A música: “A praça”,  interpretada pelo cantor Ronnie Von, em 1967, me veio à mente,  quando no final de fevereiro de 2020, olhei pela janela do meu apartamento, e vi a praça florida e arborizada completamente vazia. No dia anterior estava repleta de pessoas caminhando, crianças brincando, os assentos dos bancos disputados para acessar a internet (tem wi-fi grátis). Ninguém.  Nem o latido dos cachorros, nem a gritaria das crianças, nem as conversas dos transeuntes. Apenas os pássaros, alheios ao que acontecia cantavam e pulavam livres de um galho para outro.

São Paulo é uma cidade conhecida como aquela que não para. É bem agitada. Possui uma população de 12 milhões de habitantes, famosa por sua gastronomia, seus bares, teatros e cinema. Os paulistanos  percorrem longas distâncias em um só dia; andam com passos ligeiros; enfrentam transito quilométrico de segunda a sexta; utilizam transportes públicos abarrotados e suas agendas estão sempre lotadas. Mas, nesse dia simplesmente parou.

Recolhidos, ou melhor, confinados nas nossas casas acompanhamos por meio de  televisores, computadores e radio, a iminência  de uma grave pandemia causada por um vírus – Covid 19. O qual fora identificado primeiramente na província chinesa de Wuhan, e agora estava no Brasil. Pressentimos o que estava por vir.

O retrato depois de um ano é desolador, somando mais de 250 mil  mortes, dessas  mais  de 1000 por dia,  e quase 11 milhões  de infectados em todo o pais. Nada em tais proporções havia sido vivido nas ultimas gerações no Brasil e no mundo. Rapidamente os leitos hospitalares para pacientes graves foram ocupados, e sem estrutura para diagnosticar o vírus e atender os doentes fez-se, e ainda faz-se necessária forças tarefa na construção de hospitais de campanha, contratação de profissionais de saúde, ajuda financeira para os que por força da circunstancia perderam seus empregos, e as ajudas humanitárias em todas as frentes são imprescindíveis. O povo padece sobremaneira.

Na televisão, uma moça aparece chorando querendo saber onde estava o pai, e se estava vivo. O seu Arlindo havia sido deixado em uma  das unidades do sus com sintomas de covid  19 e depois disso a filha não obteve mais noticias. Historias assim foram repetidas incontáveis vezes. A busca pelo paradeiro e estado de saúde dos parentes internados era tarefa árdua. Desses, muitos enterrados em valas coletivas, igualmente sem a presença de parentes e amigos. Dor e sofrimento tomava conta do país.

Automaticamente essa realidade toda me levou para 30 anos atrás, quando a grave epidemia de HIV e AIDS, a qual em iguais proporções  também  assolou o Brasil e o mundo. Sei um pouco, o que significa uma noticia assistida na televisão, e outra é você pegar em suas mãos o diagnostico positivo para o HIV, um vírus que naquela época, pouco se sabia, mas o informado dizia, que a morte era iminente, e o contagio era entre pessoas. No ano de 1992 fui diagnosticada com o vírus HIV.  Experimentei  por dias, em uma maca,  nos corredores do hospital Emilio Ribas (que é um centro de referencia para doenças infecto contagiosas, em São Paulo e, hoje superlotado para o atendimento do covid 19) a duvida da sobrevivência , isto é, vou viver ou morrer agora? Nas condições em que eu estava a resposta mais provável era a de morrer. Na verdade foram três internações graves, enfrentando a disseminação de fungos e bactérias  nos pulmões, rins, e nenhum medicamento conhecido para curar o vírus, responsável pela queda da imunidade e causador do colapso no meu corpo. Ainda hoje convivemos com sequelas, novas infecções e mortes decorrentes da aids. Desafiante viver assim.

As fotografias das tragédias, como a gripe espanhola, a febre amarela, aids, o ebola e agora o covid 19, deixam cicatrizes no corpo e na alma, assim como,  revelam nas sociedades modernas e contemporâneas novas nuanças  e outras já  conhecidas. As novas aparecem no campo das pesquisas, tratamentos, vacinas, avanços tecnológicos e por ai vai. As conhecidas transitam no âmbito da imaturidade, melhor dizer: na incompetência e no descaso da gestão publica no trato com a saúde e a educação dos países. A construção de respostas a curto, médio e longo prazo para situações assim são difíceis, e exigem  esforços concentrados e  de todos.

O cenário é parecido com um vendaval, que pela força dos ventos  tira tudo do lugar, levando embora coisas boas e ruins,  deixando muitos destroços. Contudo, os que ficam reinventam o viver e munidos de esperança e comprometimento avançam erguendo sobre alicerces sólidos da democracia uma  sociedade para todos e todas.

