Em homenagem ao Dia das Mães, comemorado no próximo domingo (9), a Agência de Notícias da Aids relembra histórias de mulheres que, para além da maternidade, se dedicam à luta contra a aids e o preconceito. Muitas delas, justamente por viverem com HIV, chegaram a acreditar que não poderiam ter filhos e precisaram enfrentar o estigma para construir suas famílias.

Por meio das histórias de vida aqui retratadas, homenageamos as mães pela coragem ao lidar com os desafios na busca por autonomia, direitos, acesso à tratamento e tantos outros desafios presentes na vida daquelas que vivem e convivem com o HIV e a hepatite.

Relembre a seguir as histórias das ativistas Jacqueline Côrtes, Vanessa Campos e Credileuda Azevedo. Todas integram o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, que desde 2004 atua no fortalecimento e acolhimento de mulheres com HIV/aids.

Jacqueline Côrtes

Jacque, como é chamada por todos, tem 56 anos e vive com HIV há mais de 20 anos. Para ela, receber o resultado positivo foi como uma sentença de morte. “O meu caso não foi diferente das outras pessoas que descobriam seu diagnóstico, naquela época”, conta. Recém-diagnosticada, ela buscou no ativismo ajuda para enfrentar a doença. Uma amiga sugeriu que procurasse o GIV (Grupo de Incentivo à Vida) e lá, além de receber acolhimento, ela deu os primeiros passos na militância de HIV/aids.

“Eu não queria ir até lá, porque eu não sabia se eu estaria viva nos próximos meses, mas minha mãe me deu muito apoio. Então, eu participei de um grupo de acolhimento e de ajuda mutua às pessoas vivendo com HIV. Conheci todo o tipo de gente e a diversidade humana se mostrava à minha frente. Todos me davam muito apoio.”

No GIV, ela fazia traduções de ensaios clínicos com novos medicamentos, participava das reuniões da ONG, mobilizações sociais e passeatas por políticas públicas para a aids. Depois, ajudou a fundar a RNP+ Brasil (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV) e foi descobrindo potenciais que não conhecia. “Eu tenho muito orgulho de falar que sou uma das fundadoras da RNP. Trabalhando pela rede eu descobri minha capacidade de oratória e minha veia ativista. Comecei a falar abertamente sobre minha sorologia e a dar entrevista mostrando o meu rosto. As pessoas davam entrevista de costas, por não querer mostrar que viviam com HIV, mas eu achava que a gente não tinha que se esconder”, lembra.

Hoje, com dois filhos, um adolescente de 14 anos e uma menina de 8, ela dedica sua vida à família. Vivendo com o marido há mais de 15 anos, faz questão de dizer que é casada no civil, pois considera essa condição uma importante conquista de sua vida.

“Era no ano de 94. Eu tinha que tratar os dentes, o dentista não queria me atender. Um outro profissional disse que eu só poderia me consultar aos sábados porque não poderia colocar os outros pacientes em risco. Ainda tinha muito essa questão de não poder compartilhar alimentos. Quantas e quantas vezes eu ofereci sorvete para amigos que sabiam que eu vivia com aids, e esses amigos ‘nunca gostavam de sorvete’.” Estas são algumas das situações permeadas por estigma que Jacqueline Côrtes, integrante do Movimento Lationamericano e do Caribe de Mulheres Posithivas e do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, relata ter vivido por ser uma mulher transexual vivendo com HIV.

Vanessa Campos

Em março de 1992 ela recebeu o diagnóstico. “Eu era uma adolescente sonhadora e que se achava bem informada”. Aos 17 anos, Vanessa Campos começou a namorar. “Procurei uma ginecologista para os devidos cuidados, quando decidi iniciar minha vida sexual. Nesta consulta não fui instruída sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, e eu nem sabia que camisinha existia”.

Seis meses após o término do relacionamento, Vanessa soube da morte do ex-namorado. Logo, foi instruída a fazer o exame de HIV. “Recebi o resultado junto com minha mãe e saí da consulta com uma certeza: não havia tratamento algum, eu teria seis meses de vida e o que eu podia fazer era continuar me cuidando com carinho.”

