Uma das mais antigas ONG/Aids do Brasil, formada por pessoas vivendo e convivendo com HIV/aids, o Grupo Pela Vidda São Paulo, está em festa pelos 30 anos de sua fundação. São três décadas de muitos esforços e lutas pela vida de populações vulneráveis, em especial, pessoas vivendo com HIV/aids. Sua trajetória foi relembrada na noite dessa terça-feira (10), em cerimônia marcada por emoções e reencontros, no Teatro Aliança Francesa, no centro de São Paulo. “Estamos comemorando o esforço e o empenho de cada um que se doou para essa ONG, sustentada pelo trabalho voluntário e pelo ativismo de muitos. São 30 anos de altos e baixos, como a história da aids. Neste aniversário, a boa notícia é que ainda têm pessoas dispostas a dar continuidade a missão do Pela Vidda”, disse o professor Mário Scheffer, ex-presidente do grupo e um dos membros mais antigos, completando que “aos 30 anos não temos que ter receio de dizer que somos muito diferentes do que já fomos. Somos poucos, minorias, mas estamos atuando.”

Emocionado, Scheffer afirmou que a missão do Pela Vidda São Paulo não se esgotou. “No primeiro caderno Pela Vidda dizíamos que o compromisso do Grupo é promover a participação de todos no enfrentamento da epidemia, de combater o preconceito e a discriminação, de exigir tratamento e prevenção para todos, de lutar pela garantia de direitos, pela inclusão, qualidade de vida e dignidade das pessoas que vivem com HIV/aids e para todos aqueles que são mais afetados pela epidemia. Isso de jeito nenhum está defasado.”

O militante acredita que “é preciso se juntar novamente em defesa desses valores, não só para fazer avançar as políticas de aids, temos o entendimento comum de que as atuais políticas estão tímidas, paralisadas ou defasadas por perda de protagonismo da própria politica de qualidade e capacidade técnica, mas também pelo enfraquecimento do movimento que sempre servia de contrapeso. Muitas vezes não temos conseguido enfrentar ou impedir o risco de desmonte e retrocesso”, desabafou.

O nascimento da ONG em São Paulo

O professor Jorge Beloqui é considerado o fundador número 0 do Grupo. Ele relembrou, na noite dessa terça-feira, que a ONG paulistana foi criada três meses depois do Pela Vidda/Rio de Janeiro, fundado em maio de 1989, pelo sociólogo e escritor Herbert Daniel. “Eu conhecia o Herbert do movimento gay e fiquei lá no Rio uns tempos, participando das atividades da fundação.”

De volta a São Paulo, num evento no Centro Cultural São Paulo, que contou com a presença de Herbert Daniel, eles tiveram a ideia de pedir a então secretária de Cultura da Prefeitura, Marilena Chauí, uma sala para abrigar um núcleo paulista do Pela Vidda.

De um espaço dentro de uma biblioteca no Centro Cultural até chegar como pessoa jurídica à atual sede na Rua General Jardim, no centro, a ONG funcionou na casa dos fundadores, numa sala comercial da Avenida Paulista e em outra do Grupo de Apoio à Prevenção da Aids (Gapa).

Para Beloqui, o grupo se destaca, desde a fundação, pela integração de pessoas convivendo, e não apenas vivendo, com HIV. “O fato de estarmos ligados com o tema direitos humanos nos ajuda a resistir. Há 30 anos tínhamos um Programa Nacional de Aids, hoje não temos se quer um Departamento. Mas ainda existem Programas Estaduais e Municipais de DST/Aids empenhados nesta luta”, disse o ativista, que hoje faz parte do Grupo de Incentivo à Vida (GIV).

O atual presidente, Renato Matias, disse que acredita que ainda teremos um final feliz na história da aids. “Enquanto isso estaremos juntos lutando por tudo que sempre acreditamos. Neste ano não temos muito o que comemorar, mas estamos aqui celebrando o esforço de muita gente.”

Solidariedade

A comemoração foi prestigiada por ativistas, gestores, amigos e jornalistas. Os presentes tiveram a oportunidade de comentar os 30 anos desta história marcada pela solidariedade. O médico Artur Kalichman, coordenador do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, contou que a trajetória do Grupo faz parte de sua história na luta contra a aids. “Uma das coisas que mais me deixava impressionado quando em cheguei ao CRT, em 1989, eram os materiais criados pela ONG. Tinha um que dizia: E se o teste deu positivo? Viva positivamente”, recordou, completando que Hebert Daniel foi o cara, quando trouxe o conceito de morte civil.

