Estreou na noite dessa terça-feira (6), a série de livesAbril Mês da Saúde: a saúde em tempos de pandemia”, com a participação da Dra. Mariângela Simão, que conversou com a jornalista Roseli Tardelli, editora da Agência Aids, sobre Saúde global e vacinas em tempos de pandemia”. A médica de Curitiba, atualmente morando em Genebra, Suíça, se dedica à saúde pública há 40 anos e desde 2017 ocupa o cargo de diretora-geral assistente para Acesso a Medicamentos, Vacinas e Produtos Farmacêuticos na Organização Mundial da Saúde (OMS).

Dra. Mariângela está na coordenação da formulação de mecanismos globais para assegurar alocação justa e acesso equitativo a vacinas e terapias que sejam comprovadamente eficazes e seguras contra o novo coronavírus.

Foi diretora por mais de cinco anos do Departamento de DST/AIDS/Hepatites Virais do Ministério da Saúde, onde se destacou pela atuação na garantia do acesso a medicamentos e na defesa de direitos das populações mais vulneráveis ao HIV. Antes da OMS, integrou o corpo diretivo do Programa das Nações Unidas para o HIV e AIDS (UNAIDS) na Suíça, onde também foi diretora do departamento de Prevenção, Direitos Humanos e Gênero até 2017.

Cotidiano na pandemia

Para iniciar a conversa, Roseli quis saber de Mariângela como tem sido o cotidiano dela nesse primeiro ano de pandemia.

Ela contou que, apesar de a Suíça estar em lockdown parcial e muitos estarem trabalhando em casa, um pequeno número de funcionários da OMS continua indo ao escritório diariamente, que é o caso dela. “Então saio cedo, volto tarde, e trabalho nos finais de semana”, comentou. Para os afazeres diários, ela conta com uma pessoa que a ajuda duas vezes por semana. Sábado ela reserva para as compras de supermercado e, mais recentemente com a chegada da primavera e melhora do clima, faz uma caminhada eventualmente.

Mariângela acredita que o mundo vai voltar a uma convivência mais fácil novamente. “Todo esse ano, um ano e três meses, que estamos convivendo com esse coronavírus, aprendemos muitas coisas. E à medida que o tempo passa, a gente aprende o que funciona e o que não funciona. Por exemplo, no Brasil e no mundo, aprendemos que essas medidas clássicas de segurança vão ficar algum tempo: o uso de máscaras consistente, ambientes ventilados, evitar aglomerações, distanciamento físico, fechamento do comércio em casos específicos para diminuir a transmissão comunitária. A gente já aprendeu que essas medidas têm que estar postas junto com as medidas de vacinação. As vacinas têm trazido ganhos incomensuráveis em termos de saúde infantil e mesmo nos idosos. O que a gente está vendo ainda este ano é que nenhum país está totalmente livre de ter um surto renovado. O vírus não está erradicado e tem essas variantes”, ressaltou. Ela explicou que os vírus sempre sofrem mutações e o HIV é um exemplo muito conhecido. Quando as pessoas começam a ser tratadas, o vírus muda e cria resistência ao medicamento. “Uma variante é quando essa mutação se torna bem predominante e é constante. Esse vírus está mudando e está criando algumas variantes, a P1, que é a variante do Brasil, mas tem pelo menos outras três de interesse de saúde pública circulando. Isso cria muitas incertezas sobre as medidas de controle, menos com relação a essas medidas universais que comentamos antes.”

A jovem Mariângela

A medicina

Roseli quis saber porque Mariângela resolveu ser médica, se foi uma decisão precoce, uma vez que a mãe era professora e o pai empreendedor na área imobiliária, então poderia ter tomado rumos profissionais totalmente diversos.

Na adolescência, ela queria ser astrônoma. Passou um ano em intercâmbio nos Estados Unidos e, quando voltou, percebeu que gostava de trabalhar com gente e pensou em seguir psicologia. Um tio dela psiquiatra, já falecido, sugeriu que ela fizesse medicina e se especializasse em psiquiatria. “Fiz medicina, psiquiatria no Brasil era meio difícil na época, uma tendência muito conservadora, e acabei fazendo pediatria e vim para a saúde pública. Foi tudo meio por acaso”, disse.

