Quinta-feira, 22 de Junho de 2017

 
 
 


Ativistas voltam a criticar fechamento de CTAs em São Paulo. Gestores garantem que serviços não deixaram de funcionarAtivistas voltam a criticar fechamento de CTAs em São Paulo. Gestores garantem que serviços não deixaram de funcionar

17/04/2017 – 18h

O fechamento ou troca de endereço dos CTAs (Centro de Testagem e Aconselhamento em DST/Aids) Santo Amaro e Parque Ipê, na zona Sul de São Paulo, foi debatido mais uma vez na manhã desta segunda-feira (17), em reunião ordinária da Comissão Municipal de DST/Aids de São Paulo. Com a presença da secretária-adjunta de Saúde, Maria da Glória Zenha Wieliczka, a discussão reuniu membros da comissão, movimento social, gestores, representantes das coordenadorias regionais de saúde de São Paulo, funcionários do CTA, entre outros.

De um lado, os ativistas reafirmaram que não houve diálogo por parte da Prefeitura de São Paulo antes da decisão. “Não fomos chamados pela Coordenadoria Regional de Saúde Sul para debater o fechamento do CTA, só soubemos que o serviço trocaria de endereço quando a decisão já estava tomada", disse José Araújo Lima, coordenador do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids). Do outro, Marco Antônio Carvalho de Lima, responsável pela Coordenadoria de Saúde Sul,  rebateu dizendo que não houve fechamento ou interrupção dos serviços. "O CTA Santo Amaro foi realocado para um prédio próprio da prefeitura, há uma grave crise financeira e a nossa missão é cortar gastos. O déficit na coordenadoria Sul em janeiro era de R$ 13 milhões. Mas nos 100 primeiros dias do governo João Doria conseguimos economizar 2 milhões e hoje o nosso déficit caiu para R$ 10,5 milhões", explicou.

O gestor contou ainda que outras medidas foram tomadas na região com o objetivo de economizar. "Tivemos uma série de corte de contratos. Diminuímos a frota de carros, celulares e estamos otimizando tudo que é possível, inclusive as nossas reuniões." Especificamente sobre o CTA Santo Amaro, Marco disse que, antes de realocar o serviço para um prédio público, houve sim o diálogo entre a coordenadoria e os conselhos gestores das unidades de saúde. "No dia 31 de janeiro estivemos no Centro de Referência (CR) Santo Amaro [local que abriga atualmente o CTA] para uma reunião com a equipe de supervisão técnica, os gerentes do CTA, do CR e os representantes dos conselhos gestores das duas unidades. Todos foram favoráveis à mudança".

O coordenador regional de Saúde alegou também que o imóvel alugado para o CTA Santo Amaro estava em péssimas condições, com infiltração de água e que 30% dos prontuários foram perdidos depois de uma forte chuva em janeiro. "A copa dos funcionários foi instalada em um banheiro. É inaceitável um serviço funcionar nestas condições."

Cinthia, umas das funcionárias do CTA Santo Amaro, confirmou que houve uma forte chuva, mas desmentiu Marco Antônio sobre a perda dos prontuários. "Gostaria de saber quantas vezes o senhor visitou o CTA Santo Amaro? O senhor esteve lá no momento em que já estávamos de mudança, não havia mais móveis no prédio e as paredes estavam feias. Não perdemos prontuários, eles foram molhados porque tínhamos uma infiltração no telhado, mas colocamos os documentos no sol e secou."

Marco garantiu que esteve no local antes e que realocar o serviço foi a melhor decisão. "Não vamos fechar nenhum espaço, o que queremos é a revalorização dos funcionários e o resgate dos CTAs na cidade de São Paulo. A ideia é reverter os nossos recursos em qualidade de assistência."

O gestor afirmou que mesmo com a mudança de endereço, haverá independência nas unidades de saúde. "O Programa Municipal de DST/Aids vai investir recursos, adequar o prédio e os serviços terão entradas diferentes."

Sobre o CTA Parque Ipê, Marco argumentou que a decisão de realocar o serviço se deu pelo fato deste CTA ser uma unidade fantasma. "O espaço estava entregue as moscas, o número de testes rápidos de HIV realizado no local era insuficiente. Queremos reerguer o serviço e mudar essa realidade. Hoje, o CTA está abrigado no SAE [Serviço de Atendimento Especializado em DST/Aids] Mitsutani, também na zona sul, mas, em breve, ganhará um espaço exclusivo na área que abriga o Samu e vai funcionar de forma independente."

