Ser mãe e ativista não é fácil para nenhuma mulher. A criação, educação dos filhos e o apoio até que a criança possa caminhar com autonomia no mundo demanda tempo, atenção, olhar sempre atento e muita dedicação. Neste Dia das Mães, comemorado no domingo (9), a Agência Aids presta uma homenagem às mulheres ativistas que, com HIV, se desdobraram e cuidaram de sua saúde, da dos companheiros e deram conta de educar os filhos e filhas para lidar com os desafios e preconceitos. São mães guerreiras, que enfrentam a aids, cada uma com sua história de vida, e se fortalecem na luta dentro do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP).

Há quase 20 anos, o MNCP tem trabalhado para garantir o fortalecimento das mulheres vivendo com HIV/aids e para promover o acesso a informações corretas, com evidências científicas, na prevenção e o tratamento do HIV. O movimento une esforços de mulheres de diversas cidades brasileiras, com o objetivo de visibilizar a realidade das mulheres posithivas, promover o diálogo e eliminar a discriminação relacionada ao HIV/aids. Muitas integrantes são mães, com trajetórias marcadas pela coragem na busca por autonomia, direitos, acesso à tratamento e tantos outros desafios presentes na vida daquelas que vivem e convivem com o HIV. O MNCP nasceu com a missão de acolher a todas, independente de credo, orientação sexual, raça ou cor, ou orientação político-partidária e identidade de gênero. O movimento reúne biografias marcadas por desigualdades sociais e de gênero, são mulheres que ano a ano contribuem para a reconstrução da identidade e apoio social.

Em tempos de pandemia, o MNCP continua atuante. Em março deste ano, o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas lançou uma campanha em defesa do Sistema Único de Saúde (SUS). Foram publicados mais de 80 cards postados na página do MNCP no Facebook com fotos das integrantes do Movimento e frases em defesa do SUS. Antes disso, as ativistas do MNCP se juntaram a tantas outras e criam uma rede de voluntariado para enfrentar o novo coronavírus. A ideia foi promover uma resposta adequada às necessidades das pessoas com HIV durante a pandemia.

Relembre a seguir as histórias das ativistas Nair Brito, Jenice Pizão e Silvia Almeida.

A luta pela vida sempre foi sua bandeira

Nair Brito tem uma boa explicação para o seu currículo recheado de combates na lutacontra a aids. Depois de receber o diagnóstico positivo para HIV, em 1993, aos 33 anos, viu que tinha duas escolhas: “Ou lutava. Ou morria. O meu sentimento era de que eu precisava reagir,” conta a pedagoga, uma das fundadoras do histórico MNCP (Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas).

Para o bem de cidadãs brasileiras, africanas, latinas, caribenhas, Nair, ao defender a própria vida, foi se envolvendo com a luta de todas e encorajando-as a conquistarem seus direitos. Hoje, com 60 anos, é uma das pessoas mais queridas e respeitadas no movimento social da aids.

Foi nessa militância e com a Dra. Áurea Abadde, advogada e coordenadora do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (GAPA) de São Paulo, que moveu uma das primeiras ações no País exigindo que o Estado cumprisse seu dever de prestar atendimento com medicamentos às pessoas com HIV e aids.

Na sua luta era preciso dar as pessoas vivendo com HIV a oportunidade de encontrar uma chance para viver, pois até então só tinham uma: esperar pela morte.

Nascida numa fazenda de café em Marumbi, no Paraná, Nair chegou a São Paulo com a família ainda criança e construiu sua vida na cidade, onde mora até hoje. Estava divorciada do primeiro casamento, cuidando do filho pequeno, o Roberto, quando descobriu que havia sido infectada por HIV.  “Era uma pessoa comum, ia do trabalho para casa e cuidava do meu filho. Não entendi nada quando os sintomas apareceram. Estive à beira da morte três vezes e vi muitos amigos morrerem”, conta.

Persistente, Nair sempre sonhou com a cura da aids. “Quero tanto que ela aconteça para que as pessoas possam viver mais felizes.” Isso lhe deu motivação para esses 26 anos de luta ininterrupta.

Além de ter fundado o MNCP e a Rede Paulista de Mulheres com HIV,  Nair também esteve à frente do Movimento Latino e Caribenho de Mulheres com HIV/Aids, criou o Projeto Saber para Reagir em Língua Portuguesa, o livro e o documentário “Flores Vermelhas”, contando a história do MNCP, participou dos grupos Toque de Mulher, foi articuladora com a sociedade civil no Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo entre muitas outras ações de alcance nacional e internacional.

Atualmente, embora acompanhe de perto as agendas dos movimentos sociais, ela não tem mais cargo em nenhuma instância. Mas isso não significa que Nair tenha desistido de lutar. Apenas mudou o jeito.

