Sábado, 18 de Novembro de 2017

 
 
 


19º Enong: Ativistas debatem alternativas para o futuro do movimento social19º Enong: Ativistas debatem alternativas para o futuro do movimento social

14/11/2017 - 02h

"Que amanhãs precisamos construir quando a conjuntura do Brasil e do mundo só apontam para o conservadorismo e retrocessos? Ou quando a nossa sociedade está adoecida e o SUS sob ameaça? Hoje, o que vemos são as tecnologias sociais de prevenção, com perspectiva de direitos humanos, sendo substituídas por abordagem medicamentalizada, antirretrovirais vencidos e desabastecimento de medicamentos por questões de logística." A fala é da jornalista Alessandra Nilo, coordenadora da Gestos. Ela participou na tarde dessa segunda-feira (13), no 19º Enong, em Natal, de um debate sobre a construção de um futuro próximo para o movimento de aids.

Alessandra considera, por exemplo, que há uma guerra contra os direitos humanos. "Nos últimos tempos só encontramos extremismos religiosos, conflitos, violência escalonada, governos nacionalistas, desigualdades crescentes e competição. Estamos perdendo bens públicos e a privatização significa menor capacidade de controle social."

A militante apontou a criminalização do HIV, a falta de debates sobre educação sexual, ideologia de gênero e violação direitos como um retrocesso na luta contra a aids. "Precisamos reativar o ativismo, repolitizar o debate sobre saúde, garantir a participação como direito, o que implica em deveres e responsabilidades, para reverter esse quadro."

Ela sugere ainda que o movimento social estabeleça pautas comuns e estruturantes entre diferentes movimentos. "Temos que voltar a investir em educação política, formação para o advocacy e atuação em rede. É preciso assegurar também a participação inclusiva e representativa em todos os níveis de decisão. Queremos instituições efetivas e afetivas."

Sobre o desfinanciamento da resposta à aids, ela apontou qa luta pela garantia de recursos como o maior indicador da vontade política. "As políticas podem ser bem desenhadas, os programas maravilhosos, mas só com o orçamento é possível executar. De forma geral, o recurso para saúde até cresceu, mas o que vemos é a diminuição dos recursos para a aids. Até o Unaids está sendo subfinanciado nos últimos anos."

Alessandra considera que um "movimento solidário, inteligente e estratégico estabelece agendas coletivas, alianças, cobra transparência, se fortalece a partir dos objetivos em comum, entende a comunicação como ação política e as disputas pelo poder e representações ocorrem a partir de parâmetros éticos."

O alerta dela é para que todo o movimento social fique atento a agenda dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável). “O item 3 fala sobre a garantia de vidas saudáveis e a promoção do bem-estar em todas as idades. Os países se comprometeram com metas para a aids, precisamos cobrar."

"O amanhã será a consequência do hoje, então precisamos pensar em estratégias de curto, médio e longo prazo. Sugiro também um investimento no amor, no cuidado de uns com os outros e na cultura de paz. A meta principal da Anaids deveria ser solidariedade e fortalecimento mútuo entre fóruns e redes", concluiu.

Também estiveram na mesa o professor Kiko Rodrigues, do Gapa Pará, e a assistente social Juliana Reiche, do Cedaps (Centro de Promoção da Saúde), do Rio de Janeiro.

De forma criativa e emocionante, Kiko usou o livro Zoom, de Istvan Banyai, para chamar atenção dos ativistas para o campo de visão que as pessoas estão tendo sobre o movimento social. "Será que os desafios do movimento aids não é uma questão de zoom? Não precisamos de criatividade, imaginação ilimitada, inovação e mudança constante, principalmente em relação a conhecimento e visão?" Ele finalizou sua fala com o samba enredo da União da Ilha do Governador, de 1978, e perguntou ao movimento sobre o que será o amanhã.

Já Juliana defendeu que "novas conquistas só acontecerão se conseguirmos manter e aprimorar as já existentes. "Com a negligência dos poderes públicos em relação à dimensão social da epidemia, as ONGs ocupam um papel fundamental na promoção de informação e prevenção, inclusive alcançando locais onde o Estado não consegue chegar."

Para ela, "o conhecimento comunitário continua sendo tão importante quanto o conhecimento científico na lógica das políticas públicas para fundamentar uma resposta eficaz frente a epidemia", finalizou.

Nova Rede

Antes do encerrar o debate as representantes do seguimento trans no Enong anunciaram a criação da Rede Nacional de Travestis e Mulheres e Homens Transexuais Vivendo com HIV/aids. "Essa rede nasceu da necessidade de debater as especificidades desta população", disse a ativista Cleonice Araújo.

O 19º Enong chegará ao fim nesta quarta-feira (14).

Dica de entrevista

Comissão organizadora

E-mail: secretaria.enong2017@gmail.com

 

Talita Martins, de Natal (talita@agenciaaids.com.br)