O papel do CTA

Quem já esteve no Centro de Testagem e Aconselhamento em DST/Aids sabe que este serviço tem papel chave na luta contra a epidemia. Além de realizar testes para detecção de infecções sexualmente transmissíveis, como o HIV, sífilis e hepatite B e C, são responsáveis por criar estratégias para orientar a população sobre a importância da prevenção e do sexo seguro. O ativista Américo Nunes, um dos coordenadores do Mopaids, lembrou que os CTAs podem ajudar, por exemplo, a cidade de São Paulo a alcançar as metas 90-90-90, do Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas para o HIV/Aids). "Em 2014, o Brasil assumiu um compromisso com a ONU de acabar com a epidemia de aids. As metas preveem que, até 2020, 90% das pessoas vivendo com HIV estejam diagnosticadas; 90% dessas estejam em tratamento antirretroviral; e 90% deste grupo tenha carga viral indetectável. Sem o apoio dos CTAs fica mais difícil. Estes espaços são os que mais acessam a população-chave para o HIV/aids: jovens gays, profissionais do sexo, travestis e transexuais, usuários de drogas e homens que fazem sexo com homens."

Américo acredita que outros CTAs na cidade podem fechar as portas ainda este ano. “Já sabemos que o CTA São Miguel vai fechar em agosto, até agora nenhuma discussão foi feita na região leste.”

O professor Jorge Beloqui, membro da Comissão de Aids e do GIV (Grupo de Incentivo à Vida), também defendeu a manutenção dos CTAs. Ele explicou a Marco Antônio que nem sempre o número de testagem é o mais importante no CTA. "Os centros de testagem vão adquirir maior relevância com a chegada da PrEP (profilaxia pré-exposição ao HIV) no país e precisamos estar preparados para atender essa demanda. Estes serviços vão atender pessoas sem HIV que querem tomar os antirretrovirais para evitar a infecção. Também são espaços de prevenção de outras DSTs, como sífilis e hepatites. As pessoas vão até o CTAs falar de suas práticas sexuais. Então, é necessário e urgente o resgate dos CTAs, queremos serviços aperfeiçoados, reformados e mantidos.”

Do CTA Itaim Paulista, Vangêla quis saber se as Unidades Básicas de Saúde, que também ofertam testes rápido de HIV, estão acessando populações-chave.

Segundo a psicóloga Cristina Abbate, coordenadora do Programa Municipal de DST/Aids, uma pesquisa apresentada recentemente pela Dra. Cristina Barbosa diz  que as mulheres diagnosticadas para sífilis ou HIV nas unidades básicas fizeram o exame por indicação do pré-natal. “Majoritariamente a população que acessa os serviços básicos não são população-chave para o HIV.”

Cristina também defendeu a importância dos CTAs. “Esses serviços realizam ações extramuros e são peças chaves na luta contra a aids.”

A reunião durou mais de duas horas e os representantes do Mopaids entregaram para a secretária-adjunta, Maria da Glória, um abaixo-assinado sobre o fechamento dos CTAs. O movimento reuniu quase 500 assinaturas.

“Não somos irresponsáveis e levianos. Não estamos fazendo o que vem a cabeça, o nosso trabalho é para melhorar a saúde na cidade de São Paulo. Sou defensora do SUS e acredito neste sistema. Nós, certamente faremos coisas boas e ruins. Aceitamos críticas, mas queremos críticas saudáveis, com sugestões. Hoje, a situação é ruim e temos que economizar, erros acontecem, mas vamos avançar de maneira criativa”, disse a secretária-adjunta.

O ativista José Araújo afirmou que é preciso que a atual gestão melhore a interlocução com a sociedade civil. “Na semana passada, o Secretário Wilson Pollara afirmou, em entrevista à Agência Aids, que não é política do município o fechamento dos serviços de aids. Vamos dar um voto de confiança e estaremos juntos cobrando, propondo, criticando e elogiando”, disse.

A Comissão de Aids decidiu criar um grupo de trabalho que vai verificar de perto a situação do CTA Santo Amaro. Eles também pediram aos coordenadores regionais de saúde e seus representantes para que antes de tomar qualquer decisão sobre fechamento ou troca de endereço dos serviços de aids que leve a discussão à Comissão de Aids e ao Conselho Municipal de Saúde.

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Dica de entrevista

Secretaria Municipal de Saúde

Tel.: (11) 3211-0222

Mopaids

Tel.: (11) 5084-0255

 

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)