A primeira live da Agência Aids em 2021 não poderia ter começado diferente. No momento em que o mundo busca estratégias para vacinar o maior número de pessoas contra covid-19 e que a vacina está mais próxima do SUS (Sistema Único de , a jornalista Roseli Tardelli conversou com o infectologista Rico Vasconcelos sobre os desafios da vacinação em massa. Em quanto tempo o Brasil vai vacinar todo mundo? As orientações para o distanciamento social estão valendo? A vacina do Butantan é segura? Tem efeitos adverso? As pessoas com HIV estão incluídas no grupo prioritário de vacinação? Essas e outras perguntas foram respondidas na noite dessa terça-feira (12), na live “A importância das pessoas vivendo com HIV serem vacinadas contra a covid-19. O especialista falou sobre a descoberta de uma vacina eficaz em um curto espaço de tempo,

Antes do bate-papo, Roseli exibiu em primeira mão a parte 1 da entrevista com o Dr. Rico na série ‘Aids e Suas Histórias’. Na sequência, ela perguntou ao médico quais são os critérios de vacinação contra covid-19.

“Sabemos que de todas as pessoas que se infectam com o coronavírus, 85% vão conseguir tirar letra, ter alguns sintomas ou não e retomar a vida rapidamente. Uma menor parcela da população, mais ou menos 15%, vão ter problemas um pouco mais sérios e precisarão de suporte, como oxigênio, fisioterapia. Os casos mais graves são de pessoas que vão para UTI. Quando você pensa em priorização de vacinação contra a covid-19, estamos querendo dizer que quem tem mais chances de ir mal, como esses 15%, devem ser os primeiros a ser vacinados. Sabemos que os mais idosos têm mais chances de ir mal com a covid, além das pessoas obesas, com diabetes, doença pulmonar, doença cardíaca. Essas sem dúvidas estarão no grupo de pessoas prioritárias que devem ser vacinadas. Mas ainda não temos muito claro se pessoas com outros tipos de doenças crônicas, como o HIV, estarão no grupo prioritário.”

HIV e covid

Dr. Rico contou que no começo da pandemia “não sabíamos se viver com HIV era um fator que aumentavam as chances de uma pessoa ir mal com covid. O tempo passou, muitos estudos foram publicados, e a maioria deles afirmaram que não. Uma pessoa que vive com HIV, com a doença controlada, carga viral indetectável, imunidade boa e que não é obesa, diabética, não tem doença pulmonar, não tem doença cardíaca, essa é uma pessoa que vai ter uma boa evolução com a covid. Existem alguns trabalhos que traz outros resultados. Apontam, por exemplo, que o HIV acabou sendo sim um fator de risco isolado para que a covid-19 evoluísse mal, mas isso não é um consenso entre especialistas.”

De acordo com o médico, não existe uma indicação absoluta de incluir pessoas vivendo com HIV dentro dos grupos prioritários. “Cada país está fazendo de um jeito. No Reino Unido, por exemplo, eles estabeleceram que pessoas vivendo com HIV serão priorizadas. E pessoas com HIV e baixa unidade serão ainda mais prioritárias. Em outros países não existem essas informações de forma clara. No Brasil, nem o Programa Estadual de Imunização para covid em São Paulo, nem o Programa Federal, estabeleceram que HIV será um critério de priorização, mas eles têm um item chamado doenças crônicas, o que é muito amplo. Se eu tiver alergia a camarão vou ser imunizado primeiro? Isso é uma doença crônica”, questionou.

Essa discussão, segundo Dr. Rico, já acontece há muitos anos na vacinação da gripe. “Quem tem chance de ir mal com a influenza? Não são todas as doenças crônicas. Eu tenho a impressão de que vai acontecer alguma coisa parecida com o que já acontece com a vacina da gripe. O poder público vai ter que ser muito organizado. Diferente da gripe, existe um apelo muito grande para tomar a vacina de covid. Seria muito bom se o poder púbico estabelece quais são as doenças crônicas que devem ser vacinadas antes. Penso que todo mundo deveria ser vacinado.”

