As transsexuais e travestis de Diadema e municípios vizinhos tem um espaço de promoção de saúde e acolhimento desde setembro do ano passado.

Batizado com o nome “ DiaTrans”, o espaço é o primeiro ambulatório do ABCD dedicado integralmente a população de travestis e transexuais do município. O serviço oferece atendimento de saúde, acolhimento médico ambulatorial e pré e pós-operatório, acolhimento em enfermagem, psicologia, psiquiatria e serviço social, tratamento clínico no processo transexualizador e hormonioterapia e abre espaço para fala, escuta e acolhimento das demandas das travestis e de transexuais que moram na cidade.

O ambulatório é parte do Centro de Especialidades Quarteirão da Saúde, está ativo há quase um ano e já atendeu cerca de 163 pessoas, sendo 89 mulheres trans, travestis e não binárias.

Os números surpreenderam positivamente a enfermeira e coordenadora do ambulatório, Vanessa Romão, que é especializada em emergências e UTIs. Vanessa atua no Samu e também no Centro de Referência em IST/Aids da Freguesia do Ó. Em entrevista à Agência Aids, ela contou que sonhou muito com o projeto DiaTrans e agora leva toda a sua bagagem de aprendizados nas diferentes áreas da saúde para atender melhor quem passa por lá.

“Ultrapassou muito nossa expectativa”, disse a coordenadora que imaginou que no começo do ambulatório a equipe atenderia em média 50, 60 mulheres trans e 8 homens trans, mas desde a inauguração a presença de homens trans sempre foi muito ativa. Essa estimativa foi feita com base em grupos focais que realizavam anteriormente com a participação da sociedade civil e de pessoas trans.

“Foi uma surpresa muito positiva, porque os homens trans não eram acessados e não fazíamos ideia de que eles existiam dentro do município”, celebrou Vanessa, completando que está feliz com o acolhimento de homens trans. “Agora essa população está tendo acesso ao serviço de saúde, a maioria nunca tinha ido a um ginecologista para fazer rastreamento de câncer cervical. Muitos homens trans nos contaram que não se sentem à vontade de chegar em uma UBS, dar o cartão do SUS e passar no ginecologista, aqui eles estão tendo essa experiência.’’

Atendimento Integral e apoio Psicossocial

Toda a equipe médica acolhe e trata a saúde integral de quem passa pelo ambulatório. Desde sua elaboração teórica e técnica, o serviço tem por objetivo não somente cuidar da vida hormonal e sexual de seus pacientes, mas também visa resgatar histórico médico, história de vida pregressa, histórico de vacinação, saúde bocal e mental, alimentação… Assistência fonoaudióloga também é oferecida para quem deseja, por exemplo, realizar mudanças na voz.

E para além disso, é feita uma curadoria completa a fim de mapear potenciais violências que possam existir, sejam físicas, sexuais ou psicológicas contra travestis, homens e mulheres transexuais. Quando identificadas, é feito redução de danos com encaminhamento ao grupo de apoio psicológico da casa e também ao CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Quem precisa de atendimento à saúde mental mais especifico, não é exposto e é tratado individualmente. Segundo a atual coordenadora, o DiaTrans também se dedica juntamente a assistência social, a auxiliar quem se encontra em contextos de vulnerabilidade social com retificação de nome, entrega de cestas básicas, ajuda de moradia, etc. “O serviço está redondo”, afirma Vanessa.

As demandas mais constantes no DiaTrans têm sido as relativas a saúde mental, por isso, a equipe não negligencia a atenção também na promoção de saúde mental.

“Um dos princípios do SUS é a equidade, dar mais a quem precisa mais. As pessoas trans representam 1% da população, têm necessidades de atenção diferenciadas, têm direito a um atendimento integral, respeitoso, acessível. Infelizmente fora de um ambulatório especifico essa não é a realidade’’, é o que diz a psicóloga do ambulatório Elaine Bello, que acredita existir ainda muito preconceito, desconhecido, inclusive por parte dos profissionais da saúde. O que gera uma enorme barreira de acesso a saúde para essa população.

Trabalho e espaço humanizado

De acordo com a equipe, o DiaTrans não foi pensado de maneira alheia a população, pelo contrário, foi construído juntamente a pessoas trans que foram ouvidas em reuniões periódicas acerca do que consideravam importante ter num ambulatório.

“Geralmente pensamos e focamos muito naquela parte estrutural necessária para que os serviços funcionem e não é ouvido o outro lado, o lado do paciente, e o que eles desejam ter no serviço que vão acessar’’, opinou a coordenadora.

“No DiaTrans o trabalho foi conjunto, eles escolheram, por exemplo, que os banheiros fossem sem gênero, que houvesse um espaço harmônico e feliz sem cara de hospital, para que chegassem e se sentissem à vontade. E profissionais que também tenham esse olhar humanizado, por isso, os mesmos fazem sensibilização pelo CR para saberem como tratar, qual pronome utilizar…’, complementou.

Os pacientes

Diferentes pacientes relatam que após frequentarem o DiaTrans e se sentirem representados por seus iguais, passaram a se informar sobre direitos e puderam encontrar seu lugar em sociedade.

“Aqui sempre respeitaram o meu nome social, mesmo ainda não tendo feito a retificação. Dá uma sensação de pertencimento entrar e ser tratado tão bem pela forma como você é e se identifica, isso faz você se sentir em casa e se tornar família deles’’, relata Yumi Xavier, que é uma mulher transexual. Ela considera a diversidade algo muito marcante e importante no local.

Yumi também considera a atenção que os profissionais dão para a detecção de HIV e outras ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) uma das ações mais importantes realizadas no trabalho do ambulatório. “Eles conseguem ver tudo isso na hora e já te dar encaminhamento para você iniciar a medicação”, falou.

