Foto: Agência Ophélia/Itaú Cultural

Falar abertamente sobre sexo e mostrar a realidade de quem vive com o vírus utilizando um canal no Youtube. Isto é o que fazem três jovens: Dr. Marcos Vinícius Borges Tadeu, o Doutor Maravilha; Gabriel Comicholi e Daniel Fernandes que, em seus canais, compartilham informações, experiências pessoais e ajudam pessoas.  Eles se encontraram no debate “O Diário virtual: youtubers e HIV/aids”, mediado pela diretora da Agência de Notícias da Aids Roseli Tardelli, na tarde de sábado, 12, na Mostra Todos os Gêneros de Arte e Diversidade, do Itaú Cultural e defendem que a informação deve ser mais constante, clara e que atinja todas as tribos.

Dr. Marcos Vinícius Borges Tadeu criou o canal Doutor Maravilha porque percebeu que havia um despreparo muito grande dos profissionais de saúde para lidar com a soropositividade e a questão da diversidade sexual.

O jovem infectologista conta que, logo que começou a postar os vídeos, atendeu um paciente de uns trinta e cinco anos, bonito e questionou se o rapaz não tinha ninguém. Ele respondeu que sabia que relacionamentos não eram mais pra ele por causa do vírus. Doutor Maravilha informou que soropositivos com cargas virais indetectáveis não infectavam seus parceiros. Então pediu a ele que, da próxima vez que se consultasse, não trouxesse exames e sim um “peguete”. A resposta do paciente: “Você foi o primeiro médico que olhou pra mim e não viu só um vírus”.

Quando descobriu ser soropositivo em 2011, Daniel Fernandes tinha conhecimento sobre o HIV adquirido do seu hábito de assistir séries de televisão. Seu parceiro na época teve uma IST (infecção sexualmente transmissível) adquirida em uma relação extraconjugal e ele teve que se submeter a exames. A assistente social que comunicou a ele o resultado reagente esperou choro e desespero, mas ele estava bem. Sabia que a doença tinha tratamento, mas precisava saber os procedimentos certos. “Uma coisa é você ver filme, outra é viver na vida real”. Contou pra família, para os amigos mais próximos e para o ex-namorado. Para a mãe, ele demorou quatro anos para contar. Ele mora em Recife a família em Goiás. Não queria dar a notícia por telefone. Quando voltou a morar em Goiás em certa época, levou fora de algumas pessoas que queria conhecer, fato que nunca tinha acontecido antes. As pessoas não sabiam conviver com uma pessoa vivendo com o vírus. Então, com o aval da mãe, resolveu criar um canal, o Prosa Positiva. Não teve muitos problemas com conteúdo, pois já era soropositivo há alguns anos e participava da rede de jovens, de congressos. Já tinha adquirido algum conhecimento.

Faz dois anos que Gabriel Comicholi, criador do canal HDiário, descobriu que tinha se infectado com o HIV  e levou apenas dois dias para assumir publicamente sua condição. Ele morava sozinho no Rio de Janeiro (sua família é do Paraná). Ligou para a mãe e avisou ex-parceiros sexuais o que tinha acontecido. Foi muito bem acolhido. Resolveu pesquisar o assunto no Google e ficou chocado com a falta de informações disponíveis. A única coisa que encontrou foi a entrevista que a youtuber Jout Jout fez com Gabriel Estrela (do canal Projeto Boa Sorte). “Achei que fosse achar todas as respostas em dois minutos, não foi bem assim”. Pensou em outros jovens que poderiam estar na mesma situação, ligou a câmera e gravou um depoimento. O vídeo viralizou e teve mais de 180 mil visualizações em pouquíssimo tempo. Gabriel assume que já cometeu muitos erros, mas “hoje tenho mais estudo para falar sobre aids. Aprendi os termos certos”.

A mediadora Roseli Tardelli questiona se nunca falta pauta para os vídeos e, segundo eles, assunto não é problema. “Tem novidade todo dia, a PrEP (profilaxia pré-exposição), a PeP (profilaxia pós-exposição) e as pessoas têm muitas dúvidas. Temos sempre que ir pra frente, voltar atrás, é um círculo doido”, relata Gabriel.

Doutor Maravilha ressalta que ainda há pessoas que acham que aids é doença de homossexual. “Aids não é doença de viado, é doença de quem transa. Tem gente com doutorado que não sabe a diferença entre HIV e aids”.

“A nossa epidemia não está controlada, a gente tenta falar, mas não tem tanto espaço e as infecções aumentando entre os jovens. Então aquela pergunta fatídica: a juventude perdeu o medo do HIV?” Ele disse que em Palmas, no estado de Tocantins, onde reside atualmente, chegam a ele jovens com quadros clínicos que se via no começo das décadas de 80 e 90, com a doença já adiantada. “E perder jovens de 20, 30 anos hoje pra aids é muito triste”.

Da plateia,  o poeta Ramon Nunes Mello,  um dos curadores do evento, pergunta como é lidar com a hiperexposição das redes sociais.

Os três concordam que a experiência dada pelos canais é muito positiva.  Daniel foi reconhecido em entrevistas de emprego e temeu não conseguir trabalho por essa razão. Mas foi chamado por mais de uma empresa. Gabriel diz que só cresceu com isso, mas observa que há uma diferença entre os eles e os youtubers que falam de outros assuntos. “Já aconteceu de eu encontrar seguidor na rua, tirar foto e a pessoa dizer que me admira muito mas não vai postar porque as pessoas podem achar que ela tem HIV”.

Dr. Marcos conta que as pessoas acham que ele é soropositivo. “Não precisa ter HIV pra falar. Temos que lutar por causas que não são exatamente as nossas, mas são causas humanas.” O médico também é alvo de piadinhas no hospital sobre as pessoas que interna: “Lá vem o Marcos com as putas e viados dele”. A resposta vem certeira: “São as pessoas que estão morrendo”.

Em sua opinião, profissionais de saúde têm que ter informação. “Temos que trazer a aids para o dia a dia, o HIV tem que ser assunto de mesa de bar”. E Gabriel finaliza: “Diálogo e informação são a cura do negócio”.

 

Em sua fala, Dr. Marcos contou que um paciente disse a ele durante uma consulta: “Doutor Maravilha é gente como a gente”. Foto: Agência Ophélia/Itaú Cultural

Perguntado porque resolveu revelar seu status sorológico publicamente, Gabriel Comicholi respondeu rindo: “Sou muito dada”. Foto: Agência Ophélia/Itaú Cultural

Daniel Fernandes: “Levei alguns foras de algumas pessoas que eu queria conhecer”.Foto: Agência Ophélia/Itaú Cultural

Daniel Fernandes, Roseli Tardelli, Dr. Marcos Vinicius Borges Tadeu e Gabriel Comicholi

 

Documentário Youtubers

A jornalista Roseli Tardelli anunciou no Itaú Cultural que, em breve, a Agência Aids vai lançar o documentário “Youtubers e HIV: viralizando alegria, irreverência, prevenção. amor, saúde e poesia”. O filme traz depoimentos de seis jovens ativistas que vivem com HIV/aids e relatam suas experiências nesta luta em seus canais do youtube. “É importante ter outras vozes e outras possibilidades de comunicação para acessar os jovens”, comentou Roseli. Acesse a TV Agência Aids e assista os teasers do documentário.

 

Dica de entrevista:

Itaú Cultural

TEl. (11) 2168-1777

 

 

Mauricio Barreira