Ela brinca que, depois que se tornou mãe, se tornou uma pediatra melhor, porque entendia melhor as mães. “Quando me perguntam se tenho alguma indicação de pediatra, eu digo para procurarem alguém que não seja tão novo, obcecado com a ciência, que tenha 30 ou 40 anos e que tenha filhos”.

Mariângela tem dois filhos: Luciano, jornalista fazendo doutorado em Portugal e Felipe, farmacêutico trabalhando com bioinformática e genética, estabelecido na Finlândia.

Mariângela com o marido, filhos e noras

Mãe Curitibana

Aposentada pela Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba, no Paraná, a médica foi uma das pessoas que participou da primeira implantação do programa Mãe Curitibana anos atrás. “O programa começou com a ideia de começar a fazer teste de HIV no pré-Natal, que não era feito em nenhum lugar do Brasil. Naquela época, Curitiba enfrentava uma fase em que as gestantes rodavam pela cidade sem achar um lugar para fazer o parto. Era uma coisa tão absurda, porque não há nada em saúde pública que seja mais ‘planejável’ do que uma gestação, porque ela vai acabar de algum jeito. Você sabe quantas mulheres ficam grávidas todos os anos. Como é que você não pode, pelo sistema de saúde, organizar o atendimento de modo que ela possa saber onde vai ter o bebê?”, criticou. Então, um programa que inicialmente tinha como objetivo a vinculação da gestante à atenção primária à saúde e ao trabalho de parto, foi evoluindo para também incluir a diminuição da mortalidade infantil.

Brasil

A diretora da Agência Aids comentou que durante a pandemia da aids o Brasil foi referência para o mundo e hoje é responsável por um terço das mortes por covid-19 no mundo. “O que aconteceu com o Brasil? Nós temos um know-how de vacinação e tínhamos um know-how de lidar com doenças difíceis, onde a gente se perdeu?”, questionou Roseli.

Na opinião de Mariângela, muitos países estão com dificuldades, não só o Brasil, que está em um momento de transmissão comunitária muito intensa. Ninguém estava preparado. “Quando você pensaria que a Inglaterra, que tem um sistema público de saúde muito firme e estabelecido desde o final da Segunda Guerra Mundial, reconhecido pela população como um fato de bem estar social, estaria passando pelo aperto que passou no ano passado e ainda está passando?”, argumentou. Ela sugere que a situação seja colocada na perspectiva certa – a Inglaterra, um país rico e desenvolvido, e o Brasil, um país em desenvolvimento – e a Inglaterra ainda passa por lockdowns sem parar, mesmo sendo um dos países com maior cobertura de vacinação no mundo. Além disso, tem um sistema de proteção social mais robusto do que o Brasil, com uma malha que pode fazer um ajuste financeiro para as pessoas que precisam trabalhar e têm que ficar em casa.

Patentes

Mariângela Simão ao lado do então ministro da Saúde José Gomes Temporão durante a cerimônia de  entrega do primeiro lote de efavirenz produzido pela Fiocruz

Em 2007, época em que Mariângela estava à frente do então Departamento de DST/AIDS/Hepatites Virais do Ministério da Saúde, o governo Lula decretou pela primeira vez no Brasil o licenciamento compulsório de um medicamento, o antirretroviral Efavirenz, utilizado no tratamento da aids. “Qual é o peso político que o Brasil tem em apoiar hoje a intenção da OMC em suspender as patentes de vacinas para que mais países tenham acesso à vacinação?”, perguntou Roseli.

“É claro que o Brasil sempre foi uma voz de peso nessa área, mas ainda assim é uma conformação difícil de avaliar no momento. Essa discussão que está acontecendo agora é baseada em acordos aprovados na OMC e é para ter uma moratória durante a pandemia para produtos contra covid. É uma iniciativa dos governos sul africano e indiano. Mais de cinquenta países já apoiaram, até o momento o Brasil não apoiou. Há várias questões relacionadas, porque vacina é diferente de medicamento como a gente conhece. Temos empresas nacionais que fabricam as duas coisas, mas existem as biológicas, indústrias que produzem somente vacinas. O contexto é diferente. Se formos reproduzir do zero como o Brasil fez com o efavirenz, com a vacina demoraria muito mais tempo. O diretor da OMS, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, é muito favorável a essa moratória das patentes, mas o que a gente tem colocado também é que é preciso ter uma visão equilibrada no momento, que pode ser também o licenciamento voluntário com objetivo de saúde pública, onde haja transferência de tecnologia, que pode ser um processo mais rápido”, pontuou a médica.