A esperança é isso, saber que pode levantar e continuar caminhando e realizando. Ela é renovada em cada  gesto em prol  da preservação da vida.  E isso se dá porque a humanidade (unidade de humanos)  possui  para este fim muitos recursos disponíveis para serem usados. Recursos estes, que somam a capacidade intelectual, psíquica e a espiritual. E todas são preciosas ferramentas de uso individual e coletivo

No campo da espiritualidade, por exemplo: a fé extrapola a racionalidade, e   nos conecta ao divino, ao sagrado,    possibilitando assim,  enxergar o que não se vê com olhos humanos. E nisto consiste a fé: a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não veem.

Recordamos que somos um corpo ajustado, assim como é Deus pai, Deus filho e Deus Espirito Santo, somos uma comunidade de diferentes, e assim podemos viver o presente, suportando uns aos outros, através da ciência, tecnologia, recursos financeiros, ajudas humanitárias, orações, etc.,  e ao mesmo tempo olhando o futuro, o porvir, esse que nos recorda que aqui somos peregrinos e peregrinas. Essa condição nos torna cúmplices com os olhares que cruzam com os nossos, e essa cumplicidade movimenta em nos o ato de amar e servir.

É fato, que produzimos desigualdades, preconceitos, pobreza, destruição do eco sistema, e  consequentemente  a ameaça a toda a vida no planeta azul.

Mas é fato também que produzimos solidariedade e respostas significativas.  Existem  iniciativas anônimas ou conhecidas de produção de tecnologias em prol da vida. Testemunhamos durante esses momentos de caos, provas concretas da nossa comunhão e unidade, de uns para com os outros (de pessoas conhecidos ou com estranhos).

Vimos músicos nas janelas tocando para acalmar a dor de todos, e de alguns especificamente; profissionais de saúde segurando a mão dos pacientes acamados fazendo o papel da família e de confidente durante os longos dias de internação nos hospitais; projetos inovadores para os equipamentos hospitalares; organizações da sociedade civil se articulando virtual ou presencial para dar suporte aos necessitados, professores inventando de forma virtual a educação antes pra eles só presencial.  Doações de empresas e pessoas comuns dividindo para não faltar pra ninguém. Dores sendo amenizadas com telefonemas, ofertas, sorrisos, amizades,  enfim, a preocupação consigo esta registrada nos corações e mentes de todas nós.

Infelizmente alguns esfriaram e se distanciaram  rapidamente dessa onda que parecia tomar conta da terra, todavia,  outros consolidaram essa  pratica, trazendo para uma existência breve, o renovo da consciência coletiva de vida possível contida aqui, neste e nos próximos séculos. As atuais gerações e as  futuras se lembrarão desse tempo, quiçá possam replicar as boas praticas e  avançar para outras ainda melhores.

Constatamos que somos uma comunidade  frágil e forte ao mesmo tempo. E capaz de reinventar o cotidiano após ter sido assolada seja por furacões, enchentes, terremotos, doenças,  fomes etc. Somos impulsionados para a reconstrução sempre.  E a vida   assim como uma neblina, logo se dissipara rápido, mas  uma outra surge, e assim por diante ate o ato final. Um passa a ser a extensão do outro sempre.

Devagarinho, o Brasil e o mundo retomarão sua rotina. Seguirão com esperança e compromisso a reconstrução de suas cidades esfaceladas econômica e socialmente . As crianças voltarão para suas escolas, o comercio reabrirá as portas, o trabalhador receberá seu salário, as praças floridas e arborizadas receberão seu publico.

A vacina, esperança de todos e todas, embora nesse momento ainda insuficiente para todos dará conta de dar o fôlego necessário para continuarmos. Ainda é cedo, mas já dá para vislumbrar a luz no final do túnel. Por hora: mascara, higiene das mãos e distanciamento social.

A praça, o banco, as flores são as mesmas, mas nenhum de nos passa por tamanha experiência sendo os mesmos. Tudo o que estamos vivendo hoje daqui a pouco será lembrado e contado como um triste momento da nossa historia. Mas certamente nos faz e continuara fazendo pessoas mais comprometidas com a vida de todos nós.

Aproveita esse tempo e trás  à memória o que te  alimenta, ame mais, perdoe mais, e sirva mais. Tira  o que não serve mais e deixa só  o essencial na bagagem da vida. E se não sabe o que é essencial, simplesmente respire.

Nair Brito é uma das fundadoras e integrante da Rede Nacional das Cidadãs Posithivas.