Tivemos na última semana o Dia da Conscientização do Câncer Anal, em 21 de março. Uma data pouco conhecida e muito importante, visto o tabu existente e que tanto atrapalha a prevenção e o diagnóstico das doenças anais. Em especial, destaca-se o aumento considerável dos casos de câncer anal (ou câncer) no ânus ao longo de últimas décadas.

Esse é um tipo de tumor raro, que pode ser confundido com outros tipos de ocorrências. Os sintomas incluem sangramento e dor anal, especialmente durante a evacuação. Acomete, em geral, pessoas com mais de 50 anos, que durante a vida praticaram sexo anal ou que estão infectadas pelo vírus do Papiloma Humano – HPV ou HIV.

Embora as estimativas de novos casos não estejam totalmente atualizadas no Brasil, o levantamento do Atlas de Mortalidade por Câncer do Instituto Nacional do Câncer (INCA), de 2019, aponta 893 mortes, sendo 393 homens e 500 mulheres. Claro, não são estatísticas comparáveis a doenças como câncer de mama ou de pulmão, mas isso não significa que esse tipo de tumor deva ser negligenciado, pois a incidência está aumentando, especialmente em mulheres.

A identificação e triagem de mulheres com alto risco facilita a detecção de pré-câncer anal e câncer em estágio inicial, melhora a sobrevida e potencialmente possibilita a utilização de terapias menos invasivas, em comparação com os tratamentos convencionais de quimiorradiação usados para cânceres avançados.

O problema é que nenhuma diretriz publicada recentemente descreve detalhes sobre o rastreamento de mulheres para câncer de células escamosas anal. A evidência disponível apoia a existência de grupos de mulheres com maior prevalência, como, por exemplo, mulheres com vírus da imunodeficiência humana, imunossupressão ou lesão genital anterior de alto grau. Mulheres com esse perfil clínico provavelmente se beneficiariam do rastreamento com alguma combinação de citologia anal e teste de HPV.

As recomendações de rastreio, inclusive, devem ser personalizadas conforme o grupo de mulheres de alto risco. No caso de mulheres com HIV positivo, o ideal é começar a triagem aos 35 anos. A avaliação do histórico pessoal, a inspeção visual e o exame retal digital devem ser realizados. A citologia para pesquisa de HPV anal também deve ser considerada. Essa triagem deve ser anual, ou possivelmente com menos frequência, com base na triagem inicial e contagens de CD4, que é um tipo de célula de defesa.

Por sua vez, mulheres que se incluam em uma das condições abaixo devem começar a triagem no momento do diagnóstico com observação da historia clínica, inspeção visual e toque retal, além da citologia de HPV anal anualmente:

– História de lesões pré-malignas em vulva ou vagina

– Câncer vulvar ou vaginal

– Imunossupressão devido a transplante ou 2 ou mais medicamentos imunossupressores

– HPV-16 + ou HPV-18

– História de câncer de colo do útero intra epitelial de grau 3

 

Em terceiro lugar, destaca-se o grupo de mulheres com história de câncer de colo do útero em estágio inicial (CIN3 ), que devem começar a triagem anualmente aos 50 anos ou entre dois e três anos após o diagnóstico. A análise da história pessoal e familiar, inspeção visual e toque retal, com citologia anal de HPV devem ser consideradas anualmente por três anos e, em seguida, a cada dois anos. Mulheres portadoras de infecção por HPV de subtipos 16 e 18 devem ser submetidas à anuscopia de alta resolução anual.

Diagnóstico e tratamento

Alterações de hábitos intestinais e a presença de sangue nas fezes são razões para consultar um coloproctologista. É importante que os pacientes não tenham vergonha de relatar esses sintomas ao médico, pois, quanto mais cedo o diagnóstico, melhor. O sinal mais comum é o sangramento anal vivo durante a evacuação, associado à dor na região do ânus. Coceira, ardor, secreções incomuns, feridas nesta região e impossibilidade para controlar a saída das fezes (incontinência fecal) também podem ocorrer.

Após a análise clínica do especialista e realização do exames de toque local e retal, o diagnóstico poderá ser confirmado com exames de anuscopia (exame endoscópico da região perianal, ânus, canal anal e a porção distal do reto) e a proctoscopia. Além disso, podem ser solicitados outros exames, como biópsia de uma amostra do tecido, e também ressonância magnética e PET-CT, que permitem detectar a extensão do tumor e orientar o melhor tratamento.

O tratamento pode ser clínico e/ou cirúrgico, mas o mais utilizado é a combinação de quimioterapia e radioterapia. A definição da estratégia dependerá do estadiamento do tumor, o que será avaliado durante o diagnóstico. Lógico, quanto mais cedo for a confirmação do diagnóstico, melhores e mais efetivos serão o tratamento e o prognóstico. Ou seja, não pode haver tabu quando falamos da prevenção de doenças!

Fonte: André Murad - Saúde Plena