Sexta-feira, 21 de Julho de 2017

 
 
 


Aids 2016: A aventura de brasileiros para que Ricardo Martins participasse da mesa que mostrou o ambulatório trans do CRT em DurbanAids 2016: A aventura de brasileiros para que Ricardo Martins participasse da mesa que mostrou o ambulatório trans do CRT em Durban

17/07/2016 - 23h

Poderia ter sido apenas mais uma apresentação das muitas que a pré-conferência e a conferência receberão e produzirão nesta edição que acontece em Durban, África do Sul. Mas para chegar ao Continente africano, o psicólogo Ricardo Martins, coordenador do Ambulatório de Saúde Mental do CRT (Centro de Referência e Treinamento em DSTs/Aids- SP) e integrante da equipe que trabalha no inovador ambulatório trans do Centro, em São Paulo, viveu praticamente uma gincana ou um dia de  "Indiana Jones" para, heroicamente, chegar até o International Convention Centre e detalhar elegante  e muito profissionalmente o que o ambulatório realiza e promove de saúde e cidadania para a população trans da maior metrópole da América Latina.

A explicação do trabalho, que vai de acompanhamento jurídico para a alteração de nome ( nome social) a sessões em grupo de terapia e passa por consultas com infectologistas e endocrinologistas, foi feita com clareza, objetividade, voz firme demonstrando segurança de um profissional  apaixonado e envolvido por seu trabalho e  ciente da importância de estar relatando para o mundo os pontos positivos registrados para uma população ainda estigmatizada, excluída em vários países, em pleno século 21.

 Tudo começou com o atraso do avião da companhia  South África que pousou em Johanesburgo duas horas depois do horário acordado com os clientes. Ao chegar à cidade, Ricardo, Tânia Corrêa, assistente técnica do CRT, o ativista Moises Toniolo, da RNP, que estavam no mesmo avião, foram surpreendidos  e esperaram por três horas para passar pela polícia de fronteira local, entrar no país,  pegar o voo que os levaria para Durban. Claro, a pequena dificuldade  fez com que perdessem o voo. Somamos aí cinco horas de atraso.

Em uma situação de tempo e temperatura normais, tudo certo. Seria  só ir à companhia aérea, justificar e embarcar no próximo voo.  Mas na África a vida e os acontecimentos não são bem assim.... Principalmente se tratando de um evento que reúne gente do mundo todo. Voos lotados. Lembrem-se, nosso protagonista Ricardo estava indo justamente para se apresentar no domingo (17), no início da tarde , na pré-conferência...

 " Full flight, it's full " explica com um certo desdém a atendente da British Airways. A conexão seria feita por outra companhia, não a mesma que os trouxe de São Paulo. Em uma situação assim, o que importa é atingir a meta. No caso, chegar a Durban. Todas as outras empresas  que fazem o trajeto foram contatadas. Mesma resposta. É um anda para lá e para cá no aeroporto carregando malas...

Observando o Ricardo, dava para perceber um certo desespero recorrente a cada negativa. A ansiedade  vai aumentando com o passar do tempo! Sem voos possíveis a saída foi procurar uma passagem de ônibus. Ufa! Ainda bem que tinha um ônibus saindo do aeroporto. De Johanesburgo até Durban, são exatos   571 quilômetros. Percurso que se faz em cinco horas e meia de viagem. Os três, destemidamente, apanharam o ônibus às 8 da noite. Deveriam estar no destino às 2 da manhã de domingo. Chegaram às 5 da manhã.

Paradas em cidades intermediárias retardaram a viagem. O próximo desafio, sim porque tudo parece que virou um desafio, seria ir até o hotel, tomar um banho, se trocar, comer algo e alcançar o centro de convenções. O horário da apresentação está cada vez mais próximo. Um táxi solucionaria o problema... O motorista de táxi não conhecia direito onde estão localizados  os hotéis da região. Chovia, ainda noite. Ricardo estava em um, Tania hospedada em outro e Moises em um terceiro. Rodaram Durban por três horas e vinte minutos!  " Eu e o Moises já estávamos quase entendendo Zulu", confessou Tania que, pacientemente, tentava auxiliar o motorista a descobrir a rota certa! Zulu é um dos dialetos bastante usados por aqui.

A solução foi parar em um hospital e chamar o proprietário do hotel onde Ricardo iria se hospedar para que ele viesse resgatá-lo. Mesmo assim, a operação resgate, feita com sucesso, aconteceu  depois de nosso " Indiana Jones brasileiro" ter aguardado meia hora no hospital.

“Nunca pensei que fosse passar por uma situação assim. Muito estressante, um desgaste absurdo. Já viajei muito pelo mundo, nunca passei nada perto desta vivência", disse depois o aliviado psicólogo, sentado, em uma mesa numa das áreas de descanso onde acontece o evento, rodeado pelos amigos do Brasil que prestigiaram sua participação na mesa que trouxe a realidade da população trans e sua situação de saúde na América Latina.

Muita tensão, nervoso, ansiedade e adrenalina nesta aventura. Em nenhum momento os três perderam o humor e a vontade de que desse tudo certo! Quem sabe também por isso, os muitos Ricardos, Tânias, Moises, Claras, Nairs, Araújos, Américos, Silvinhas, Pierrez, Zarifas, Paulos, Fábios, Pedros, Adeles, Micaelas, Alines, Brendas Lees, Martas, Elianas, Dudas,n Celys, Áureas   e tantos outros e outras conseguem que as coisas aconteçam e dêem certo no Brasil: amor, despreendimento e garra para trabalhar por menos preconceito e discriminação.

 Em nenhum momento esta gente que constrói a história de enfrentamento da aids no mundo deixa de lado seu compromisso e sua determinação! Uma aventura que, por respeito à espécie humana, vale a pena sempre ser vivida e contada!

A Agência de Notícias da Aids cobre a 21ª Conferência Internacional de Aids, em Durban (África do Sul), com apoio do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, da DKT do Brasil e da Jansen Farmacêutica.

 

 

 Roseli Tardelli, diretora da Agência de Notícias da Aids, de Durban