A escrita, através da musica foi a forma que consegui lavar os sentimentos que eu tinha através dessa vivencia com HIV. A arte faz a gente acessar um lugar diferente”, disse o ativista e escritor Salvador Correa na mesa Palavra e Prevenção durante o evento Mais Arte, Menos Aids nesse domingo (1). A iniciativa é da Agência de Notícias da Aids e conta com  o apoio da Associação Paulista Viva, da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, da DKT do Brasil, da ONG AHF Brasil, da farmacêutica GSK, da Bayer e da Gilead Sciences.

Durante a mesa que reuniu escritores vivendo com HIV, o autor de Positivo Maxwell, Marcelo Seiller, disse que sentiu necessidade de tirar o peso do silêncio sobre viver com o vírus escrevendo sobre o tema. “O objetivo era falar um pouco mais sobre o assunto porque ainda há muita desinformação. Converso com pessoas que não sabem as diferenças entre HIV e aids e muito menos sobre o indetectável = intransmissível, por exemplo.”

A escritora Marina Vergueiro explicou o porquê do título de seu livro publicado, o Exposta. “Não me sentia à vontade de publicar o livro porque tinha muito medo de falar sobre isso publicamente, porque apesar dos mais de 30 anos de epidemia, ainda existe muito estigma. É um começo, se aceitar falando sobre isso. E é também uma forma de a gente fazer prevenção.”

Thaís Renovatto também falou sobre o processo de se reconhecer na escrita. “Quando meu ex-namorado morreu de aids, como a maioria das pessoas, achei que isso nunca fosse acontecer comigo. Depois, entendi que a doença mesmo é social, então comecei a explicar para meus amigos e nisso comecei a contar sobre essa história”, foi assim que ela publicou seu livro Cinco Anos Comigo.

Agentes de Prevenção

Para Marina, o mais difícil foi escrever os poemas quando estava no hospital já com aids. “Por isso estou aqui, para falar que não precisa chegar no fundo do poço, como aconteceu comigo que cheguei a ter CD4 em 23.” 

Salvador disse que “você tem que cuidar do vírus e não o vírus cuidar de você. Fui inspirado por muitas pessoas. A gente ajuda e é ajudado o tempo inteiro, é algo que sempre se renova então a gente precisa resgatar a aposta na solidariedade.”

“Fico feliz de tentar pelo menos esclarecer dúvidas básicas sobre HIV para outras pessoas”, disse Marcelo. “A relação com a família ainda é um pouco estranha porque não falamos sobre isso, mas com meus amigos foi ainda mais tranquilo.” 

Thaís contou que, para cada pessoa contava sobre HIV de um jeito. “Para minha mãe e meu pai, por exemplo, tive de ser mais explicativa. Aos poucos fui explicando de maneira didática.”

Já a experiência de Marina foi um pouco diferente. “O médico violou um dos direitos básicos que foi contar para minha família. Foi muito difícil porque fiquei sabendo sozinha, o médico contou para mim, na cama do hospital, saiu e foi contar para meu pai. Fiquei 10 dias sem ninguém saber o que eu tinha. A gente só foi entender depois.” 

Para Salvador, há uma questão comum de, “assim que se descobre o vírus, você se sente sem direitos sexuais”, disse ao enfatizar o poder da palavra e a importância de aprender o significado que algumas expressões carregam como a diferença entre os termos “infectado” e “contaminado”.

Assim Marcelo também disse que viveu um luto sexual. “Fiquei um ano sem me relacionar”, disse ao criticar a última campanha lançada pelo Ministério da saúde. “Uma campanha equivocada, baseada no medo e no estigma.” 

Thais contou que, quando descobriu sua sorologia, um dos momentos mais marcantes foi quando revelou o HIV para seu namorado na época.”Hoje ele é meu marido, eu estava super insegura e quando contei, ele respondeu ‘que tipo de pessoa eu seria se eu não estivesse do seu lado quando você mais precisa?’ Depois disso, pensei em como posso exigir que alguém não tenha preconceito comigo, se eu mesma não me aceito?” 

Para Salvador, o HIV também trouxe momentos positivos marcantes foi aa aceitação de seu pai. “A partir dali nossa relação mudou porque ele começou aceitar também minha sexualidade. Então a doença também gerou uma abertura para ele trabalhar as outras questões da sexualidade.”