Ela ainda disse que há muita controvérsia sobre o assunto e a discussão global está muito polarizada, porque há países que normalmente sempre se opõem a qualquer mudança no sistema patentário. É uma discussão de quão importante é uma moratória agora. “O Dr, Tedros tem sido muito forte nesse sentido, se não for em uma emergência, quando vai ser?”

Covax Facility

O Covax Facility , iniciativa da OMS, é uma aliança internacional com cerca de 190 países, Brasil inclusive, que visa acelerar o desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19 e universalizar o acesso a um eventual imunizante eficaz contra o novo coronavírus

Em fevereiro, março do ano passado, quando começou a ocorrer um maior número de casos, aparecendo em muitos países e foi se gerando evidência do tipo de transmissão, a OMS articulou uma parceria com alguns países e instituições nas áreas de diagnóstico, tratamento e vacina. No final de abril, Dr. Tedros, juntamente com a chanceler da Alemanha Angela Merkel, o presidente da Costa Rica, o presidente da França Macron, Bill Gates e outros parceiros lançaram esse acelerador para acesso a tecnologias da Covid, o ACT Accelerator. Foi muito importante fazer isso porque trouxe uma coordenação global que trabalham mais ou menos juntos, tem fundações, indústrias de genéricos… Foi uma conjuminação de trazer todo mundo junto para unificar ou coordenar os esforços de fazer pesquisa e desenvolvimento desses produtos, que poderiam fazer diagnóstico mais precoce, ser usados para tratamento e desenvolvidos como vacina. Essa articulação vai fazer um ano agora e o pilar da vacina é o Covax, coordenado pela OMS, pela iniciativa de vacinas GAVI e pelo CEPI (Coalition for Epidemic Preparedness Innovations). Foi lançado em julho, em uma época em que não se sabia qual vacina, ou se alguma vacina iria funcionar. Tinha algumas vacinas no portfólio que hoje estão sendo distribuídas, cerca de 50 milhões de doses agora”.

Ela ressaltou que, ao mesmo tempo que há uma expectativa enorme em torno das vacinas, não há uma produção estável no mundo. “É importante que as pessoas saibam que não devem ter uma falsa segurança porque chegou a vacina, primeiro porque não há vacina o suficiente. Segundo porque a gente ainda não tem evidência suficiente de que a vacina diminui a transmissão, é muito provável que diminua. Você pode pegar covid mesmo se tomou a vacina, por isso precisa manter as medidas de segurança, mas se você pegar esse vírus, você não vai ter doença severa, não vai morrer por isso.”

O aprendizado na pandemia

“Ninguém estava preparado. Você tem um problema como o HIV, que  também é uma pandemia, mas teve uma evolução lenta. Claro, em termos numéricos o HIV teve 36 milhões de mortes  e foi se fazendo ao longo dos anos. No mundo, cada vez que você tem uma pandemia, porque esta não é  a primeira nas nossas vidas, mas é a pandemia mais importante que estamos vivendo. A gente nem lembra os problemas da cólera. No começo dos anos 90, tivemos situações de risco regional como a cólera no Peru que afetou regiões vizinhas no Brasil. O que essa pandemia mostrou é que cada vez que temos um problema global, o mundo se interessa.  E como demora pra acontecer, o mundo se desinteressa . A OMS tem uma Assembleia Mundial de Saúde todos os anos e está propondo a criação de uma convenção, um tratado para preparação de pandemias, com obrigações para o setor privado. Como é isso na prática? Todo mundo lembra as questões com relação ao tabaco: por que se tornou gradativamente proibido fumar em determinados ambientes, foram incluídos avisos nas embalagens de cigarro? Porque houve uma convenção global que torna obrigatório que os países tomem determinadas medidas. É isso que está se buscando agora no âmbito da Assembleia Mundial de Saúde que acontece agora em maio, que haja uma convenção, um tratado, porque aí durante uma pandemia os países são obrigados a tomar determinadas atitudes. Já existe o relatório sanitário mundial que os países são obrigados a notificar. Mas um tratado tem também obrigações também para o setor privado, não só para os governos. Esse globalmente é um ponto que é de ensinamento, que agora a gente precisa ter uma estrutura legal, normativa, que todos os países tenham que atender e quando houver um problema desse tipo de novo, haverá mais regras. Existem regras hoje, mas não o suficiente, principalmente no que diz respeito ao acesso a bens e serviços”.

