Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017

 
 
 


Em artigo, médico infectologista mostra estratégias que vêm sendo exploradas visando a erradicação do HIV Em artigo, médico infectologista mostra estratégias que vêm sendo exploradas visando a erradicação do HIV

07/12/2017 - 15h06

 

Nós infectologistas somos frequentemente questionados pelos nossos pacientes: quando a cura do HIV estará disponível? A grande divulgação do caso do paciente de Berlim demonstrou a possibilidade de se alcançar tal objetivo, não sendo, portanto, apenas um mito na imaginação de todos.

De fato, há uma corrida na comunidade científica para novas descobertas que possam levar a esse objetivo, de forma que há uma série de estratégias que vêm sendo exploradas visando a erradicação do HIV.

O acesso a um tratamento eficaz, bem tolerado, de fácil execução e custo reduzido continua a ser um objetivo esperado. Mas apenas o contínuo investimento e a perseverança na pesquisa científica transformarão a cura em uma conquista que ajudará no tratamento de pessoas que vivem com o HIV e no enfrentamento da epidemia.

O HIV é pandêmico, com distribuição heterogênea no mundo, atualmente com cerca de 33 milhões de indivíduos acometidos – uma incidência de cerca de dois milhões/ano. É caracteristicamente um problema de saúde pública mundial, com um custo estimado em cerca de 30 milhões de dólares/ano em alguns países, tendo recebido de 2000 a 2015 um investimento de cerca de 187 bilhões de dólares. Atualmente, os investimentos no combate à aids chegam a cerca de 22 bilhões de dólares por ano.

Estratégias atuais

As estratégias globalmente desenvolvidas até o momento visam diagnosticar todos os indivíduos acometidos, tratar a grande maioria, senão todos, zerar a transmissão vertical e reduzir (se possível, também zerar) a transmissão sexual, com a finalidade de eliminar o HIV até 2030.

Nesse caminho há muitos obstáculos: foi constatada a redução das taxas de transmissão vertical e de incidência em algumas áreas do globo, porém encontrou-se aumento progressivo em outras regiões, pois tais estratégias esbarram em características culturais, sociais e políticas locorregionais. No Brasil, por exemplo, entre 2010 e 2015, o número de novas infecções entre adultos subiu de 43.000 para 44.000 (2,3%).

A terapia antirretroviral (TARV) não é curativa. O impacto social e financeiro da doença é evidente, e a cura é ainda mais almejada. O último documento da Unaids cita como uma de suas estratégias o investimento nas pesquisas de desenvolvimento de vacinas e tecnologias para a cura, com a eliminação do HIV da pessoa infectada.

Dificuldades

O desenvolvimento de uma vacina é complexo e trabalhoso, uma vez que se trata de um patógeno que mantém um padrão estrutural, e se torna ainda mais desafiador quando se trata de um vírus com elevada capacidade de mutação/recombinação e que apresenta circulação de diversas variantes em um mesmo indivíduo, como é o caso do HIV e de suas quasiespécies, além dos diferentes subtipos em uma mesma população.

Outro desafio é a diversidade do antígeno leucocitário humano (HLA), devido ao elevado polimorfismo.

Desafios

Um importante desafio é desvendar um mecanismo que estimule uma resposta imune celular que englobe as diversas variantes circulantes do HIV, as quais podem divergir em até 20% entre os subtipos. Outro desafio é a diversidade do antígeno leucocitário humano (HLA), devido ao elevado polimorfismo, que é o responsável por determinar o início da resposta mediada pelo linfócito T (um mesmo antígeno produz respostas diferentes em populações com HLA diversos).

Nos últimos 30 anos, vários conceitos para uma vacina contra o HIV foram testados, além de terem sido realizados seis ensaios de eficácia. Desses, o ensaio da vacina RV144, na Tailândia, em 2009, foi o mais promissor, reduzindo o risco de infecção pelo HIV em 31%. Outros estudos estão em andamento, inclusive em fase III, cujos resultados serão disponibilizados nos próximos anos, com entusiasmo variável na comunidade científica.

Obstáculos para a cura

A variabilidade humana multifatorial, que engloba idade, gênero, presença de coinfecções, estágio de progressão da doença, microbioma e características específicas do material genético do hospedeiro, também afeta a persistência do HIV de forma latente.

Os ditos santuários virais geralmente são de difícil acesso para a coleta de informações para o estudo, como baço, cérebro, trato genital e timo, e são de extrema importância para a compreensão dos mecanismos de escape do sistema imune, além do fato de que caracterizar e quantificar o potencial de célula com replicação do HIV competente presente nesses tecidos é um desafio, seja pelo acesso, seja pelas metodologias presentes até o momento.

Os atuais biomarcadores de infecção pelo HIV ou da infecção latente são escassos, e se faz necessário o desenvolvimento de novas ferramentas. A clássica quantificação viral carece de grande número de células, é cara e depende de uma estrutura laboratorial. O uso de PCR, com amplificação do DNA pró-viral, é fácil de padronizar, porém superestima o número de células com infecção latente, uma vez que a maioria dos vírus que persistem durante a TARV apresentam delações ou mutações letais.

Desse modo, nem todo material gênico do HIV incorporado na célula humana é capaz de produzir vírus ou vírion; a quantidade de vírions no sobrenadante é diferente do que se estima pela medição do DNA pró-viral, que também difere da quantidade de proteínas do HIV traduzidas na matriz. Talvez seja mais fidedigno medir a resposta imune causada pela presença do vírus que a quantidade viral em si.

Ainda não estão disponíveis biomarcadores capazes de predizer o tempo de recidiva virológica sem TARV.

O artigo de Artur Timerman na íntegra você pode conferir aqui.


 

Fonte : Veja