Me chamo Diego Rafael, mas já explicando o porquê muita gente me conhece como Rafael Arcanjo. Diego —> jogador argentino (odeio futebol) logo não gosto do nome. Apesar do significado ser legal, vindo de diablo-diabo…o astuto, inteligente. Rafael >>> 1 dos 3 Arcanjos mencionados na bíblia família era bem católica. E o significado Cura de Deus, ou aquele que cura. Um nome bonito com significado, e acaba por suprimir o primeiro nome. Comecei usar assim aos 18 anos em e-mail que uso até hoje. Aí depois em redes sociais e ficou…

Nasci em Manaus, fui criado em Tefé, interior do estado do Amazonas, e voltei a morar em Manaus final de 2007 (quando sai de casa). Descobri o HIV em 19 de maio de 2009, ou seja, quase 12 anos atrás.

Sou farmacêutico, estou mestrando no curso de pós-graduação em Doenças Tropicais (PPGMT), pela Universidade Estadual do Estado do Amazonas, curso especialização em farmácia clínica e prescrição farmacêutica.

Quanto a minha ligação com o ativismo-militância…

Conheci o ativismo quando fui em busca de outras pessoas com HIV. Soube de um grupo de meninos que se encontravam dentro do hospital de referência – Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado – eles se reuniam para ajudar uns aos outros e conversavam principalmente sobre o viver com HIV e o que faziam para tocar a vida, dramas familiares, dramas, como exercer novamente a sexualidade que é tão condenada.

Logo depois fui apresentado a rede de jovens vivendo com HIV/Aids, participei de encontro estadual, reuniões locais e fui me apropriando do tema, quando percebi já estava engajado e ajudando tantos outros com diagnósticos recentes, e até outros que sempre chegam e estão perdidos no mar de preconceito que a aids ainda é. No ano seguinte me tornei representante estadual no Amazonas e fiquei por quase 3 anos à frente da Rede de Jovens Vivendo e Convivendo com HIV/Aids no Amazonas.

Nesse tempo também fui representante da sociedade civil no comitê do PCDT adulto para HIV/Aids do Ministério da Saúde. Também fui representante do movimento da Anaids no GT Unaids durante dois anos.

Antes de sair da rede jovem, já estava vinculado à Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids através da RNP+AM. Em 2019, fui eleito representante estadual junto a Vanessa Campos, assim como representante regional norte, junto a dois outros companheiros.

Atualmente estou apenas como membro da RNP+. E representante dos usuários no Comitê de Ética em Pesquisas (CEP) do hospital referência no qual faço tratamento.

Não tenho família na cidade de Manaus, exceto pela minha irmã que atualmente mora comigo. Minha mãe mora no interior do estado, np município de Tefé.

No que se refere a Covid-19, entre familiares um tio e minha mãe (que é trabalhadora de saúde)  tiveram de maneira moderada, foi difícil manter a calma visto que o interior do estado do Amazonas não tem condições e estrutura adequada para tratamento intensivo (UTI).

Estou há 9 dias com suspeita de covid-19, já fiz o exame, mas ainda não recebi o resultado. Eu e minha irmã estamos apresentando sintomas leves, como febre, tosse, ardência nos olhos, cansaço físico… É complexo pensar na sensação, visto que é uma doença imprevisível.

Não sei até que ponto posso dizer ou comparar a covid ao HIV. Recebi meu diagnóstico de HIV em 2009 e mesmo 12 anos depois ainda recebemos o resultado positivo como uma “sentença de morte”, O ESTIGMA existe.

Tenho visto outras pessoas vivendo com HIV e covid com quadros agravados, alguns até foram internadas e estão com graves sequelas.

Quando me permito comparar só me vem à cabeça o imenso descaso. As mortes por aids, apesar de terem “diminuído”, ainda acontecem aos montes. Os óbitos estão relacionados com a pobreza. Não temos politicas publicas eficazes e quando temos não são aplicadas efetivamente.

Desde que começou a pandemia tenho tentando cumprir todas as orientações sanitárias, tento ir no supermercado no máximo uma vez na semana. No Mestrado, as aulas presenciais foram suspensas, por enquanto a notícia é de que vamos retornar em agosto ou meados de setembro. No semestre passado as aulas aconteceram praticamente todos os dias, estava sempre em casa. Fui ao Instituto de pesquisas algumas vezes.

