Em 1993 a família de Sérgio Tardelli entrava com uma ação na Justiça contra seu plano de saúde que se recusava a atender aos procedimentos dos quais ele necessitava, pois estava em quadro avançado de aids e sua saúde inspirava vários cuidados. Não obstante a essa gravidade o tal plano de saúde recorreu em todas as instâncias judiciais em que era condenado até que em 1997 o STJ deu ganho final de causa à família Tardelli. Mas já era tarde demais, Sérgio havia partido em novembro de 1994 sem ter a noção do quanto sua atitude e a de sua família seriam importantes em um futuro não muito distante, logo ali, na alvorada do terceiro milênio.

Roseli Tardelli, irmã de Sérgio, já tinha uma consagrada carreira como jornalista, tendo sido a primeira âncora do tradicional programa Roda Viva, quando, após algumas ações pontuais com o SESC voltadas para a comunicação no âmbito da epidemia de aids, em 1998 foi convidada para ser curadora do Fórum Nacional de Imprensa e Saúde: HIV e Comunicação, onde a chama do ativismo começou a lhe queimar os miolos até que, em maio de 2003, era fundada a Agência de Notícias da AIDS, um farol que nos facilita a navegação pelos mares nem sempre tranquilos da resposta brasileira à epidemia de AIDS. De um início modesto a Agência AIDS, como é conhecida, logo ocupou seu espaço como referência mundial em sua área e passou a diversificar suas atividades com produções audiovisuais sobre temas específicos às populações envolvidas na luta contra a AIDS, ampliação da cobertura de notícias com a abertura de uma imprescindível filial em Moçambique e o já lendário Camarote Solidário na Parada do Orgulho LGBT+.

Dentre os temas tratados durante sua existência, provavelmente o que causou maior furor foi o episódio envolvendo a polêmica declaração do Dr. Robert Gallo nos dias que antecederam a Conferência da Sociedade Internacional de AIDS, que seria realizada no Rio de Janeiro. Ele se mostrava contrário à distribuição universal dos medicamentos e, quando perguntado por Roseli sobre as pessoas pobres ele não hesitou em responder: ‘Poor people, my ass!” (que se danem as pessoas pobres). Naturalmente que a entrevista causou comoção pública que culminou com uma manifestação das pessoas vivendo com HIV e sociedade civil na abertura do citado evento, ostentando uma faixa com os dizeres “Robert Gallo, my ass!” e tendo ampla receptividade por parte da maioria dos médicos que por ali passavam.

Mas, talvez, o maior diferencial da Agência AIDS tenha sido o de dar voz às pessoas que normalmente são tratadas como personagens pela imprensa em geral. Os desafios que as pessoas vivendo com HIV enfrentam estão em constante mutação, da mesma forma que o vírus. Da mesma forma as demandas LGBT+, dos movimentos de mulheres, da população negra e de tantos outros segmentos que não têm visibilidade sequer nos movimentos sociais ditos tradicionais. Eu mesmo tive a grata oportunidade de escrever e ter publicados perto de vinte artigos, ora por iniciativa própria, ora por solicitação direta de Roseli, a quem tanto admiro pela forma dinâmica e ética com que idealiza e executa suas atividades.

Se Sérgio Tardelli estiver vendo tudo isso deve estar sentindo muito orgulho de si mesmo e de sua irmã, que atendeu ao chamado do inexorável e fez juz àquela ação judicial de 1993.

Parabéns à super profissional equipe da Agência de Notícias da AIDS.

Parabéns, Roseli Tardelli.

Parabéns, Sérgio Tardelli, nada é em vão nessa Vida.

* Beto Volpe é ativista e escritor.