Representando o Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, o interlocutor com a sociedade civil, Marcos Blum, disse que estes 30 anos de atuação foram fundamentais para o avanço da política de aids na cidade. “Tive a oportunidade de ver de perto a atuação da ONG em campo e ouvir dos usuários o quando este trabalho faz diferença é fundamental.”

Também presente na cerimônia, a jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência Aids, disse que a ONG sempre trouxe alegria, acolhimento e amor para a vida das pessoas com aids, destacando que os cadernos Pela Vidda eram fundamentais na construção da pauta solidária. “O Lucas e a Marina transformavam o boletim em reportagens. Era mais difícil naquele momento ganhar a pauta para o assunto aids.”

Outro que teve a vida marcada pela ONG foi o jornalista Aureliano Biancarelli, que disse que sempre foi um aprendiz da instituição. “Quando me perguntavam o que era transcriptase reversa eu dizia que aprendi nesta ONG a entender gente. ”

Além do material informativo, o Pela Vidda sempre foi reconhecido pela diversidade nos projetos com a comunidade. A ONG é responsável pelo Centro de Referência e Defesa da Cidadania, o CRD, também se dedica ao acolhimento de soropositivos e seus familiares, no Chá Positivo. Outros projetos do qual os ativistas do Pela Vidda/SP se orgulham é a Festa dos Aniversariantes, no último sábado de cada mês, o Cinema Mostra Aids, que  oferece uma ótima oportunidade para quem quer conferir as produções que retratam a pandemia no mundo, e a campanha Viaje Bem Com Camisinha — na sexta-feira de Carnaval, voluntários distribuem nas rodoviárias da capital camisinhas, gel e folhetos informativos sobre IST/aids.

Do Rio de Janeiro, o ativista Ézio lembrou que o núcleo São Paulo sempre foi visto como uma instituição que lutava junto contra todos os problemas. “Este grupo também ajudou a mudar a realidade da aids no pais.”

O advogado Claudio Pereira, presidente do GIV, acrescentou que o Pela Vidda São Paulo sempre foi a luta. “A capacidade técnica dos profissionais que atuam nesta ONG é fundamental, mas, assim como Roseli, acredito que eles são responsáveis mesmo por exportar alegrias e vida para outros lugares.”

Mário Scheffer se emociona ao lembrar de sua trajetória e crescimento profissional junto com o Grupo Pela Vidda

 

Veja a seguir a galeria de fotos da festa de aniversário:  

30 anos de amizade, valorização da vida, acolhimento, informação e amor;

“Este é o momento de celebrar o esforço de muita gente”, disse Renato Matias, atual presidente do Pela Vidda São Paulo;

Fundador do grupo, Jorge Beloqui relembrou a história de construção do coletivo;

“Foi no Pela Vidda que aprendi a ser cidadão”, disse o professor Mário Scheffer;

Dr. Artur reconheceu a importância da sociedade civil na construção da resposta à aids;

Marcos Blum lembrou que é no trabalho de campo que a ONG faz a diferença;

Os jornalistas Roseli Tardelli e Aureliano Biancarelli: os cadernos que o Pela Vidda editava e distribuía fizeram diferença na construção de pautas propositivas para a questão da aids;

Claudio Pereira, do GIV: atuação do grupo exportou vontade de viver para muitas pessoas;

Ézio relembrou emocionado os momentos importantes de trocas e parcerias entre Rio e São Paulo;

Na cerimônia dos 30 anos, o Pela Vidda homenageou algumas pessoas, entre elas o seu Noberto, um dos presidentes da ONG. Quem recebeu a medalha foi seu companheiro, Luiz Francisco;

Outra homenageada da noite foi Leila Rios, representada pela militante Brunna Valim;

A militante Maria Hiroko também foi lembrada com muito carinho. Ela nos deixou no início deste ano, mas seu sobrinho, o Filipe, esteve no evento. “Minha tia deixou o legado do amor sem julgamentos.”

José Umberto de Souza também recebeu a medalha pelo apoio de mais de 20 anos a instituição;

Eduardo Barbosa, Scheffer e Aureliano: os três juntos fizeram diferença para a cidadania das pessoas vivendo com HIV/aids;

O secretário-adjunto da Secretaria de Assistência de Desenvolvimento Social do Município, Marcelo Costa Del Bosco Amaral, prestigiou o evento e disse que a ONG tem um contribuição fundamental na valorização do ser humano. “Hoje podemos conversar pela luta de 30 anos.”

30 anos Pela Vidda e o jargão repetido ao longo desses anos de luta : “Viva a Vida”!

 

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Grupo Pela Vidda São Paulo

Tel.: ( 11) 3259-2149