso de informações pela internet, tem gerado efeitos psicológicos negativos na população.

Por isso, a Agência de Notícias da Aids conversou com a psicóloga Edna Kahhale para entender melhor as implicações da quarentena na vida das pessoas.

Edna é doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo pela Universidade de São Paulo (1993). Atualmente é pesquisadora, professora associada e coordenadora do Laboratório de Estudos de Saúde e Sexualidade, Núcleo de Psicossomática e Psicologia Hospitalar da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Líder do grupo CNPq “Psicossomática e Psicologia Hospitalar”, ela tem experiência na área de psicologia, com ênfase em distúrbios psicossomáticos.

Segundo a especialista, com as estratégias corretas é possível ressignificar esse momento tão desafiador.

Coronavírus e saúde mental

“O primeiro ponto a ser destacado é há informações exageradas pela internet e televisão e isso faz com que as pessoas se sintam muito inseguras. Vale destacar também que as pessoas que vivem com HIV já precisavam fazer um controle adequado a respeito de sua imunidade por serem imunodeprimidos. O fato de não pode sair de casa faz com que muitos desenvolvam medo de tocar em qualquer lugar, ou se aproximar de qualquer pessoa, até mesmo de quem está dentro da própria casa. É preciso desconstruir esse terrorismo”, defende Edna. 

Segundo ela, o maior problema no país é que um número considerável da população não tem condições de manter um dia-a-dia com higiene adequada. “Ações como não partilhar toalhas, trocar roupas de cama e até saneamento básico, infelizmente não é possível na casa de muitas pessoas. Mas é preciso lembrar que os cuidados são aqueles comuns, ou seja, até a faxina é aquela que se faz normalmente. Quem não tem formação e sem acesso à informação de qualidade, ficam apavorados. Se você está se cuidando, fique tranquilo.” 

Para Edna, filtrar a quantidade de informações recebidas é fundamental. “O controle da epidemia, todo dia tem um gráfico dizendo alguma coisa. Isso interessa para quem entende de epidemiologia. Para a população em geral, resta ficar aterrorizado. Para as pessoas que vivem com HIV, os cuidados são aqueles para se viver com qualidade de vida com o vírus. Tudo o que melhora a vida com o HIV, vale para a prevenção do coronavírus.” 

Terapia Online

Nesse contexto, a terapia online tem sido uma alternativa para muitas pessoas que já sofriam ou passaram a sofrer com ansiedade, depressão e outras doenças. A psicologia já disponibilizava essa modalidade de atendimento que está regulamentada há 3 anos. Agora, se tornou uma alternativa viável para enfrentar a crise.

“Já existem grupos de atendimento online gratuito para essa crise do coronavírus. É um sistema de plantão voluntário, o que é muito positivo, já que outros problemas podem ser desencadeados pelo fato de as pessoas ficarem em isolamento, principalmente aquelas que não tem como fazer um trabalho em home office, como é o caso de que lida com atendimentos presenciais de clientes.”

Edna acrescenta que quem puder trabalhar de casa vai precisar reorganizar a rotina, “porque não estavam acostumados a ficar o dia inteiro dentro de casa ainda mais com o desafio da convivência exarcebada. Muitos sequer tem disponibilidade de computadores e equipamentos necessários para todos os membros da família, o que pode gerar conflitos e mais pressão sobre o profissional.” 

“Deixar a pessoas isolada olhando para as paredes é inclusive um método de tortura. Mas no nosso caso, podemos encontrar outras formas de viver. Por isso, minha sugestão é que deixem as janelas abertas, olhem para a rua, olhem para as outras casas, aproveita para espiar um pouco a vida dos outros”, diz em tom descontraído. 

Dicas para a quarentena

Como conselho para quem está na quarentena, Edna recomenda atividades físicas como musculação, dança, qualquer atividade que goste mas mexa o corpo por pelo menos 30 minutos. “Organize a casa de forma a conciliar o cuidados de casa e família com possíveis atividades profissionais que possam ser  feitas em casa. Se gostar de ler, leia um romance interessante ou o tipo de livro que goste. Escute música e preste atenção na letra, tente cantar junto, aprimore seu canto; marque encontros virtuais com seus amigos, familiares ou seja com quem você gosta: todos no mesmo horário em alguma plataforma de chat, tipo Hangouts, meets ou facebook. Arrume-se para o encontro: roupa, cabelo, ou seja, você vai a um encontro. Não fique de pijama o dia todo, você está em casa, mas não precisa ficar desarrumado.”

Nesse sentido, Edna é enfática ao afirmar que a vida não acabou. “Se gostar de escrever, comece seu diário, ou seu conto ou seu romance, se gostar de desenhar e pintar comece! Inspire-se e solte a imaginação. Aproveite para fazer aquelas arrumações e mudanças na sua casa que vem adiando há tempos. Se você mora com mais pessoas, aproveitem para trocarem experiências, fazerem jogos juntos, reorganizarem os espaços de forma que a casa de vocês fique muito gostosa! Tente evitar ficar num canto parado, só com pensamentos negativos. Isso só vai deixá-lo para baixo. Não ajuda nada!”

“Levante e crie uma rotina gostosa! Prepare e faça as refeições com calma. Curta. Se tiver plantas em sua casa, aproveite e cuide delas. Enfim, use sua imaginação, que todos temos muito, e sua criatividade para fazer uma nova rotina gostosa, agradável e saudável.”

Vida sexual x isolamento

“Se você estiver com qualquer gripe que exista por aí e se beijar alguém você pode transmitir. Agora, se você não apresenta nenhum sintoma, se está em isolamento, se cuidando e se prevenindo não há porque se afastar das pessoas de sua casa. Por isso, para os casais, se você está em casa com tempo livre, aproveite para transar. Aproveita para se cuidar, para tomar um banho, se preparar para um sexo gostoso”, afirma Edna. 

“Não seja neurótico. Se não apresenta nenhum sintoma, não há porque manter distanciamento de uma pessoa que mora com você. As pessoas vão ficando assustadas e passam o susto para o outro. Agora, se você está bem, eu faria uma prescrição: pelo menos uma transa por dia, porque também faz muito bem para a saúde e para a imunidade”, finaliza. 

 

Dica de entrevista

Edna Kahhale

E-mail: ednakahhale@pucsp.br

 

Jéssica Paula (jessica@agenciaaids.com.br)