Um vídeo em que a cantora gospel Ana Paula Valadão, ao lado de um pastor, condena a homossexualidade viralizou na internet neste sábado (12) e foi alvo de críticas de lideranças LGBTs. A repercussão do vídeo acontece dois dias depois de outro cantor gospel, André Valadão, causar revolta na comunidade LGBT ao dizer que “igreja não é para gays”. O vídeo de Ana Paula também fez com que lideranças LGBT reagissem. Muitos lembraram que a incidência da doença é maior hoje entre heterossexuais. “Sorofóbica, homofóbica, desinformada e mentirosa! Ana Paula Valadão, que se diz pastora, destila ódio e reforça preconceito e estigma contra a comunidade LGBT. Essa mulher não tem escrúpulo e deve responder por isso na justiça”, disse a ativista Érika Hilton. “Eu sou uma travesti vivendo com HIV e me sinto desrespeitada por @anapaula.valadao_ quando ela diz que a comunidade LGBTQI+ é “culpada” pela epidemia de aids. A epidemia de aids é uma questão que envolve negligência e desmonte do SUS, LGBTIfobia estrutural que afasta a comunidade LGBTI+ dos serviços de saúde e de uma cultura de educação em saúde, é uma questão de racismo estrutural”, completou a militante Carolina Iara. Leia os depoimentos a seguir:

Carolina Iara de Oliveira, travesti, intersexo, escritora, poetisa, mestranda em Ciências Humanas Sociais, membra da ABRAI, do Coletivo Loka de Efavirenz e da Bancada Feminista do PSOL, via Facebook: “Eu sou uma travesti vivendo com HIV e me sinto desrespeitada por @anapaula.valadao_ quando ela diz que a comunidade LGBTQI+ é “culpada” pela epidemia de aids. Hoje vi que a cantora gospel deu uma entrevista que mais uma vez destilou bastante ódio a comunidade LGBTQI+ e à nossa sexualidade. A epidemia de aids é uma questão que envolve negligência e desmonte do SUS, LGBTIfobia estrutural que afasta a comunidade LGBTI+ dos serviços de saúde e de uma cultura de educação em saúde, é uma questão de racismo estrutural que faz as mulheres negras morrerem 3 vezes mais que mulheres brancas por aids em São Paulo, e de 60% das cerca de 11 mil mortes anuais por aids no país serem de pessoas negras. Houve muitos avanços científicos que fazem eu estar viva com uma infecção crônica e tomando remédio todo dia, vivendo com HIV há mais de seis anos. Mas ainda há muitas questões sociais que fazem a aids ser um grande problema de saúde pública e mais um recorte do genocídio da população negra e pobre no Brasil (assim como está sendo a covid-19).”

Vinicius Borges, médico infectologista e idealizador do Canal Dr. Maravlha, via Instagram: “Ninguém é ‘contaminado’ com aids, as pessoas se infectam com HIV. E não são apenas gays que se infectam. Em número absoluto, há ainda mais héteros que gays e trans infectades. Olhe para a África. Olhe para as crianças. Olhe para os idosos. Já perdemos milhões de pessoas para a aids desde a década de 80. Hoje é possível tratar o HIV com medicações simples, que no Brasil são gratuitas: as pessoas podem nunca adoecer e nem transmitir o vírus. Discursos como seu Ana Paula são extremamente perigosos. Associam uma condição médica à uma punição ‘divina’. As pessoas acreditam então que amar é errado. Que seu sexo é sujo. E que HIV é motivo de vergonha. Com medo de procurar ajuda, essas pessoas postergam diagnósticos, adoecem e morrem. Sozinhas. Morrem física e socialmente. O problema nunca foi a pessoa soropositiva. Nem o sexo. Nem o próprio vírus. O problema é que pessoas como você querem nos dizer diariamente que algumas formas de existir e amar valem menos que outras. E que não há nada pra nós, além de sofrimento e morte. Mas te garanto, em um dia com meus pacientes, amigos e amores vivendo com HIV, eu vi mais vida, amor e divindade que em quaisquer discursos de fundo ‘religioso’ ou ‘doutrinário’ como este seu. O preconceito de vocês já mata muito mais que aids há muito tempo. Espero que um dia você realmente reveja a dor que causa e o sofrimento que você intensifica com afirmações tão inconsequentes. E nem precisa ir a um hospital para ver isso. É um ambiente sagrado demais que não quero dividir com você.”

Raphaela Fini, ativista e assistente social, via Facebook: “Pessoas ditas cristãs/religiosas por favor se atualizem, Jesus não se incomodaria se estudassem e ampliassem suas mentes, na verdade ficaria feliz! Alias se querem continuar se dizendo cristãos por favor sigam os ensinamentos de Jesus e não dos donos do poder e mercadores da fé. Jesus exemplificou amor, tentem pelo menos! O universo deu dons e talentos paras a pessoas agregarem e não dividir. A pergunta que fica é: se Jesus aqui estivesse estaria estendendo a mão a quem? Com certeza não estaria nesses templos luxuosos que querem nos expulsar. Onde está o Reino de Deus? Super apoio esse processo! Não estou generalizando, conheço diversas pessoas que de fato são cristãs e humanas.”

Erika Hilton, ativista dos Direitos Humanos, transfeminista e candidata a vereadora da cidade de São Paulo pelo PSOL, via Twitter: “Sorofóbica, homofóbica, desinformada e mentirosa! Ana Paula Valadão, que se diz pastora, destila ódio e reforça preconceito e estigma contra a comunidade LGBT. Essa mulher não tem escrúpulo e deve responder por isso na justiça. Ana Paula,você é a escória da escória. Acabo de sair de reunião com meu advogado. Estamos processando @anapaulavaladao por LGBTfobia. Não seremos mais caluniades, atacades e ofendides sem luta. LGBT não é bagunça! Abaixo a cultura de ódio e violência contra pessoas LGBTs no país que + nos mata. Nenhum ataque mais. Nenhuma vida a menos.”

Fernanda Melchionna, deputada Federal pelo Psol, via Twitter: “Além de homofóbica, a fala de Ana Paula Valadão é de tamanha ignorância ao colocar a aids como consequência punitiva de uma relação entre pessoas de mesmo sexo! Temos que avançar em educação sexual p/ combater preconceitos e garantir o direito de tod@s de ser e amar quem quiser!”

 

 

Quebrando Tabu, via Twitter: “Ana Paula Valadão dizendo que aids é “castigo de Deus para união sexual entre dois homens” é além de um preconceito ridículo um exemplo gritante da importância da educação sexual.”

 

Mídia Ninja, via Twitter: “Ana Paula Valadão destila ódio e informações falsas sobre HIV e Aids. Ao contrário do que ela informa, homens heteros representam 49% dos casos de infecção do HIV no Brasil, homossexuais são 38% e os bissexuais 9,1%. O estigma contra a população LGBT deve ser tratado como crime.”

 

Redação da Agência de Notícias da Aids