Dentro da série “Olha Elas – PositHIVas na Mídia”, projeto do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, com apoio financeiro do Fundo Positivo, quatro integrantes do MNCP conversaram sobre o autocuidado de mulheres vivendo com HIV/aids neste momento de pandemia da Covid-19.

Mediadas por Georgina Machado, participaram do bate-papo Jenice Pizão, Jaciara Pereira e Silvia Almeida.

Georgina Machado iniciou a conversa comentando que “as mulheres costumam dar carinho e cuidar dos filhos, do marido, dos amigos, mas qual momento elas reservam para cuidar de si mesmas? Ter um momento para fazer exercícios físicos, ter um cantinho para relaxar, para orar, para fazer uma boa adesão ao tratamento?” Enfim, tudo isso é o autocuidado.

 

Silvia Almeida observou que tudo na vida tem dois lados e nada é totalmente ruim. “Importante pra gente manter o nosso autocuidado é sempre olhar para o lado bom da coisa. Sempre ter em mente que tem coisas que a gente não vai resolver, ficar dando murro em ponta de faca. Então, tem momentos que você tem que parar, respirar, entender o que é seu, entender o que é do outro, e esse olhar de que a gente não vai mudar tudo, que o mais importante é a gente fazer a nossa parte, acho que esse é o caminho. A gente consegue sobreviver a muita turbulência, quando você respeita o outro, quando você respeita a sua posição e a posição antagônica, quando você não cria embate desnecessário. É claro que a gente está dentro de um ativismo, a gente tem que buscar direitos. A gente está dentro de um retrocesso, a gente não pode deixar a nossa peteca cair, os nossos direitos diminuírem. Mas a gente tem que fazer tudo isso com sensatez. A partir do momento que a gente perde a sensatez e vai brigando com todo mundo, a gente vai se envenenando. Então, eu acho que é saber que a gente tem um aparte importante para fazer, fazer o que a gente dá conta de fazer e respeitar o que o outro está fazendo. Acho que esta junção é o que tem me salvado.”

Para Jenice Pizão, é preciso buscar o equilíbrio para se fortalecer. “Cada pessoa tem uma forma para buscar esse equilíbrio. A grande pegada é: eu estou a fim de ficar bem, de me cuidar, de provocar mudanças em mim se for preciso? Esse é o xis da questão. Porque também eu posso não ter vontade de mudar nada. Eu posso ser aquela pessoa triste, infeliz, que carrega cruz, que reclama da vida, dos antirretrovirais, dos serviços e não faz nada para mudar. É uma possibilidade também. Mas é horrível isso, dá ruga, dá chatice. As pessoas não gostam de gente assim, se afastam. Também não dá pra gente ser o bobo da corte. A gente tem que buscar o equilíbrio, no físico, no espiritual, no mental, nas emoções e buscar os nossos direitos também. Porque não dá pra gente ser zen se não lutar pelos nossos direitos. Quando a gente fala no equilíbrio físico, tem a ver com a nossa adesão aos medicamentos. É fácil falar, mas a gente só vai ter uma boa adesão se a gente gostar da gente mesmo. Eu estou a fim de ficar bem, de ter saúde? Então, eu vou ter adesão. Eu vou buscar formas de me dar bem com aquele medicamento. Tem efeitos colaterais? Tem, mas a gente tem que buscar o que vai minimizar esses efeitos”, ressaltou a ativista.

Georgina quis saber de Jaciara como ela mantém o pique, durante a pandemia, de que forma ela consegue ouvir as mulheres do movimento, passar força, orientar no que for preciso. “Aqui no Nordeste a gente trabalha muito com essa questão do cuidar uma da outra. Nós sempre tínhamos uma reunião anual para fazer essa escuta, estar perto e resolver as demandas dentro do movimento. Hoje essa reunião não está acontecendo por causa da pandemia mas o autocuidado ainda acontece na escuta, através da ligação ou da vídeo chamada. E você me pergunta como eu tenho esse autocontrole. E eu tenho autocontrole? Eu também, como todas as meninas, estou buscando esse autocontrole, esse autocuidado. Eu também comecei a ter essa responsabilidade com a minha pessoa, porque eu entendi que eu sou uma cuidadora, mas também preciso de cuidado para ter equilíbrio para poder cuidar de todas as outras demandas que cabem a mim. A gente precisa, além de tudo que as meninas falaram, enquanto mulher vivendo, estar nos autoconhecendo, nos entendendo, para que a gente possa buscar essa ajuda quando estiver necessitando. O autocuidado é tudo isso que faz pra gente mesmo, com o intuito de ter melhor qualidade de vida. E quando a gente traz para a mulher vivendo com HIV/aids, eu costumo falar da aceitação do diagnóstico. Se a gente não aceitar o diagnóstico, a gente não vai ter o autocuidado, não vai ter boa adesão, não vai cuidar de pele, não vai ter uma boa noite de sono. A gente vai, de um certo modo, se vitimizar, e a gente não pode fazer isso, uma vez que a gente não pode se culpar de ter amado alguém e ter sido amada,” salientou Jaciara.

Assista o bate-papo na integra abaixo.

 

Redação Agência de Notícias da Aids

 

 

Dica de Entrevista:

 

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