A Coordenadoria de IST/Aids de São Paulo informou que, a partir dessa semana, a unidade de saúde Centro de Testagem e Aconselhamento Santo Amaro poderá ser chamada de unidade Paula Legno. Essa é uma homenagem à técnica de enfermagem e agente de prevenção que faleceu no ano passado vítima da Covid-19.

Paula era mulher trans que encontrou na saúde uma oportunidade de trabalho e paixão. Seus cuidados foram reconhecidos como de suma importância por parte das pessoas que procuravam o serviço, além dos colegas de trabalho.

A história de Paula

Inserida no mercado de trabalho como articuladora do Centro de Cidadania LGBT, zona sul, em Santo Amaro, atuou posteriormente como técnica de enfermagem no Caps Álcool e Drogas (AD) II Capela do Socorro. Paula dizia ter sofrido menos preconceito e intolerância que a maioria da população LGBT, principalmente em função da aceitação e acolhimento que teve da sua família de origem. Mas reconhecia que há muito ainda a ser feito contra a transfobia, a intolerância e a violência.

Desde cedo Paula se percebeu diferente. Entrou em conflito psicológico, brigou consigo mesma, recorreu à ajuda divina. “Quantas vezes, aos doze, treze anos, eu olhava para o céu e dizia: Deus, eu não sou isso, eu não quero ser isso, mas é algo muito mais forte que a gente”, contava.

Na época da descoberta da sua transexualidade, ainda não havia o termo transexual, a denominação era travesti. “Era muito difícil encontrar travestis andando pelas ruas durante o dia, então a gente não tinha nem referência, nem orientação de como agir, etc.”

Com 16 anos, e achando que tudo era um mar de rosas, começou a se prostituir. Nessa época, estava cursando o primeiro ano do segundo grau e decidiu abandonar os estudos e ficou afastada da escola até os 32 anos de idade. Nesse intervalo, morou na Itália durante oito anos, “trabalhando nas ruas”, como ela mesma define.

Quando voltou para o Brasil, decidiu retomar os estudos. Fez o curso de auxiliar de enfermagem, em 1998. Mas precisou parar por falta de condições financeiras, e por ainda não ter concluído o ensino médio, “por ter ido conhecer o mundo”.

Para ela, muitas vezes as pessoas entram no armário para satisfazer a vontade da família, dos pais, da sociedade, porque é muito difícil ser trans. “Não é opção, afinal, quem gosta de ser maltratado e agredido verbalmente e até fisicamente”, questionava lembrando que foi motivo de chacota quando criança, na escola.

Embora as informações sobre as questões ligadas à sexualidade estejam mais acessíveis, ela pontuava que as mudanças ainda não são suficientes.

A transição

Mais velha de uma família de três irmãos, Paula nasceu e cresceu na região de Santo Amaro, onde morou até os 22 anos. Com 16 anos começou a transição. “Até então eu era criada da casa para a escola e da escola para a casa. Daí uma trans mudou-se para a rua onde eu morava e, por meio dela, eu descobri como era o mundo lá fora”, explicou em entrevista à prefeirtura de São Paulo.

“Quando falei para a minha mãe sobre fazer minha transição, ela inicialmente não aceitou, talvez pelo impacto da notícia. Então, eu saí de casa e fui morar com umas amigas também trans. Depois de três meses, minha mãe me procurou e pediu para eu voltar pra casa, porque ela queria deitar sua cabeça no travesseiro e saber que o seu filho estava bem”. A partir disso, ela passou a usar somente o meu nome social.

O trabalho no CTA Santo Amaro 

Na época da inauguração do CTA Santo Amaro – que realiza diagnóstico e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, e oferece testes para HIV, sífilis e hepatites B e C, gratuitos e sigilosos –, a equipe profissional buscou travestis para serem as primeiras pacientes. “Assim, fui uma das primeiras”, orgulhava-se.

Quando surgiu a oportunidade de ser uma agente de prevenção, ela embarcou de cabeça. Paula ministrava oficinas sobre ISTs em escolas, empresas. Além disso, também atuava na unidade móvel  que visita lugares onde há grande concentração da população LGBT.

Mais informações

O CTA Santo Amaro – Paula Legno fica localizado na Av. Mário Lopes Leão, 240.