Michael Araújo expressou gratidão pelo acolhimento que recebe, hoje, segundo ele, sua vida está sendo devidamente cuidada. “Eu não não me aceitava, tentei o suicídio. Por pouco não perdi a minha vida. Mas com informação e com o surgimento do ambulatório, comecei a me sentir representado. Informação é muito importante! Mas até conseguir isso, eu sofri muito preconceito.”

‘’Eu venho até aqui feliz e saio aliviado, todos são muito receptivos e isso me deixa mais confortável e mais confiante’’, concluiu.

Modelo de referência no ABCD

O time acredita que serem pioneiros é algo positivo pois se tornam referência para outros lugares. “Atendemos os munícipes de Diadema, não o ABCD em geral, mas a gente acaba se tornando referência para outras cidades.”

Há relatos que residentes de São Bernardo do Campo, São Caetano solicitam por atendimento, mas por questão sistemática não é possível atender estas pessoas. “Há pessoas que migraram para Diadema somente para receber atendimento do DiaTrans’’, compartilhou Vanessa Romão.

Mas, algumas cidades como Santo André, já estão se articulando para fazerem o mesmo a partir do que Diadema fomentou.

Próximos passos

Um compilado de informações, por exemplo, a respeito de quantas mulheres e homens trans pacientes do ambulatório que vivem com HIV, foi levantado. Já foram identificadas 21 mulheres trans com HIV e nenhum homem.

Esses números correspondem a 23% de sua população total de mulheres trans. Os mesmos geram preocupação e se assemelham com os dados nacionais que se aproximam de 30%.

Perguntados sobre qual é o maior desafio e objetivo a ser atravessado pelo time de curto a médio prazo, concluem que o maior desafio hoje seja enfrentar o HIV/aids de maneira mais efetiva diante dos dados alarmantes. Somente 3 pacientes dos 163 que já passaram pelo DiaTrans nestes quase 12 meses, fazem PrEP. A equipe quer ampliar a oferta.

Questionado sobre os motivos que levam a baixa adesão de PrEP em Diadema, Robson Carvalho, coordenador de políticas de cidadania e diversidade, pontuou que “essa população não tinha informações sobre os métodos de prevenção e tratamento existentes, principalmente os homens trans, muitos acreditam não terem risco, mas são sim vulneráveis para sífilis, hepatites, entre outros.”

“Pela falta de acesso, o ambulatório se torna espelho e atrai com muito louvor essas pessoas. O nosso objetivo é atender todos, todas e todes, ofertando PrEP e outros serviços”, garantiu Robson.

Apesar de existir ainda um longo caminho a traçar, acredita-se que a parcial de 23% de diagnósticos positivos, evidencia que o município de Diadema não tinha suas portas abertas as pessoas trans e travestis e para com os cuidados de saúde das mesmas, mas isso vem mudando.

Dandara Santos, vinculadora do DiaTrans e técnica em prevenção, disse que “Diadema não estava sendo assistido. É de um orgulho muito grande agora a gente ter uma placa desta em Diadema. Construímos tudo junto e aqui é um ponto de encontro para as pessoas trans e travestis se encontrarem, trocarem…’’

Impacto na qualidade de vida de pessoas trans

Para o infectologista Maiky Prata, esse não cuidado para com a população travesti e transexual é uma negligencia histórica e isso impacta fortemente na qualidade de vida. “Essas pessoas chegam no serviço de saúde e não conseguem se reconhecer, não entendem suas necessidades especificas e acabam não retornando ao serviço. Os conflitos não ocorrem somente no que se refere a assistência saúde, mas também acontecem em casa, na escola… São vidas negligenciadas e estas pessoas ficam em situação de maior vulnerabilidade’’, afirma o infectologista.

Ele defende que olhar de forma especial para essa população também garante a efetivação dos diretos e as diretrizes do SUS.

E a médica infectologista Luísa Pereira contribuiu dizendo que, agora, este é um caminho sem volta. “A tendência é melhorarmos e essa população cobra, é uma população engajada”, disse Luísa.

Quem pode usar e como acessar

A princípio todos os pacientes que procurarem o equipamento serão acolhidos. Crianças e adolescentes menores de 16 anos serão encaminhados para o Projeto Sexualidade (ProSex), do Hospital das Clínicas, onde tem hebiatria e realiza o acompanhamento desse público.

Os jovens de 16 a 18 anos serão atendidos e acompanhados no Ambulatório DiaTrans nas questões de saúde mental e outras demandas, mas a hormonioterapia, por lei, só é possível acima de 18 anos.

A Atenção Básica, por meio da UBS continua sendo a porta de entrada para acesso à toda a rede de saúde municipal, incluindo o Ambulatório DiaTrans. Assim, quando o paciente procurar a UBS poderá ser referenciado para o Ambulatório.

Vale ressaltar que o serviço também funciona por livre demanda, sem barreiras e sem necessidade de encaminhamento. O Grupo de Entrada funciona de quarta-feira, das 13h às 19h. A princípio, o usuário que procura espontaneamente o serviço passa em acolhimento com a vinculadora e depois por uma consulta admissional com a enfermeira e coordenadora do serviço; e os demais atendimentos ocorrem de quinta-feira (das 8h às 19h) e de sexta-feira (das 13h às 19h).

Serviço:

Ambulatório DiaTrans

Avenida Antônio Piranga, 700 – 2º andar – Centro – Diadema.

Tel.: (11) 4043-8093

E-mail: diatrans@diadema.sp.gov.br

Horário de Funcionamento:

Grupo de Entrada (acolhimento inicial)

De segunda a sexta-feira, das 8h às 16h.

 

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)