Sábado, 18 de Novembro de 2017

 
 
 


19º Enong: Construção de uma agenda comum entre redes é marcada por debate acalorado 19º Enong: Construção de uma agenda comum entre redes é marcada por debate acalorado

13/11/2017 – 19h30

Diferentes diálogos para uma agenda em comum, este foi o tema central das discussões do 19º Enong (Encontro Nacional de ONGs, Redes e Movimentos de Luta Contra a Aids), nesta segunda-feira (13), em Natal. O debate foi intenso, representantes de ONGs, redes e movimentos aproveitaram a oportunidade para trocar acusações entre si e cobraram mais união das três redes que representam as pessoas vivendo com HIV/aids no Brasil: a RNP+ Brasil (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids), a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids e o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas.  “Não se pode ter uma agenda comum com tantas posições contrárias, especialmente nos espaços em que o movimento dialoga com o governo. A divergência tem sido a maior arma da gestão", disse o jornalista Paulo Giacomini, da RNP+Brasil.

Para ele, essa agenda precisa acontecer como em 1996, quando todos se uniram com o mesmo objetivo na luta por antirretrovirais. "Na última reunião da Cams, por exemplo, o Departamento de aids fez uma consulta com alguns representantes do movimento, vale destacar que não foi uma consulta pública, e com o apoio da Rede de Jovens e das Cidadãs Posithivas ficou decidido que pessoas vivendo com HIV/aids (PVHA) passariam a ser chamadas de pessoas vivendo com HIV (PVHIV), o que somos contra. Eles não vão nos dizer o que somos e somos pessoas vivendo com HIV/aids. Em 1992, era preciso ser notificado com aids para ter acesso aos medicamentos", desabafou.  

Representando o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, Silvia Aloia, rebateu dizendo que as mulheres já voltaram atrás e assumiram que foi um equívoco votar a favor da mudança do nome. "Não tínhamos analisado a questão com aprofundamento, por isso, queremos retomar a discussão e rever o que ficou decidido."

Ainda segundo ela, a missão das Cidadãs é promover ações de fortalecimento integral das mulheres vivendo com HIV/aids, com foco no acesso à informação e na garantia dos direitos humanos. "Queremos e necessitamos somar forças com outros movimentos para fortalecer as nossas pautas em comum, vamos continuar trabalhando com base no diálogo e no respeito mútuo."

Assim como Silvia, o estudante Rafael Arcanjo, da Rede de Jovens, disse que a decisão naquele espaço não foi coletiva. "Nosso representante não trouxe o debate para base, não foi uma fala nossa. Hoje, vivemos uma nova conjuntura e queremos somar e construir com todos vocês. Mas não acredito na construção de uma agenda comum sem diálogo."

Ele continua: "É muito triste chegar ao Enong e não ver jovens por aqui. Queremos ouvir e aprender com os mais velhos, mas não seremos doutrinados por ninguém."

Paulo defende que “a mudança da nomenclatura é violenta e fere os direitos humanos das pessoas vivendo com HIV/aids, mas essa não é uma imposição apenas do governo brasileiro é também do Unaids, da OMS [Organização Mundial da Saúde]. Hoje, há várias metas para o fim da epidemia, mas não vi ninguém assumir o compromisso de 90% menos mortes relacionadas a aids e 90% menos estigma e discriminação.”

Outro ponto que causou divergência entre as redes foi a sociometria de seus integrantes. Paulo acusou as Cidadãs de não apoiar a RNP+Brasil na construção desta ferramenta analítica para estudo de interações entre grupos. "Me disseram que era algo focado na intimidade, o problema é que ao mesmo tempo elas fizeram um documento onde a primeira pergunta era justamente o nome da pessoa."

Silvia esclareceu: "Não temos sociometria no movimento das Cidadãs, o que fizemos foi apenas uma ficha de cadastro e perfil para as nossas integrantes. Todas as Cidadãs também são RNP+, por isso, acreditamos que estamos contempladas na sociometria da rede. Somos parceiros e sei que posso contar com dados da sociometria se precisa, por exemplo, de dados sobre a violência da mulher."

Alguns caminhos

Também presente no debate, o professor e pesquisador Veriano Terto, da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids) e da  Anaids (Articulação Nacional de Luta Contra a Aids) , acredita que a agenda comum só será possível se houver o resgate da política de solidariedade e interdisciplinar. "Não podemos entrar na onda da desumanização, as pessoas não são vistas como pessoas. O neoliberalismo causa a fragmentação do movimento social e muitos começam a produzir isoladamente os discursos, sem levar em consideração os valores e as representações."

Veriano defendeu ainda que os valores individuais e específicos não podem ser sobrepostos a valores coletivos, como de cidadania, universalidade e equidade. "Não podemos nos tornar um movimento de competição por recursos, poder e visibilidade. Este cenário só nos traz desconfiança. Além disso, corremos o risco de abandonar nossos princípios, memórias e as tradições das lutas sociais. O enfraquecimento da intersetorialidade e interdisciplinaridade não é um bom caminho."

Ele acredita que há vários desafios para diferentes diálogos de uma agenda comum. “A partir das diferenças de cada segmento, como encontrar denominadores comuns para a construção de uma agenda de luta? Como vencer a fragmentação e a desconfiança e estabelecer políticas de solidariedade?”, questinou.

Veriano propôs aos militantes pensar uma agenda com base na universalidade, equidade, tolerância, justiça, cidadania, direitos humanos e na defesa da democracia. “Temos que manter o respeito as diferenças, sem perder de vista denominadores comuns de luta. Por onde passa a inclusão social: atendimento de demandas específicas, promoção da cidadania ou as duas agendas integradas?”

Relação governo e sociedade civil

Representando o Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais, Gil Casimiro, defendeu o diálogo como instrumento fundamental na relação entre governo e sociedade civil. “Nós apoiamos movimentos e não pessoas, mas como somos governo temos que ouvir todo mundo.”

Sobre a troca de nomenclatura na sigla oficial das pessoas vivendo com HIV/aids, Gil disse: "não somos nós quem vamos definir o que vocês são. A mudança de nomenclatura seguiu a tendência internacional.”

O ativista Esdras Gurgel, da RNP+, lembrou que o Departamento de Aids existe porque existe a aids. “Fomos nós quem construímos a política. Agora precisamos saber como voltar a dialogar com o governo.”

Da Gestos, Jair Brandão também acredita que o caminho para a agenda comum é o diálogo. “Neste espaço somos todos Anaids, mas nem todos se sentem Anaids. Temos que repensar a nossa posição e construir nossas pautas antes de qualquer reunião com o governo.”

Veriano concordou com Jair: “temos que ter uma agenda pronta e as nossas representações precisam defender o coletivo nos espaços que estão.”

Ao fim do debate, os representantes de movimentos, Fóruns e redes se comprometeram em unir esforços e construir em breve uma agenda comum de trabalho.

Dica de entrevista

Comissão organizadora

E-mail: secretaria.enong2017@gmail.com

 

Talita Martins, de Natal (talita@agenciaaids.com.br)