O distanciamento social continua

O médico explicou que a vacina é um item importante na prevenção da covid, mas que enquanto grande parte da população não for vacinada, ainda teremos que ter cuidados com distanciamento e máscara, até ver que o vírus não está mais circulando. “Quando o vírus não tiver mais circulando a gente vai pode começar a relaxar. Olha para China, Coreia e Nova Zelândia, eles já chegaram mais de uma vez a níveis não epidêmicos, onde o vírus não estava mais circulando, de repente apareceu outra vez. Vem gente de fora infectada e encontra um grupo que ainda não foi vacinado. Vira um surto. Por isso, não dá para tomar a vacina e jogar a máscara para o alto. Temos que continuar atentos aos números da pandemia e as orientações dos órgãos responsáveis pelo controle dela. Acho que vai dá tudo certo, sou um dos adoradores de vacinas, funciona muito para coisas com essa, mas só funciona se a gente conseguir ter uma cobertura ampla da vacinação. Há alguns anos, aqui no Brasil, tivemos um surto de casos sarampo. Isso aconteceu porque tinha um número grande de pessoas que não se vacinaram contra o sarampo. Chamamos isso de bolsão de suscetíveis.”

Mesmo sendo entusiasta da vacina, Rico defende que ela não deve ser obrigatória. “Precisamos de campanhas com mensagens claras sobre o quanto é importante que todos se vacinem.”

Vacina segura

A Anvisa deve decidir no domingo sobre o uso emergencial da coronavac, do Butantan.  No entanto, há dúvidas sobre a eficácia da vacina. “O que significa um estudo de vacinas em menos de um ano?”, perguntou o ativista Américo Nunes, coordenador do Mopaids. “Significa que a ciência se debruçou mais para ter essa resposta?”, completou Roseli.

“Significa que houve um empenho grande, também financeiro, muito dinheiro injetado nas pesquisas para que elas acontecessem. A gente estava vivendo o ano de 2020 quando de repente aparece esse vírus aqui e de um mês para o outro o Butantan conseguiu quase 90 milhões de reais para desenvolver todo o ensaio clínico de fase 3. Houve um empenho de cientistas/pesquisadores, financeiro e o empenho de voluntários para participar das pesquisas. A soma desses empenhos todos em cima de uma plataforma de vacina que já estava quase pronta fez com que a gente tivesse resultados rápidos de segurança e eficácia. A gente trabalha em um estudo de fase 3 de vacinas da seguinte maneira: pega um grupo de pessoas, metade delas é vacinada com a vacina que estamos testando e a outra metade recebe placebo ou outra vacina. Soltamos essa galera no mundo, sem elas saber que vacina recebeu. Depois de um tempo a gente olha quantos casos de covid aconteceram em um grupo e compara com o outro. Quando você faz um ensaio clinico de fase 3 como esse em um momento de epidemia, com muita gente pegando covid, essa diferença de quem tomou a vacina e o placebo se torna visível rapidamente. Por isso, a gente procura pessoas mais vulneráveis a doença que a vacina pode proteger. Se eu estou incluindo no ensaio clinico profissionais da saúde que trabalham na unidade que atende covid, rapidamente vou ver a diferença de número de casos entre quem recebeu a vacina e o placebo. A chance de um profissional de saúde pegar covid é muito maior.”

Dados da coronavac

Do canal Super indetectável, João Geraldo quis saber mais detalhes sobre a eficácia divulgada da coronavac. “Antes, o Butantan tinha dito que era 78%, agora estamos com um pouco mais de 50%. O que significa essa diferença de números?”

“As pessoas precisam entender que existem vários elementos dentro de uma pesquisa de vacina de covid que podem mudar de uma vacina para outra. Cada estudo usou um critério. O estudo do Butantan utilizou uma classificação que a OMS usa para graduar a gravidade da covid. Existem pessoas que pegam o coronavírus e não tem nada, tem as que desenvolvem uma gripezinha, as com gripezona e aquelas que vão parar na UTI e morrem. A OMS graduou essa gravidade da covid em pontos. 1 é o assintomático e mais que 6 é o caso muito grave. O Butantan fez uma análise de acordo com a gravidade definida pela OMS. Por isso, que na semana passada eles divulgaram 78% e agora 50%. São diferenças de proteção que a vacina teve em diferentes graus de gravidade da doença. Quando a gente considera casos muito leves ou assintomáticos, a proteção foi de 50,4%. Quando você considera casos com um pouco mais de gravidade, onde a pessoa teve até que procurar algum tipo de atendimento, foi internada e a óbito, você tem uma diferença muito grande entre quem tomou vacina e quem tomou placebo. O importante de uma imunização populacional é evitar que pessoas morram, desafogar os serviços de saúde, desafogar as UTIs e conseguir fazer com que aqueles poucos casos que não foram vacinados e acabam tendo gravidade consigam encontrar um serviço capaz de atendê-los e impedir que morram. Você ter uma diminuição de 78% de casos graves e nenhuma morte no grupo que recebeu a vacina do Butantan é extremamente importante e útil para controlar a pandemia no Brasil. 50,4 para casos leves e 78% para casos mais graves é excelente”, comentou.