A pandemia mostrou a desigualdade presente em todos os países

“Do ponto de vista pessoal, como o mundo é desigual, não é? Para mim essa pandemia só demonstrou que a desigualdade está presente em todos os países. Você viu que a letalidade dos casos de covid foi diferente,  até em países com sistemas de bem estar social como a Inglaterra, a letalidade diferente  entre brancos e os imigrantes, das diferentes etnias. Desigualdade sempre existiu, mas pra mim o que choca ainda é a inequidade no acesso aos bens e produtos de saúde. Há muita conversa sobre solidariedade, mas na prática essa solidariedade entre os países, não são todos, entre alguns países mais ricos e o resto do mundo…a sensação de que a gente tem que estar todos juntos…Tem coisas boas, há muita cooperação no momento. Mas a inequidade continua sendo inaceitável, porque a inequidade no serviço de saúde é perversa. As inequidades no acesso à saúde poderiam estar resolvidas, poderiam estar melhor do que estão”.

Quanto mais demorar para haver equidade no acesso às vacinas, mais tempo dá pra novas variantes de interesse da saúde pública surgirem

Roseli perguntou à médica o que precisa acontecer para que mais países tenham acesso às vacinas e para que a vacina chegue ao maior número de pessoas possível.

“Uma delas é aumentar a produção, obviamente, e outra é garantir que nos países vacinem os grupos prioritário. Um dos objetivos da OMS é que, até o dia 10 de abril, cem dias deste ano, tivesse começado a vacinação em todos os países para trabalhadores e trabalhadoras de saúde. A gente tem um objetivo este ano, que ajuda a economia indiretamente, mas o objetivo principal é diminuir a mortalidade pela covid. Por isso, a OMS recomenda como população prioritária para ser vacinada os profissionais de saúde. Se você não tiver quem atenda, você entra em colapso e tem também o fato de que eles estão mais expostos. E as pessoas com maior risco de adoecer, maiores de 65 anos e com comorbidades. Essas são as recomendações da OMS e os países estão adaptando. No momento em que estamos, precisa haver uma solidariedade mais concreta dos países que têm vacina a mais do que o necessário. Hoje, mesmo que você tenha dinheiro, você não tem onde comprar, não tem o que comprar. O Canadá tem 6 ou 7 vezes mais do que o necessário, os Estados Unidos e alguns países europeus, outro tanto. Mas, esses países ainda estão priorizando as suas próprias populações. Meu chefe, Dr. Tedros, tem falado com muita frequência que o mundo tem que estar em volta do objetivo de evitar que as pessoas adoeçam gravemente e morram. E não é vacinar toda a população acima de 18 anos, porque tem pessoas que têm riscos diferentes de adoecer e morrer. Ele diz que é um ultraje moral alguns países estarem vacinando população de menor risco, enquanto em outros países você tem países com maior risco e não estão tendo acesso à vacina. Esse “nacionalismo de vacina” não ajuda, cria uma falsa sensação segurança, porque enquanto houver surto em algum lugar, ele pode chegar no seu país. Quanto mais demorar para haver equidade no acesso às vacinas, mais tempo dá pra novas variantes de interesse da saúde pública surgirem”.

 

Encerrando a conversa, Roseli quis saber da médica qual energia Mariângela queria deixar para as pessoas que acompanharam a entrevista.

“Quero dizer que todos estão cansados, mas não acabou ainda e vai demorar um pouco. Mas vai passar. O mundo já passou por várias pandemias, algumas mais graves, outras menos graves. Esta é a pandemia que nós estamos vivendo. E a gente ter que ter confiança que tem luz no final do túnel e que vai passar. Mas enquanto a gente não chega lá, cada um tem que tomar cuidado… Eu quero passar uma mensagem de otimismo. Está cansado, mas aguenta mais um pouco.”

Assista a live completa pelo link: https://youtu.be/PmK57NWLYwI

 

 

Redação Agência de Notícias da Aids

 

Dica de Entrevista:

 

Dra. Mariângela Simão

E-mail: simaom@who.int