“Ser mãe é dar continuidade a vida”

Mãe da Lilian e avó do Pietro, do Antônio e do Ângelo, Jenice Pizão é uma guerreira que levou às soropositivas dos mais escondidos cantos do Brasil, da África e de países latino-americanos a luz da consciência sobre seus direitos de cidadãs positivas.

Professora de história aposentada, ao lado de Nair Brito, fundou em 2004 o histórico Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas e passou treze anos se dedicando quase integralmente a ele. Não dá para fazer as contas de quantas viagens, oficinas, projetos, manifestações ela liderou, tendo como meta conscientizar e empoderar as mulheres com HIV/aids.

Com 62 anos, divorciada, ela mora em Campinas (SP) e dedica boa parte do seu tempo a curtir a vida ao lado do neto mais novo, o Ângelo, de 8 anos. “É uma delícia ser avó. Meu neto me acompanha na natação, fazemos muitas coisas juntos”, comemorou.

Para ela, ser mãe é uma emoção única, é a continuidade da vida. “Quando me vi com HIV, a minha maior dor era perder a Lilian, ela só tinha treze anos e eu não podia morrer. Hoje, ela está com 43, é educadora e continuamos juntas, lutando pelos nossos ideais. Para ser mulher, saber da dor da mulher, da discriminação, você não precisa ser mãe. Ser mãe é um capítulo à parte, mas não fundamental. A gente pode ser mãe da vida.”

Entre os trabalhos mais marcantes, Jenice cita o Saber Para Reagir. Este trabalho, como foco em questões de gênero e direitos reprodutivos, envolvia o Brasil e todos os países africanos de língua portuguesa.

 “A maternidade me salvou!”

“A maternidade me fez lutar, querer viver e me tornou mais forte do que o vírus HIV.” É o que diz a extrovertida ativista Silvia Almeida. Ela tinha uma menina de 14 anos e um menino de 1 ano em 1994, quando soube que fora infectada pelo HIV. Na época, o marido e primeiro namorado, com quem mantinha um relacionamento havia dez anos, fora hospitalizado por causa de uma tuberculose. “Ele estava muito mal e foi diagnosticado com aids. Foi quando eu soube que também estava infectada”, conta ela.

A descoberta da sorologia foi um choque. Seus maiores medos eram de morrer, deixar os filhos e que seu bebê fosse portador do vírus por transmissão vertical. “Quando testamos meu filho, senti um alívio pelo resultado negativo. Mas, logo em seguida o medo de morrer e não poder cuidar deles foi muito grande.”

O marido de Silvinha morreu logo. Viúva, mãe e soropositiva, em um período de muito preconceito e pouca informação, ela precisava de forças para continuar. “Eu não tinha noção de como seria a minha vida, mas eu tinha certeza de que precisava viver, mesmo com o HIV.”

Uma grata surpresa aconteceu ao revelar sua sorologia ao RH da empresa em que trabalhava como telefonista, a Anglo American. Ela recebeu todo o amparo que precisava para enfrentar a doença.

Dois anos após receber seu diagnóstico, em um posto de saúde, Silvinha viu um cartaz que convidava as mulheres para um encontro que aconteceria no GIV (Grupo de Incentivo à Vida) sobre nutrição e aids. “O palestrante não pôde ir. Então, nós que estávamos ali batemos um papo. Mas saindo de lá, eu estava assustada, pois percebi que eu não tinha noção do que era ativismo. Saí achando que não era pra mim”.

Pouco tempo depois, numa das sessões de terapia que fazia, Silvinha foi aconselhada a conhecer o MNCP (Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas). O 1º Encontro Regional de Mulheres com HIV e Aids de São Paulo estava prestes a acontecer. Ela foi e conheceu Nair Brito, uma das fundadoras do grupo. Segundo conta, foi a partir desse encontro que sua vida começou a mudar, pois o medo se transformou em vontade de batalhar e trabalhar para que as pessoas tivessem mais informação.

27 anos após o diagnóstico, avó de três netos, Silvinha divide seu tempo entre a família, o atual marido, o combate às ISTs/aids e a difundir informação sobre sexualidade.  Há 25 anos, integra o GIV, com atuação no grupo Toque de Mulher.

Silvinha também já foi uma das facilitadoras do projeto Lá Em Casa – Saúde, Arte, Bem-Estar e Cidadania, centro de reabilitação física para pessoas carentes vivendo com HIV/aids. O centro funciona no bairro Casa Verde e é um projeto de Roseli Tardelli, diretora da Agência de Notícias da Aids.

Dica de entrevista

Nair Brito

E-mail: britonair@gmail.com

Jenice Pizão

E-mail: jpizao@gmail.com

Silvia Almeida

E-mail: silvinha.almeida11@gmail.com

Redação da Agência de Notícias da Aids