Foram 372 pessoas trans alcançadas nos dois anos do projeto Transprevenção realizado pelo Intituto Vida Nova com objetivo de levar informação sobre saúde e promoção direitos para pessoas transexuais e travestis nos municípios de São Paulo, Guarulhos, Itaquaquecetuba, Suzano, Ferraz e Vasconcelos e Diadema. Na última sexta-feira (7), um colóquio marcou o encerramento projeto.

Constatando a relação entre o impacto da exclusão social pela transfobia estrutural, o projeto atuou na perspectiva do direito à informação sobre prevenção combinada, a mandala da prevenção para as populações chave e utilizou a metodologia de linguagem entre pares que se mostra eficaz na comunidade trans.

Primeiro, o projeto foi para os serviços de aids dessas cidades e, em uma segunda etapa, deu-se início às 71 rodas de conversa que aconteceram presencialmente. Também foram oferecidos preservativos e auto testes para o HIV, além de géis lubrificantes. O projeto chegou a precisar se adaptar por conta da pandemia, mas ainda assim não parou mantendo as rodas de conversas de maneira virtual.

 

Números da realidade trans 

Dentre a população atendida pelo Transprevenção, foi possível avaliar numericamente a importância de ações de acesso à informação bem como sobre o direito à saúde. Confira os dados:

  • 81,1% das pessoas atendidas já realizaram trabalho sexual
  • 80% acreditam que a sociedade as veem como objeto sexual
  • 96,4% acessam o SUS
  • 60% se sentem vulneráveis ao HIV
  • 86,2% não conheciam a mandala da prevenção combinada
  • 75,4% não conhecem gerenciamento de risco
  • 63,1% não sabem o que é indetectável = intransmissível (I=I)

Keila Simpson, presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, aproveitou o colóquio para defender o trabalho sexual, “desde que ele não seja um condicionante para a continuidade da existência das pessoas trans.”

Ela falou sobre a violência que assola a população trans e quais as possíveis soluções para a conquista de uma vida mais digna. “Antes da morte física, há a morte social, porque dizem ‘esse espaço não é teu’. Se uma pessoa compreende que ao entrar em um espaço ela vai ser rejeitada, é esperado que ela reaja também de forma violenta.”

“A construção de políticas públicas segmentadas são para fazer reparações históricas de ações que a população trans experimentou”, disse ao lembrar da imporância que a aids teve na organização do movimento dess população. “Foi devido à aids, lá nos anos 90, que nossa população se organizou da forma política como faz até hoje. Os projetos que começaram a aparecer, frutos de fomentos do governo federal e da sociedade civil foi uma das primeiras estratégias para aproximar essa população ao aspecto mais social do movimento, enquanto agentes de prevenção”.

“Quando a epidemia se instala no brasil, ela faz com que essa população comece a se organizar, para desenvolver estratégias que fossem reverberar em políticas para essa população. Por isso que o movimento de aids também começou a trabalhar para que elas fossem incluídas na luta contra HIV”, disse.

Segundo Keila, a constituição desses grupos foi a primeira ideia da consturção de políticas públicas para essa população. “Por isso, projetos como o Transprevenção são importantes, porque são uma parte muito significativa na constituição dessas políticas.”

Mudanças necessárias

 

Durante sua apresenção, a assistente social Raphaela Fini evidenciou alguns apontamentos feitos ao longo do projeto. Dentre eles, o fato de que o estigma e ambiência estão, de fato, entre as principais barreiras de acesso dessa população, ficando evidente que há uma necessidade de sensibiliações permanentes e ações de eduação continuada para o aprimoramento no atendimento humanizado e acolhedor para com a população de travestis e transexuais.

Ela também ressaltou a necessidade de ações pensadas na equidade para que o acesso e cuidados em saúde sejam efetivos, com maior engajamento nos esforços da resposta institucional às populações chave marginalizadas.

A necessidade de espaços seguros e confortáveis para trocas sobre gerenciamento de risco e gestão do cuidado também foi identificada, bem como a demanda intersetorial em uma relação direta entre saúde, cidadania e direitos humanos.

“Muitas pessoas revelam que não fazem o teste do HIV justamente para não saberem o resultado. Imagine o que acontece se ela chega nesse serviço e não se sente confortável.  Se ela vai no serviço de saúde, o recepcionista, o médico, o atendente, o segurança olham pra ela e dá risada. Os serviços precisam se organizar de modo que seja um ponto de acolhida dessas pessoas”, defende Raphaela.

Ela acrescenta que ainda há julgamento acerca do comportamento sexual das pessoas trans, mesmo por parte de profissionais da saúde. “A pessoa tem a quantidade de parceiros sexuais que ela quiser, essa não é a pauta dos serviços. A necessidade de ações que demonstrem esforços é maior para quem precisa mais. Se essa população é chave e necessita de atenção especial, quais são os esforços para fazer com que ela chegue até os serviços?”

A respeito do Transprevenção, Raphaela foi clara, “nosso objetivo foi provocar e fazer com que essas meninas soubessem dos serviços de saúde. É um projeto piloto. Não é apenas esse projeto que tem que funcionar, é a rede de serviços que tem que funcionar. Criar e fomentar ações articuladas para criação de ambientes confortáveis para essas pessoas. Como podemos pensar ações intersetoriais com outros serviços? O projeto cumpriu sua missão em provocar, em mostrar que é possível quando se tem vontade e sensibilidade em fazer.”

 

 

Jéssica Paula (jessica@agenciaaids.com.br)