01/12/2019 - 01h02
Mais Arte, Menos Aids: Comunicação é ferramenta importante para avançar na luta contra o HIV, defendem especialistas

Com objetivo de discutir resultados positivos e desafios perante a quarta década do HIV, profissionais de saúde e gestores se reuniram durante a tarde deste sábado (29) no evento Mais Arte, Menos Aids que acontece no Parque Mário Covas, em São Paulo.

Na ocasião, a coordenadora do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, Maria Cristina Abbate falou das boas notícias com os novos dados da epidemia na cidade de São Paulo.

“Esse ano nós temos várias notícias positivas, o que não significa que não temos desafios. Pelo segundo ano consecutivo temos uma queda do número de novas infecções pelo HIV, o que nos indica que as novas metodologias de prevenção tem surtido efeito. Estamos levando testagem para espaços públicos, a ampliação da cobertura de distribuição de camisinhas, a PEP, a PREP e mais diálogos com as populações expostas.”

Outro bom indicador é a redução da taxa de mortalidade que, quando comparada com o ano de 2014, houve uma redução de 50%. “Além disso, recebemos a certificação da eliminação de transmissão vertical do HIV, isso tudo é resultado de muito esforço. E isso mostra que temos condições de eliminar a transmissão do vírus.”

O infectologista, Ricardo Vasconcelos, explicou que desde janeiro de 2018, a distribuição da PrEP no Brasil também foi muito significativa no estado de São Paulo. “A gente tem quase metade das pessoas que tomam PREP no estado de São Paulo. Isso acontece também pelo esforço e vontade política de cada estado. Sempre que você utiliza conhecimento técnico para fazer política pública, é possível atingir bons resultados.”

Como propagar informação

“É um ciclo vicioso. Quanto mais estigma, menos se fala sobre prevenção, o que faz com que o preconceito aumente”, defendeu Carué Contreiras, pediatra e sanitarista.

“Nos serviços municipais já temos 50% da população que acessa a PrEP de cor preta, disse ao enfatizar a importância da mídia para ajudar a levar informações para um público maior. A PrEP é importante porque ela retira a pessoa de uma cena de transmissão imediatamente. Agora, para um impacto coletivo, ainda precisamos caminhar muito”, defendeu Maria Cristina.

Para Ricardo, as pessoas se queixam muito sobre o que o poder público deveria estar fazendo e não faz. “Mas essas pessoas são também agentes de transformação. Somos todos agentes. Se não temos o governo federal fazendo propaganda de PrEP, nós temos smartphones, temos o boca a boca, as redes sociais, na mesa de bar, nas festas, na cama.”

Profissionais de saúde

Carué explicou que quando o adolescente precisa lidar com a iniciação da vida sexual é que começam os desafios. Para eles, ainda há muita vulnerabilidade porque os profissionais de saúde trabalham com escassez, “já que não é possível dar todas as orientações sobre a vida sexual em 15 minutos de consulta. Eles não falam sobre sexualidade na família, na escola e chegam no posto de saúde e não têm nenhuma acolhida.” 

Segundo Ricardo, há também dificuldades para as mulheres lésbicas porque os médicos não estão preparados lidar com essa população. “Acredito que a sensibilização dos profissionais de saúde é um dos maiores obstáculos para que a prevenção consiga chegar a quem se beneficiaria.”

“Inclusive quero me posicionar contra a campanha do Ministério da Saúde que tenta colocar medo nas pessoas através dos sintomas das infecções sexualmente transmissíveis. Nem sempre uma pessoa que não tem sintomas não tem uma IST. E nem sempre que alguém está usando camisinha durante a penetração significa que se está protegido. Lembrando que, nesta campanha, em nenhum momento é mencionada testagem, por exemplo.” 

Segundo Maria Cristina, o pior sintoma de uma sociedade doente é o preconceito, algo que também é visto entre os profissionais de saúde. “É um desserviço à saúde coletiva. O problema dos profissionais de saúde é que são humanos e que muitas vezes carregam os estigmas de dentro de casa para o consultório. É um trabalho cotidiano e a longo prazo, porque muitas pessoas colocam valores pessoais em sua atuação profissional.

Para ela, as dificuldades dentro do âmbito dos profissionais de saúde não está nas questões técnicas do trabalho. “Seguimos protocolos, seguimos o que está dado. Todo mundo que iniciar um atendimento na área de aids tem diretrizes definidas que já se mostraram exitosas. Assim, o precisamos é de uma boa gestão, que implica em uma integração com todas as áreas de atenção. Veja, conseguir a certificação é maravilhoso, mas a manutenção desses resultados é ainda mais desafiador.”

Comunicação e arte

Para Carué, “a crise de discurso é uma das crises da epidemia de aids. A gente não fala na educação, porque dizem que lá não é espaço pra isso, a gente não atinge as pessoas que precisa atingir”, disse ao ressaltar os desafios da epidemia.

“Precisamos informar e comunicar melhor”, defendeu Ricardo. “A comunicação pode ser feita de inúmeros modos e arte, qualquer que seja, é um jeito também. O melhor? Que tenham todos, para que cada pessoa seja impactada pela maneira que funcionar melhor pra ela. Quanto mais maneiras tivermos, maneiras que de fato sensibilizem as pessoas, melhor.”

Assim, Maria Cristina disse que a intersetorialidade é fundamental. “Como que a gente fala para outros públicos? No nosso caso, riamos parcerias com centros de cultura das regiões periféricas. Pouca gente gosta de fazer arte na periferia, então temos focado nisso também porque ali há grupos estruturados e organizados que se encontram nesses centros. E aí podemos entrar como conteudista dos trabalhos a serem apresentados.” 

Desafios

Ao final da mesa, os debatedores falaram sobre quais os principais desafios da epidemia. Na opinião de Carué, o aumento das mortes da população negra e a nossa face da aids é uma das maiores dificuldades.

Já para Ricardo, é importante lembrar que um mundo livre dos males do HIV/aids é possível, “estamos no melhor momento da epidemia na história. E isso não depende apenas do poder público, somos todos agentes de nosso microcírculo.” 

Segundo Maria Cristina, o potencial humano e as tecnologias estão avançando, por isso, o principal desafio é o preconceito. Quando olhamos com olhar mais detalhado sobre as populações, o segmento de pessoas pretas tem uma incidência três vezes maior do que pessoas brancas. Se não tivermos essa intransigência na defesas desses direitos, não caminharemos.”

A iniciativa é da Agência de Notícias da Aids conta com  o apoio da Associação Paulista Viva, da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, da DKT do Brasil, da ONG AHF Brasil, da farmacêutica GSK, da Bayer e da Gilead Sciences.

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