Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018

 
 
 


História do ativismo contra aids no Brasil também renderia um filme, concluem ativistas em debate no CineSescHistória do ativismo contra aids no Brasil também renderia um filme, concluem ativistas em debate no CineSesc

11/01/2018 - 16h34

 

“Nossa história também daria um filme.” Durante debate que aconteceu nessa quarta-feira (10) após a exibição do filme 120 Batimentos por Minutos, no CineSesc São Paulo, o ativista José Araújo mostrou-se surpreso com o fato de que, mesmo sem saber, o movimento social contra aids no Brasil tinha iniciativas muito similares às que eram realizadas pelo grupo francês Act Up, retratado no longa, durante os anos 90 e ressaltou que  “a conquista do tratamento contra aids no Brasil passou pelo ativismo”.

Também contribuiu com o debate o ativista Beto Volpe. Os dois contaram experiências que viveram dentro do movimento social na luta contra aids. Além dos pontos em comum com a história do grupo francês, Araújo lembra quando os brasileiros montaram um kit manifestação. “Também usávamos bexiga com sague falso. Tínhamos suporte de soro, maca. Tudo isso na época do fax. Vendo o filme, percebo que usávamos estratégias muito parecidas, sem nem saber o que eles estavam fazendo lá. O longa também retrata nossa história.”

Araújo recordou quando, em 1995, faltavam medicamentos na rede pública de saúde e, em analogia ao escândalo político conhecido como Frangogate, os ativistas soltaram galinhas na Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. “Vieram 70 galinhas, levamos caixas de presente e dentro de cada caixa tinha uma galinha. Elas se espalharam pelo prédio, pelo elevador...”, conta arrancando risos da plateia. “Deitávamos na paulista, protestamos em frente ao Masp, carregávamos caixões. Hoje a imprensa acabaria com nós porque atrapalharia o trânsito.”

Beto Volpe defende que a preocupação agora é estar diante do risco de perder as conquistas já realizadas. “O movimento fragmentou e começou a se dividir”, disse enquanto confessava já ter pensando em desistir do tratamento. “Eu queria acelerar o processo. Via todas as pessoas morrendo a minha volta. Tive AVC, câncer duas vezes, passei por 23 cirurgias. Ou você ficava em casa chorando ou ia para a rua brigar”.

Durante a conversa ficou claro que a lutar contra aids trata-se de uma batalha pela vida. Os ativistas enfatizaram, “éramos unidos para poder viver; o vírus nos ‘hermanava’”. No entanto, Beto também se mostrou preocupado com a maneira com que o ativismo está sendo feito no Brasil. “Acredito que vivemos uma evolução seguida de uma involução. Desde que entrei no movimento pude ver a gama de aprendizado, conhecimento, mobilização. E, com o tempo, parece que começou a andar para trás. Hoje se lembra de aids no dia 1 de dezembro, quando muito. O Brasil está cometendo o mesmo equívoco com a tuberculose: encontrou a cura e se esqueceu da doença.”

A plateia também participou do debate. Um dos participantes questionou o fato de muitas pessoas assumirem a ideia de que hoje o jovem se infecta mais porque banalizou a aids. Em defesa, Araújo colocou que quem afirma que o jovem banalizou o vírus não tem a real dimensão do contexto social da doença. “É preciso saber sobre que jovem você está falando. Não se pode simplificar com a banalização e nem tratá-lo como imbecil. Para o setor conservador do governo, é mais fácil falar que ele banalizou, do que falar sobre prevenção.”

 

Divergência de Gerações

Ao comparar o ativismo feito nos anos 90 e as atividades que são realizadas hoje, Araújo criticou aqueles que, segundo ele, estão em busca do estrelato. “Ficar na internet teclando com frases chavões não vai adiantar”, e completou “o ativismo na internet é tão mal usado que sinto saudade do fax”.

Beto justificou seu posicionamento ao defender que “quando tiver que pleitear algo, não é pela internet, é se unindo, indo presencialmente, protestando. Essa involução é porque as pessoas passaram a ver no ativismo uma carreira profissional e fica difícil você ‘bater’ na pessoa que pode ser seu patrão amanhã. Vemos na internet muitos grupos sem base, que não sabem o que estão falando”.  

A jornalista Roseli Tardelli defendeu que a internet é, na verdade, uma aliada e que veículos como a Agência de Notícias da Aids não teriam sobrevivido fora da rede. "A internet é um instrumento poderoso na luta contra aids e veio para ficar. O que precisamos fazer agora é buscar entender melhor como ela funciona e usá-la a nosso favor", disse.

O ativista e youtuber Gabriel Estrela mostrou-se contrário à opinião dos debatedores. Disse que busca aprender com aqueles que já passaram por experiências anteriormente e também acredita que é importante usar a internet a favor do movimento. “Essa seria uma oportunidade de diálogo com os jovens, que são maioria do público aqui hoje. A partir do momento que se toma algo como verdade, excluímos todas as outras possibilidades.”

Após alguns jovens se ausentarem da sala, os ativistas esclareceram que não têm “nada contra a internet, e querem dialogar com aqueles que estão fazendo um bom trabalho”. 

 

Jéssica Paula (jessica@agenciaaids.com.br)