Sábado, 29 de Abril de 2017

 
 
 


Ecos de Durban: Delegação paulistana destaca pontos marcantes da Conferência Internacional de AidsEcos de Durban: Delegação paulistana destaca pontos marcantes da Conferência Internacional de Aids

01/09/2016 – 17h

__Foto: Da esquerda para a direita - Rubens Duda, Roseli Tardelli, José Luís e Dra. Eliana Gutierrez

Em julho deste ano a cidade de Durban, na África de Sul, recebeu aproximadamente 18 mil pessoas que lutam contra a aids para a 21ª Conferência Internacional de Aids. Foram cinco dias de intensos debates e trocas de experiências entre ativistas, gestores, jornalistas, pessoas vivendo com HIV/aids, pesquisadores e celebridades. Todos com objetivos em comum: frear o avanço da doença que já atingiu 36,9 milhões de pessoas no mundo, segundo o Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o HIV/Aids). A equipe do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo esteve na Conferência e se reuniu nessa quarta-feira (31), na Galeria Olido,  para compartilhar as impressões do evento.

Além da coordenadora do Programa e do assistente de coordenação, Dra. Eliana Gutierrez e Rubens Duda, participaram do debate o ativista Américo Nunes, do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids), a diretora da Agência Aids, Roseli Tardelli e os pesquisadores do Projeto Muriel, Gustavo Saggese e José Luís Gomez.

"A África do Sul recebeu pela primeira vez uma Conferência de Aids em 2000. Era um período ruim e complicado, as pessoas diziam naquela época que a aids não existia ou que era possível tomar um chá qualquer e se curar. Hoje, a realidade é outra, eles concentram o maior número de pessoas em tratamento no mundo. Dezesseis anos depois, celebramos a mudança da política naquele país", contou Dra. Eliana Gutierrez, acrescentando que "a prevalência da doença na África do Sul é de 19,2%. A cada mil habitantes, 192 estão infectados pelo vírus HIV." No Brasil, a prevalência é de 0,4%.

A gestora participou de debates sobre HIV e tuberculose (TB) na pré-Conferência. "Especialistas frisaram muito a necessidade de integração dos serviços de HIV e TB. A má notícia é que há poucas drogas novas previstas para o tratamento de tuberculose. No Brasil e em São Paulo a tuberculose é a doença que mais mata pessoas com HIV/aids e isso é uma vergonha. A tuberculose tem cura e o HIV, tratamento."

Meta 90-90-90

__Foto: Dra. Eliana Gutierrez e Gustavo Saggese  

Dra. Eliana também falou sobre as apresentações em torno do tema da meta 90-90-90. “Muitos países relataram dificuldades para alcançar as metas e ultrapassar barreiras. Há destaques para os avanços na cobertura de testagem na África do Sul, na Tailândia e no Quênia. Entre as pessoas em tratamento, os resultados geralmente são bons", contou a gestora.

A infectologista destacou também a ausência de debates sobre camisinha e PEP (profilaxia pós-exposição e  prevenção ao HIV). "A PrEP (profilaxia pré-exposição) virou prevenção primária. Só se fala disso.” Segundo ela, neste momento o mundo deve focalizar seus esforços contra a aids basicamente em cinco estratégias: “garantir tratamento para todos (há 17 milhões de pessoas em tratamento, é preciso alcançar outras 20 milhões); ampliar os pacotes de prevenção; tratar coinfecções e comorbidades; investir na descoberta de uma vacina e da cura da aids; otimizar a implementação da pesquisa."

Para Rubens Duda, assessor de coordenação do Programa, o que chamou atenção na Conferência foi o tema, centrado em acesso, equidade e direitos agora. "O mundo luta pelos direitos humanos, contra o estigma e a discriminação. Vi diversas tribos se manifestando para chamar a atenção para os seus problemas específicos. Vi a juventude africana se mostrando o tempo todo e um grupo de avós da aids cantando em defesa vida."

Ao todo, segundo Rubens, estavam representados neste evento 153 países de todos os continentes. O espaço destinado às ONGs e aos movimentos sociais contou com 116 estandes. No galpão que abrigava iniciativas governamentais e também da indústria farmacêutica, foram 251 estandes.

Projeto Muriel

Um dos assuntos mais comemorados pelos brasileiros em Durban foi a premiação do pôster do Projeto Muriel sobre a experiência de encarceramento de travestis e transexuais no país. O resumo premiado é parte da pesquisa, de iniciativa do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo em parceria com o CRT (Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids), que estudou as vulnerabilidades, demandas de saúde e acesso a serviços da população de travestis e transexuais no estado de São Paulo.

