Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017

 
 
 


Rio Grande do Sul lança frente parlamentar de enfrentamento ao HIV/aidsRio Grande do Sul lança frente parlamentar de enfrentamento ao HIV/aids

09/05/2016 - 14h35

Foto: Diogo Baigorra/Divulgação

Mais de 30 anos depois de ter o primeiro caso registrado no Rio Grande do Sul (RS), em 1983, no Sanatório Partenon, em Porto Alegre, o estigma e o preconceito que cercam o vírus HIV/aids ainda são muito presentes no Estado, dificultando que os próprios portadores da doença busquem tratamento. Há pelo menos 10 anos o RS é o estado com o maior número de casos no país. Para tentar mudar essa realidade, segundo o site do Sul21, foi lançada na terça-feira (3) a Frente Parlamentar de Enfrentamento ao HIV/aids, uma parceria do deputado estadual Adão Villaverde (PT) com movimentos sociais e representantes de pessoas vivendo com HIV.

Segundo o boletim epidemiológico sobre HIV/aids, divulgado em novembro passado pela Secretaria Estadual da Saúde (SES), o RS registra 38,3 casos de aids para cada 100 mil habitantes, o que representa quase o dobro da média nacional, 19,7. A maior concentração de casos está na região metropolitana e, em especial, em Porto Alegre, onde há 92,9 casos por 100 mil habitantes.

Maria Letícia Rodrigues Ikeda, coordenadora do programa de DST/aids em Viamão, pondera que não há um único fator que explique o porquê dos números de infecção serem tão elevados no estado. “A gente não tem uma explicação absoluta e exata. Nós temos uma doença importante, de transmissão sexual, e vem tendo, ao longo dos últimos anos, algumas dificuldades em estabelecer políticas públicas eficazes para controlar essa epidemia. Isso então gera esse aumento significativo, essa manutenção desses índice”.

Por outro lado, ela afirma que o estado apresenta uma situação de diagnóstico tardio, com boa parte dos pacientes descobrindo a doença quando já estão há bastante tempo infectados. Ela também aponta que há dificuldades no cuidado continuado dos pacientes. “Na maioria dos locais, os serviços de atendimento à aids estão sucateados. Nós temos poucos profissionais atendendo HIV no RS para o tamanho da nossa epidemia”, diz. “No caso das pessoas que não são acompanhadas adequadamente, por exemplo, a gente não consegue perceber uma boa adesão ao tratamento e intervir precocemente. As pessoas ficam resistentes ao tratamento e o vírus se perpetua”.

Rosinéia da Rosa (Foto à esq. por Joana Berwanger/Sul21), representante das entidades que reúnem pessoas vivendo com a HIV/aids (PVHA), concorda que o alto índice de casos deve-se principalmente a políticas públicas equivocadas e falta de debates que ajudem a combater estigmas e informar corretamente a população.

Ela espera que a frente parlamentar possa abrir espaço para que haja, nos serviços de saúde, melhor atendimento, melhor acolhimento, maior divulgação da prevenção. “Está muito banalizado”, reclama, apontando ainda que, nos próprios postos de saúde, o atendimento é precário. Ela reclama que o tratamento aos portadores de HIV nesses locais é feito como se fosse “qualquer outra doença, como hipertensão, diabetes”. “É muito mais extensa do que isso justamente pela medicação que a gente toma, que causa muitos problemas”, pontua.

A ativista ainda reclama que o estado adota uma política de “testar e tratar”, mas acaba deixando a desejar no acompanhamento aos pacientes. “O que a gente diz é que o governo quer testar e tratar. Não é só testar, aí dar um diagnóstico de positivo, largar e o paciente tem que esperar dois, três meses para a primeira consulta com o infectologista. Não, seria testar, acompanhar e tratar”, afirma.

Combate ao preconceito

De acordo com o deputado Villaverde, a Assembleia Legislativa já teve um papel importante no enfrentamento ao HIV/aids, mas isso arrefeceu nos últimos anos. “É necessário retomar esse trabalho. De um lado, pela necessidade de políticas públicas, que estão muito aquém, de outro porque os números do Estado do RS são absolutamente inaceitáveis, exagerados, e isso requer um enfrentamento muito forte”. afirma.

Villa diz ainda que “há uma necessidade fundamental de políticas preventivas, de políticas de assistência, de políticas de atenção, fundamentalmente para quem convive com HIV/aids”.

Ele também defende que o combate à discriminação será um tema central da frente. “Muitas vezes acontece, desde o local de tratamento, desde o local de trabalho, desde o local de vivência e convivência na sociedade. Nós não aceitamos que visões e compreensões, digamos assim, pseudorreligiosas, ou mesmo de preconceito, de atraso, de conservadorismo, venham a pautar temas como esse de enorme importância”, afirmou o deputado.

Para a médica Maria Letícia, o preconceito muitas vezes acaba prejudicando o próprio autocuidado das pessoas. “É melhor não ver, é melhor fingir que não existe do que assumir a possibilidade de ter [o vírus]”, afirma. “A admissibilidade disso numa sociedade mais preconceituosa, onde as questões relacionadas à sexualidade são vistas ainda como tabu, com muito juízo moral, isso dificulta com que as pessoas, no exercício de sua sexualidade, venham a se proteger e, em percebendo que têm o risco de infectar-se, venham a testar precocemente”.

Ela também afirma que uma consequência desse tabu que envolve as questões da sexualidade é a pouca procura por tratamento das DSTs em geral. “A gente tem pouca busca, ou busca inadequada, por tratamentos para outros DSTs – gonorreia, sífilis -, que são com certeza facilitadores para a infecção pelo HIV. Nós hoje estamos vivendo uma epidemia de sífilis e as pessoas têm dificuldades de acessar o sistema de saúde por doença de transmissão sexual por conta de estigma e preconceito. Porque é imposto o juízo moral, ‘não é uma doença dos inocentes’, e isso também contribui para que a gente tenha mais infecções por HIV”, complementa.

Objetivos da frente

No ato de lançamento da frente, o deputado Villa (foto à esq. por Joana Berwanger/Sul21) elencou um conjunto de 12 ações que deverão ser tomadas, como a busca por legislação que garanta avanços e impeça retrocessos; buscar mais recursos para ações de prevenção e tratamento; elaborar materiais informativos sobre prevenção, diagnóstico e tratamento; garantir acesso a tratamento para a população em situação de rua; e realizar ações mais concentradas nos 15 municípios em que há maior incidência de casos: Alvorada, Cachoeirinha, Canoas, Caxias do Sul, Esteio, Guaíba, Gravataí, Novo Hamburgo, Porto Alegre, Rio Grande, Santana do Livramento, São Leopoldo, Sapucaia do Sul, Uruguaiana e Viamão.

O deputado também diz que a frente irá atuar para defender o arquivamento, na Câmara federal, do Projeto de Lei nº 198/2015, que torna crime hediondo a transmissão do HIV. “Em si só é um projeto preconceituoso, atrasado e conservador, porque o próprio Código Penal Brasileiro já penaliza quem, de forma intencional, vai querer transmitir um determinado tipo de doença”.


 

Fonte : Sul 21