Apesar de a realidade mostrar a ela que as pessoas com HIV/aids não viviam por muito tempo, Vanessa não admitia “deixar os planos morrerem”. Por isso, não se abdicou de viver. Casou-se duas vezes com maridos que não tinham o vírus. “Contei para eles logo de cara. Eu disse pra ele: Menino, tenho um problema muito sério… eu nunca vou poder namorar ninguém. Ele respondeu: ‘Mas eu gostei de ti assim.’”

As duas uniões geraram 3 filhos no total. Dentre as situações de preconceito que vivenciou, uma das piores foi justo durante o parto da 3 filha. Discriminação vinda dos próprios profissionais de saúde. “Chegaram a mandar eu desinfetar os lugares por onde passei quarto do hospital. Isso já no ano de 2001”, conta indignada.

“Além disso, quando vi a cardeneta de vacinação da minha filha estava escrito bem na capa: filha de mãe HIV positivo. Isso é um absurdo”. Para ela, infelizmente, o preconceito continua o mesmo. “Hoje participo de encontros através do movimento social e vejo que, infelizmente, pouca coisa mudou.”

Vanessa usa o trabalha Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids para monitorar e buscar mudar aquilo que está a seu alcance. Mudança que começa de casa. “Minhas filhas foram preparadas pra isso, até pra que eu pudesse fazer a militância como gostaria.” Hoje, Vanessa tem 49 anos de idade e agradece por ter aprendido que “o vírus não me fazia pior e nem inferior a ninguém, foi aí que consegui me amar de verdade. O HIV não me define, o que me define é a forma com que eu lido com ele.” Recentemente ela venceu a covid-19.

Credileuda Azevedo

“Foi em agosto de 93. Minha irmã pensava estar com anemia e resolvi fazer uma bateria de exames junto com ela. Tudo para ela era doença. Quando peguei meu exame, estava lá: positivo”. Foi assim que Credileuda Costa de Azevedo descobriu que tinha HIV, aos 24 anos. Creuda, com é conhecida em toda a cidade de Horizonte, a 50 km de Fortaleza, teve a sorte de ser atendida pela “doutora Lurdinha”, a assistente social que a encaminhou ao tratamento. “Tive acesso a informação numa época em que todos diziam que quem tivesse aids só tinha três meses de vida”.

E Creuda viveu por um motivo especial. O filho de 3 anos e 4 meses de vida. “Levei ele pra fazer o exame. Deu negativo. O ciclo de vida é esse. A gente nasce, cresce, morre. E sei que um dia eu vou morrer, não sei do que, mas enquanto eu estiver viva, vou cuidar dele”.

Hoje, Creuda se dedica a cuidar também daqueles que não tiveram a sorte de encontrar alguém como Lurdinha em seu caminho. “Eu acompanho algumas pessoas que estão recebendo resultado positivo em hospitais. Elas acham que vão morrer, então temos um grupo para escutar o que elas passam além do HIV”. Ela encontra pelo caminho muitos daqueles que abandonaram o tratamento. “Por trás desse abandono vem a não aceitação da família, a miséria, a pobreza, ausência de uma boa alimentação.”

O segundo casamento, trouxe outro desafio. Uma segunda filha e o medo de transmitir o vírus para a criança. Em 2017, a pequena menina completou 21 anos de idade. Sem HIV. Hoje, Creuda é avó de dois netos. Casada há 6 anos com um marido sorodiscordante, a cada três meses faz exame para acompanhar a carga viral. Quando a conheceu, o marido de Creuda já sabia do HIV. “É que, na cidade, quem sabe quem é Creuda, sabe que ela tem HIV”, ela mesma justifica.

Tudo o que ela quer é “que a gente seja tratado por igual. Precisamos de um cuidado especial por termos HIV? Sim. Mas ainda somos seres humanos.”

Dica de entrevista

Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas

Email: movimentocidadasdf@hotmail.com