Politização

Um dos problemas da vacina de covid, segundo Dr. Rico é a politização. “A vacina de covid foi politizada a um nível tal que eu gosto de perguntar para as pessoas se elas sabem qual é a eficácia protetora ou o perfil de segurança da vacina de hepatite A, B, sarampo, febre amarela. Se você soubesse, talvez não tomaria a vacina. O perfil de segurança da vacina de febre amarela é super complicado, a pessoa pode desenvolver febre amarela e morrer de febre amarela a partir da vacinação, uma vez que é uma vacina feita a partir de vírus vivo. Isso ninguém quis saber. Quando teve um surto de febre amarela, todo mundo foi dormir na porta do postinho aqui em São Paulo para se vacinar. Agora, estamos vendo as pessoas falando que estão preocupadas com o perfil de segurança e eventos adversos, que só protegeu 78% de internações, por isso não é uma vacina boa. A reação da população dessa forma vem muito da comunicação que vem sendo feita sobre a vacina. Ao invés de divulgar a importância da população inteira se vacinar, as pessoas estão querendo colocar na campanha de vacinação o direito de não se vacinar. Tem que colocar que 78% é muito bom e se você tomar a vacina, pegar covid leve, tudo bem, isso não tem problema para a sua saúde.”

Importância da vacinação coletiva

Roseli quis saber qual é a importância de todas as pessoas se vacinarem.

“É importante se vacinar para diminuir a circulação do vírus e para que não haja mais a transmissão de forma epidêmica. Temos que ter uma epidemia diminuindo.”

Nosso grande desafio quando falamos de Brasil é não continuar com casos crescentes de infecção pela covid-19?

“Cada novo caso de covid diagnosticado passou para quantas pessoas? Se o R0 for 2 significa que cada pessoa infectada passou para duas. Em alguns dias você tem uma explosão de novos casos. Quando você tem um R0 menos do que 1 significa que você tem uma epidemia que está desacelerando, é isso que queremos fazer com a vacina. Desacelerar a epidemia, até que uma hora vai zerar, como aconteceu na China. Se o vírus for reintroduzido você vacina as pessoas mais suscetíveis, o R0 diminui e você controla o surto. Estamos tendo toda essa discussão por causa da politização que foi espalhada sobre esse assunto vacina.”

Lockdown

Essa semana publicamos na Agencia Aids uma reportagem do O Globo com um pesquisador do Oxford. Ele disse que a vacina está em um horizonte próximo, mas que o Brasil precisa entrar em Lockdown para efetivamente a vacina chegar e controlar a pandemia. A Inglaterra, apesar de já ter começado a vacinação, ainda está tendo novos casos. O que fazer?

O Reino Unido, por mais que tenha sido o primeiro país do mundo a vacinar pessoas, ainda não vacinou toda a população. Para operacionalizar a vacinação da população inteira de um país dá trabalho, leva tempo. Enquanto tiver pessoas suscetíveis, o vírus vai continuar transmitindo. Em novembro, o Reino Unido teve uma explosão dos novos casos. Parte é justificada pelas festas do Ano Novo e em parte é justificada pela mutação do vírus. Por isso, se anteciparam, começaram a vacinar e estão em lockdown. O Brasil também está em um momento de explosão dos novos casos, em parte justificada pelo relaxamento nas medidas de proteção e em parte justificada por uma variante do vírus que está circulando aqui. Isso tem relação com a evolução natural do vírus. Quando a gente olha para o número de novos casos no Brasil, a gente está explodindo também.

