“A relação sexual é socializada, mas o diagnóstico do HIV é muito solitário”. A afirmação é da enfermeira Liney Araújo, que há mais de 20 anos trabalha no Serviço de Atendimento Especializado (SAE) de Cuiabá. A unidade trata pacientes com hepatites virais e infecções sexualmente transmissíveis, entre elas o vírus da imunodeficiência humana, que tem a sigla HIV em inglês.

Em Cuiabá, atualmente 4.700 pessoas estão cadastradas no SAE com diagnóstico de HIV. Esses pacientes têm direito a tratamento e medicação gratuita, porém, apenas 2.998, o que corresponde a 63% dos casos, fazem o tratamento de forma regular e seguindo as recomendações médicas. O motivo? Preconceito.

No final da década de 1970 começaram a surgir os primeiros casos dessa infecção, até então desconhecida. Mas foi só na década de 1980 que o agente causador da aids foi isolado, o vírus da vírus da imunodeficiência humana, que tem a sigla HIV em inglês. Muito se evoluiu desde essa descoberta, desde a resposta para o diagnóstico até os tratamentos.

O que pouco mudou foi a relação da sociedade com portadores de HIV. Importante explicar que o HIV é o vírus, mas a aids é a doença que surge a partir dele, por isso, nem sempre quem tem HIV terá a aids, principalmente se conseguir um diagnóstico precoce e começar o tratamento.

 

“Não vejo melhora em relação ao preconceito. Também por essa questão temos o acompanhamento psicológico. Porque muitas pessoas se sentem sujas, que não estão limpas. Temos acompanhado pessoas que tentam suicídio, que não aceitam tratamento, que não aceitam o diagnóstico”, conta a profissional.

 

Com os avanços no tratamento e políticas públicas para esse público, a expectativa de uma pessoa com HIV é a mesma que a de pessoas que não têm o vírus. No tratamento, medicamentos, terapia com psicólogo, dentista, cardiologista e exames periódicos para monitorar o vírus.

 

“Nós temos em cadastro 4.700 pessoas, mas a estimativa é que para cada pessoa que sabe, existem 4 que não sabem do diagnóstico, o que torna esse número muito maior. A população com HIV tem um atendimento muito mais rápido, por ser prioridade junto ao Ministério da Saúde”, explica a enfermeira do SAE Cuiabá, Liney Araújo.

 

Trabalhando há 21 anos no SAE, a enfermeira já acompanhou milhares de casos e também a evolução nas terapias. “Quando nós começamos no SAE, o paciente podia tomar até 16 comprimidos por dia. E como o diagnóstico ocorria mais tarde, ele também tomava outros remédios para as doenças decorrentes da infecção no sistema imunológico. Hoje se toma dois, no máximo 3 remédios, e não precisa de mais nada. Hoje uma pessoa com HIV, tendo o diagnóstico precoce e fazendo tratamento, tem uma expectativa igual a de qualquer pessoa”.

 

Esses avanços trouxeram o diagnóstico quase instantâneo. Em 30 minutos é possível conseguir um diagnóstico preliminar, que depois é confirmado através de exames de sangue. A enfermeira afirma que essa rapidez estimulou que mais pessoas procurassem pelo diagnóstico, sem precisar sofrer por dias até o resultado.

 

Mesmo com tanta informação, o sexo sem uso de camisinha ainda é uma situação comum. Entre os grupos com maior risco de contrair a infecção estão homens, com idade entre 18 e 27 anos e mais de 8 anos de escolaridade. Um dos problemas para que essa informação de forma mais simples e clara chegue aos jovens está o preconceito e os tabus das pessoas mais velhas.

 

“Fui chamada para fazer uma palestra sobre o HIV em uma escola, mas me pediram que tirassem parte do conteúdo que falava sobre sexo e sexualidade. Não há como falar do HIV sem falar disso”, afirma Liney.

 

A enfermeira enfatiza que toda pessoa sexualmente ativa tem a responsabilidade de se proteger contra as ISTs. “Falamos muito no termo responsabilidade. É muito fácil culpar o outro, é fácil não querer camisinha e culpar o outro”.

Fonte: R7