Faz pouco mais de 1 ano que não consigo ir às consultas com infectologista, assim como não tenho feito exames de rotina, pois apenas situações prioritárias estão sendo atendidas,  é raro conseguir remarcar, os infectologistas estão atendendo Covid em outros lugares. Na farmácia, estão liberando medicamentos para até 3 meses. E costumo ir no final do dia quando já não há ninguém, nem filas.

Na “normalidade” e mesmo agora é complicado, pois o transporte público est[a lotado, as pessoas não respeitam distanciamento e após entrar no coletivo retiram as máscaras. Isso se aplica a todos os outros lugares, como supermercado, drogarias…

Quando preciso sair, tenho tomado todas as medidas possíveis, mesmo morando apenas eu e minha irmã, que não é considerado grupo de risco.

Não posso dizer com toda certeza que a situação como um todo poderia ter sido evitada, estamos falando do colapso na saúde vivido no estado, mas amenizada sem dúvidas. Há falta de interesse do poder público. O estado, seja na esfera federal, estadual e municipal não tomaram medidas necessárias preventivas. A fiscalização e punição necessária aos empresários, donos de estabelecimentos, festas clandestinas, moradores sempre foi inexistente. Tudo em nome de uma economia que tem colocado o estado nos piores holofotes nacionais e internacionais, de um genocídio sem precedentes.

Medidas como uso de máscara de forma obrigatória foi implementada tardiamente e não há cobrança efetiva.

É vergonhoso, para não dizer criminoso, que o Ministério da Saúde, conselhos de classe e outros, não refutaram até o momento de maneira enérgica o tal “tratamento precoce”, o que a meu ver confere falsa segurança e dá a população a sensação de que está tudo bem ter aglomeração, e não tornar obrigatório uso de medidas protetivas.

A esfera federal e a morosidade e incompetência no que se refere as vacinas é algo revoltante, principalmente quando sabemos que historicamente o Brasil tem um dos melhores programas de imunização do mundo. Temos dentro de governos o discurso ‘antivacina anticiência’.

Assim, como medidas administrativas para sanar problemas logísticos e insumos como no caso de oxigênio, que até agora não normalizou completamente, temos uma fila de mais 500 pessoas a espera de leitos. Não temos EPIs!!!

O desvio de dinheiro público, indo parar em casas de vinhos, enquanto não temos leitos, respiradores e mais profissionais de saúde. Essa semana, bilhões em leite condensado, chicletes, a compra de poder de 3 bilhões em emendas parlamentares para barrar o impedimento do odioso, genocida presidente da república.

O escândalo do fura fila na vacina enquanto profissionais de saúde trabalham a exaustão, contratação e indicação de cargos comissionados pela prefeitura de Manaus. O hospital de Campanha foi desmontado… A falta de testagem em massa, quando procuramos unidades de saúde temos que basicamente nos humilhar ou passar o dia expostos para talvez conseguir testar.

É um tsunami de descaso, como dizemos aqui todos os dias “ESTAMOS LASCADOS!”

O interior está entregue à própria sorte. O Amazonas, melhor dizendo Manaus, tem sempre dois prefeitos: o prefeito e o governador. É uma vergonha só termos unidade de terapia intensiva apenas na capital, em um estado de tal dimensão. A gestão como um todo não tem pessoal qualificado, tudo indicação política. E os técnicos são ignorados.

O que queremos é que os governantes, nossos empregados – pois os patrões somos nós, tenham compromisso não apenas com o dinheiro público, mas com as vidas que estão nas mãos deles. Cada vida que se perde não é mais um número para estatística, mas sim o amor de alguém. E como muito já foi falado: economia se recupera, vidas não! Parem de nos matar! Queremos vacinas para todos! #VACINASSIM essa é a única maneira possível para que paremos esse genocídio e tenhamos nossas vidas de volta. O covid começou a matança por negligência do governo, e agora seguimos com mais negligencia e vamos ver mortes por fome também.

* Rafael Arcanjo é ativista do movimento aids, farmacêutico e mestrando em farmácia clínica e prescrição farmacêutica.