No início dos anos 1980, diversos casos de uma doença infecciosa até então desconhecida começaram a surgir nos Estados Unidos, sobretudo em HSH (termo para homens que mantém frequentemente ou esporadicamente relações sexuais com outros homens, independente de terem identidade sexual homossexual).

Os pacientes, outrora saudáveis, eram diagnosticados com pneumonia, tuberculose e um tipo raro de câncer conhecido por sarcoma de Kaposi.

A doença foi elevada oficialmente à categoria de epidemia —que logo virou uma pandemia— pelo Relatório Semanal de Morbidade e Mortalidade, do instituto nacional de saúde pública americano, em junho de 1981 e, no ano seguinte, denominada como aids (sigla para síndrome da imunodeficiência adquirida).

Sua causa, o HIV  foi identificado em 1983, em meio à escalada do preconceito contra gays, travestis, trans e trabalhadores sexuais.

Vale lembrar que em junho também celebra-se o mês do Orgulho LGBTQI+ por conta de uma revolta em um bar em Nova York (EUA) em 1969.

Culpa recaiu sobre minorias

Como a aids era algo novo, tinha alta mortalidade (principalmente entre jovens e que morriam em curto espaço de tempo) e disparou entre a população gay da cidade de San Francisco (EUA), que é conhecida internacionalmente como pró-LGBTQI+, uma série de teorias para explicá-la, inclusive religiosas, surgiu na contramão da ciência.

Os cientistas não dispunham das técnicas hoje usadas em larga escala para detectar e identificar a presença de vírus e compreendê-los.

No Brasil, segundo a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), a confirmação dos primeiros casos de Aids, em 1982, foi anunciada como a chegada da “peste gay” ou do “câncer gay” e até mesmo o Ministério da Saúde à época contribuiu para reforçar o estigma ao rotular os portadores de HIV como “fadados à morte”.

Tratados com suspeita, os homossexuais também foram proibidos de doar sangue, restrição que o STF (Supremo Tribunal Federal) derrubou somente em 2020.

Hoje, a medicina aponta os erros e as injustiças cometidos e justifica que a doença não estava restrita a um grupo específico.

Segundo diversas pesquisas, como uma publicada em 2014 na revista Science, o HIV era, originalmente, um vírus que infectava primatas como o chimpanzé e, em certo momento, acabou “saltando” para os seres humanos.

Da África se propagou para o Ocidente por meio de transfusões, sexo sem proteção e compartilhamento maciço de seringas.

Milhares continuam vulneráveis

O HIV ataca as estruturas de defesa do organismo, deixando-o mais vulnerável às chamadas doenças oportunistas e que normalmente não seriam contraídas facilmente —o que caracteriza a Aids.

No começo, por falta de informação, conscientização e tratamentos eficientes, infectou mais facilmente pessoas em situação vulnerável, para depois atingir a sociedade como um todo, sem se importar com orientação sexual, credo, cor ou idade.

Desde 1981, o HIV infectou aproximadamente 76 milhões de pessoas, ceifou a vida de 33 milhões e ainda infecta 1,7 milhão a cada ano e mata cerca de 690 mil em todo o mundo.

Porém, mesmo passados 40 anos e com muitos aprendizados e avanços, por causa da desigualdade, da discriminação e da falta de políticas públicas sérias e de investimento em ciência e saúde, continua atingindo principalmente aqueles que são menos capazes de defender seus direitos.

Dois terços do total de pessoas infectadas pelo vírus vivem em países da África. No Brasil, de acordo com o último Boletim Epidemiológico Anual sobre HIV/Aids, de 2020, 51,6% dos casos de infecção pelo HIV registrados de 2007 a junho de 2020 em homens correspondiam a exposições homossexuais e bissexuais e 31,3% heterossexual.

Entre a população trans, outros levantamentos do Ministério da Saúde apontam a taxa em até 36,9% e entre HSH 18,4%. No recorte racial, as mortes notificadas em 2019 atingiram majoritariamente negros: 61,7%.

É preciso exigir mais…

Para reverter este triste cenário, afirmam os especialistas, é preciso cobrar por um aumento da oferta de acesso a serviços de saúde —o que inclui urgência, prevenção e suporte psicológico—, especialmente nas regiões marginalizadas, mais periféricas e que em geral carecem disso, e de ações e políticas públicas específicas à população LGBTQI+.

É muito pequena a resposta governamental às demandas de enfrentamento da homofobia, promoção de direitos e acesso a garantias e oportunidades de emprego, por exemplo.

Negros e pobres são as pessoas inseridas mais informalmente no mercado de trabalho no Brasil e entre travestis e transexuais, 90% dessa população é dependente da prostituição como complemento ou fonte principal de renda, aponta a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Da parte da ciência, entretanto, mesmo que atualmente careça de apoio e investimentos, os esforços nunca cessaram, seja por mais pesquisas, medicamentos efetivos e com menos efeitos colaterais, vacinas e campanhas de conscientização para salvar vidas.

…e proteger conquistas

Pesquisadores brasileiros obtiveram grandes feitos nesse tempo. Possibilitaram a estruturação do Programa da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, primeiro programa brasileiro para o controle da Aids, em 1984, e a criação do até então Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde, em 1986.

No ano seguinte, o isolamento do HIV-1 (subtipo do HIV, assim como o HIV-2) pela primeira vez na América Latina por meio do IOC/Fiocruz (Instituto Oswaldo Cruz) e, em 1988, a criação do SUS (Sistema Único de Saúde).

O SUS, desde os anos 1990, passou a distribuir gratuitamente medicamentos antirretrovirais (que impedem a multiplicação do HIV no organismo e evitam o enfraquecimento do sistema imunológico) a todas as pessoas vivendo com o vírus e que necessitam de tratamento.

Fez o mesmo com preservativos masculinos e femininos e desde então incentiva seu uso; bem como ações, campanhas e estratégias de prevenção e tratamento de outras ISTs (infecções sexuais transmissíveis), recomendações e enfrentamento à desinformação e ao preconceito.

Em 2003, em reconhecimento às ações de prevenção e assistência, a Fundação Bill & Melinda Gates concedeu ao Programa Brasileiro um prêmio de US$ 1 milhão e em 2004 e em 2005, o Brasil sediou respectivamente três congressos simultâneos e a 3ª Conferência Internacional em Patogênese e Tratamento da Aids, realizada pela IAS (International Aids Society).

Hoje, também são disponibilizados gratuitamente exames laboratoriais e testes preventivos, que podem ser realizados anonimamente e detectam anticorpos contra o HIV em cerca de 30 minutos.

Porém, o desafio se concentra em estabelecê-los em massa e regularmente. Só assim será possível reduzir o avanço do HIV, aumentar a eficácia dos tratamentos e por conseguinte a expectativa e a qualidade de vida, tirando gente que não é de risco, de situações de risco.

Fontes consultadas: Alessandro Farias, médico infectologista, líder do Serviço de Infectologia do Hospital Português, em Salvador (BA); Alex Meller, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e urologista do Hospital Israelita Albert Einstein (SP); Maria Lúcia Biancalana, especialista pela SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) e infectologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo; e sites do Ministério da Saúde, da OMS (Organização Mundial de Saúde); da Unaids Brasil; da Fiocruz, e Indicadores e Dados Básicos de Monitoramento Clínico de HIV.

Fonte: UOL