"No Brasil, as pessoas trans têm menos acesso aos cuidados de saúde, pouco se sabe sobre suas necessidades", contou o pesquisador do projeto, José Luís Gomez. Segundo ele, um dos objetivos desta pesquisa é identificar fatores que facilitam e dificultam o acesso aos serviços de saúde e aos insumos de prevenção; descrever taxas de HIV autorreferidas -- quando o próprio soropositivo se autodeclara portador; descrever acesso e frequência no uso de hormônios, silicone industrial, cirurgias e outras intervenções para mudança corporal; identificar o acesso à escola, entre outros.

"Participaram da pesquisa 673 pessoas com idade média de 32 anos. Dessas, 132 disseram ter sido encarceradas pelo menos uma vez. E o recorte premiado em Durban destacou exatamente os achados neste público”, contou o também pesquisador Gustavo Saggaese.

Os pesquisadores destacaram que, na pesquisa, foi identificado que, das pessoas encarceradas, 44% disseram viver com HIV/aids, 3% tinham emprego formal e formação superior, 68% disseram não ter a cor branca; 81% já sofreram violência física.

Entre as mulheres transexuais (129), 75% foram encarceradas com homens, 22% tiveram o cabelo cortado, 78% sofreram violência por parte dos outros detentos.

"Concluímos que o elevado encarceramento de pessoas trans, somado às violência física e falta de oportunidade de trabalho, contribui para a violação dos direitos desta população, agravando a vulnerabilidade e o risco de infecção por HIV”, disse José. “As políticas públicas de saúde precisam se voltar para a realidade das trans encarceradas", finalizou Gustavo.

Movimento social

__Foto: Américo Nunes e Rubens Duda

Os destaques do ativista Américo Nunes, do Mopaids, foram protagonismo, ativismo e controle social. "Lutamos pelo acesso universal ao tratamento e por medicamentos de primeira geração. Queremos atendimento de qualidade e todos os nossos direitos respeitados."

O ativista diz ter voltado de Durban com mais garra para lutar pelos soropositivos. "Quero que todos as pessoas com HIV/aids sejam alfabetizadas sobre os antirretrovirais. Precisamos entender quais são os medicamentos que tomamos e o que eles podem nos causar. Penso ainda que quanto mais empoderados, mais teremos forças para lutar contra o estigma e a discriminação que sofremos por ter HIV."

Américo pediu a ampliação da participação das ONGs em eventos internacionais. “Precisamos nos mobilizar e aumentar o número de ativistas representantes da delegação brasileira em eventos como esse. Somos muitos e podemos contribuir para com a resposta mundial." Outro desejo do ativista é que a Conferência Internacional de Aids seja realizada no Brasil. "Precisamos de vontade política para sediarmos este evento."

Cobertura

A diretora desta Agência, Roseli Tardelli, contou detalhes da cobertura em Durban. Foram publicadas, durante o evento, 44 reportagens, além de vídeos e galerias de fotos. O conteúdo também foi compartilhado nas redes sociais da agência. “Essa é a 12ª Conferência que cobrimos, geralmente vamos em três ou quatro pessoas, mas este ano fomos só eu e o Henrique Contreiras (médico colaborador). Estamos num ano atípico.”

A jornalista explicou que a pauta da Conferência não esteve muito frequente na grande mídia porque concorreu com outros assuntos importantes. “Sempre mandamos boletins gratuitos para rádios e TVs. Nesta edição, nossa parceria foi só com o portal UOL. Eles reproduziram oito reportagens nossa e também compartilharam no Facebook deles. Os outros veículos estavam empenhados na cobertura do impeachment e das Olímpiadas.”

Roseli contou no debate que o foco da Agência Aids neste momento é humanizar a pauta. "Vamos em busca de novas histórias, a ideia é contar com detalhes como é viver com HIV."

Para as próximas edições da Conferência, segundo Roseli, a ideia é criar parcerias com gestores e ativistas para a produção de conteúdos.  “A Conferência de Aids é um evento enorme, quanto mais gente reportando, melhor. Então, teremos a figura do gestor repórter, ativista repórter”, finalizou.

Dicas de entrevista:

Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo

Tel.: (11) 3397-2192

Mopaids

Tel.: (11) 5084-0255

Agência Aids

Tel.: (11) 3266-2107

Projeto Muriel

Perfil no Facebook 

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)