“Existem efeitos adversos a vacina do Butantan?”, perguntou Fefa Peres, via Facebook. “Tudo que a gente quer com um ensaio clinico de vacinas é encontrar duas respostas. A primeira é se a vacina é segura. Ela vai fazer mais bem do que mal? Eu posso encontrar uma vacina que tenha uma eficácia de 100% contra o covid, mas ela deixou todo mundo cego, essa é uma vacina que não presta. A segurança da vacina é uma das prioridades que deve ser respondida com o ensaio clinico. A outra é a eficácia protetora. A coronavac é tão segura quanto outras vacinas que utilizam a mesma técnica, a técnica de vírus inativado. Tão segura quanto a vacina da gripe, poucas pessoas têm reação adversa, e quando tem são reações simples, como dor no lugar da aplicação.”

A jornalista Maria Fuente, do Pride Bank, também acompanhou a live ao vivo e perguntou se pessoas com alergia a benzetacil podem tomar a vacina? “Rico respondeu que sim. “Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A única coisa que existe em comum é a seringa e a agulha.”

As pessoas que já se infectaram também devem se vacina? Por que?, quis saber Roseli.

“Sim. A gente já sabe que depois que uma pessoa produz alguma imunidade contra a covid essa proteção é temporária. Isso é o que acontece com a gripe. Quando eu pego gripe, eu faço uma reação imune que vai me proteger por algum tempo de uma outra gripe, mas ela vai caindo até que uma hora vou estar vulnerável novamente a gripe. Esse é um dos motivos pelo qual pessoas que tem indicação de tomar a vacina da gripe são vacinadas anualmente. Um ano depois, aquela imunidade que a pessoa fez não está mais presente.”

Salas de vacinação

O Brasil tem 38 mil salas de vacinação em todo território nacional. Em quanto tempo a gente consegue vacinar a população brasileira?

“A gente consegue dentro de um ou dois meses vacinar todas as pessoas que têm critérios para tomar a vacina da gripe. Acredito que dentro de um, dois ou três meses a gente vai ter vacinado todos os prioritários. A partir daí a gente vai começar a vacinar o resto da população, que é a maior parte. Pensando que as pessoas vão querer se vacinar e o sistema público de saúde vai estar com vontade de vacinar essas pessoas, bem alinhado e organizado, acredito que até o final do ano vamos conseguir atingir a meta de vacinar todo mundo. Uma vacina que consiga ser distribuída usando o mesmo trilho que a vacina da gripe, terá maior facilidade para atingir uma cobertura ampla. A vacina do Butantan usa o mesmo cuidado de armazenamento da gripe.”

Ouvir sempre a autoridades sérias de saúde

O que não podemos fazer neste momento? “Quando o assunto é vacina, não podemos cair neste jogo que não tem relação com o controle da pandemia de covid. Vamos ouvir o que as autoridades sérias de saúde têm a dizer. Se a autoridade de saúde não tiver dando a informação que precisa ser dada, vamos procurar por canais que estejam dando. Existem inúmeros canais que estão fazendo a checagem de fatos e separando aquilo que é verdade, cientifico e técnico, daquilo que é balela. Não passe para frente uma informação que não tem uma fonte confiável. A gente não pode se desinformar.

Roseli perguntou qual é a receita do Dr. Rico neste momento de Brasil que estamos vivendo. “A gente nunca teve no Brasil um momento em que a epidemia estava mais descontrolada do que agora. Em menos de um mês explodimos e temos registrados 50 mil novos casos por dia. A receita que eu dou é que o pior não passou, o pior ainda está por vir se a gente não fizer nada. É verdade que ver a vacina no horizonte faz com que aquele sentimento de eu não aguento mais, isso está chegando ao fim, se aflore. Tem gente falando que bom que já temos a vacina e que a Anvisa vai liberar no domingo. Tem gente que acredita que vai começar a vacinar e que em breve vamos voltar a ter a vida que tínhamos antes da covid. É verdade que dá vontade de pensar isso, mas entre a Anvisa liberar a vacinação e voltar para a vida que tínhamos, ainda tem um tempo no meio do caminho. Não vamos relaxar. Sei que está todo mundo no limite, mas existem limites que não podem ser ultrapassados, limites éticos. Ainda é hora de evitar aglomeração, lavar as mãos e usar máscara. Nunca esteve tão perto a vacinação, não vamos desistir agora.”

A live durou mais de uma hora e estará disponível na integra em todas as redes sociais oficiais da Agência e também na TV Agência Aids. Há ainda o podcast da conversa.

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Dr. Rico Vasconcelos

E-mail: rico.vasconcelos@gmail.com