Sábado, 21 de Outubro de 2017

 
 
 


São Francisco vira modelo no combate ao HIV, informa “Folha de S. Paulo”São Francisco vira modelo no combate ao HIV, informa “Folha de S. Paulo”

14/10/2015 - 13h45

O jornal  “Folha de S. Paulo” desta terça-feira (13) trouxe, em seu suplemento "The New York Times", uma reportagem destacando que a cidade de São Francisco (EUA) tornou-se um modelo no combate ao HIV/aids nos últimos anos. A metrópole, que já foi o foco inicial de uma epidemia, hoje tem apenas algumas centenas de caso por ano, resultado da implantação de uma série de programas criativos que fizeram os níveis da infecção despencar. No ano passado, São Francisco registrou apenas 302 casos de HIV, seu recorde mais baixo. Em 1992, no auge da epidemia, esse número chegou a 2.332. 

Leia abaixo a matéria assinada por Donald G. Mcneil Jr., na integra:

San Francisco vira modelo no combate ao HIV

Não foi sua primeira camisinha a estourar, então Rafael não se preocupou. No entanto, três semanas depois, o homem que tinha conhecido em um bar ligou para dizer que ele muito provavelmente tinha sido “exposto” ao HIV.

Rafael, um cara simpático e musculoso de 43 anos, foi ao médico e descobriu que realmente tinha sido infectado. Imediatamente, foi encaminhado para um orientador, que marcou uma consulta para o dia seguinte.

Na Ala 86, a unidade de HIV do San Francisco General Hospital, o médico lhe entregou medicamentos para cinco dias e uma receita para pegar mais depois. Já que estava desempregado, Rafael também recebeu ajuda para se inscrever no programa público de saúde para cobrir o tratamento de um ano, que custaria 30 mil dólares.
“O pessoal me tranquilizou e me ajudou muito. Assim eu pude me concentrar só na minha saúde”, conta ele.

Rafael também tem a sorte de viver em San Francisco, que está ganhando a briga contra o HIV e já serve de modelo para outras cidades. A metrópole, que já foi o foco inicial de uma epidemia, hoje tem apenas algumas centenas de caso por ano, resultado da implantação de uma série de programas criativos que fizeram os níveis da infecção despencar.

“Adorei o modelo adotado em San Francisco. Tenho a impressão de que ele vai conseguir mudar a forma como a epidemia se desenvolve hoje”, afirma Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA.

A Organização Mundial da Saúde concorda

Ao lançar novas diretrizes para o tratamento e a prevenção do HIV, a agência sugeriu que o resto do mundo seguisse o exemplo de San Francisco, que recomenda ao paciente tomar medicamentos antirretrovirais assim que se descobrir infectado, em vez de esperar pelas leituras do sistema imunológico baixarem. Além disso, todos os que estiverem correndo risco de desenvolver a infecção devem tomar remédios preventivos.

San Francisco adotou a primeira técnica –a chamada “test & treat” (“testar e tratar”)– há cinco anos e a segunda técnica em 2013. Além disso, lançou outras medidas, como o programa de agendamento rápido de consultas e um projeto que acompanha casos mais difíceis.

Os resultados são impressionantes. No ano passado, San Francisco registrou apenas 302 casos de HIV, seu recorde mais baixo. Em 1992, no auge da epidemia, esse número chegou a 2.332.

Naquele mesmo ano, houve 1.641 mortes causadas pela aids. Em 2014, apenas 177 vítimas da doença morreram, sendo que a maioria sucumbiu a doenças cardíacas e ao câncer ou por decorrência da idade avançada, segundo Susan Buchbinder, da Secretaria Municipal de Saúde.

Segundo uma estimativa de 2012 do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, somente 39% de todos os norte-americanos infectados pelo HIV se consultaram com um médico e apenas 30% tomam remédios a ponto de serem considerados “viralmente suprimidos”, ou seja, não infecciosos.

Já em San Francisco, 82% da população infectada estava em tratamento e 72% estão “viralmente suprimidos”. Na Ala 86 – onde os pacientes não têm plano privado e dependem da saúde pública– o nível de supressão chegou a 84%.

San Francisco tem algumas vantagens: é uma cidade rica, tem líderes que apoiam a iniciativa e uma comunidade médica unida.

Graças ao crescimento do setor de tecnologia, o Orçamento da Prefeitura cresceu de US$ 5 bilhões para quase US$ 9 bilhões em dez anos. A verdade, porém, é que o principal diferencial do governo é a disposição em adotar rapidamente táticas eficazes.

Em 2010, a prefeitura implantou o sistema de administração imediata de antirretrovirais aos pacientes que recebiam o diagnóstico positivo para a infecção. Em 2013, deu início a um programa de remédios preventivos, o PrEP –ou profilaxia de pré-exposição– com um comprimido de dois princípios ativos, sem custos para os que não têm seguro-saúde.

Segundo algumas estimativas, 15% dos gays da cidade já tomam Truvada

Vários estudos recentes comprovam que aqueles que seguem a terapia antirretroviral diária não só vivem mais como carregam uma porção tão baixa do vírus que é muito pouco provável que infectem alguém, mesmo se não praticarem sexo seguro.

Mais de 25% dos sem-teto da cidade são gays ou trans e muitos se encontram em áreas violentas da cidade. Por isso, há quatro anos, a Prefeitura criou equipes chamadas Linkage into Care (Lincs), como ficaram conhecidas, para acompanhar os pacientes nessas condições.

No período entre 2012-13, as equipes deram busca em 315 doentes desaparecidos e conseguiram registrar 116. Os outros, ou não foram encontrados ou estavam presos, mortos ou recusaram a ajuda. O acompanhamento é feito por telefone e mensagem de texto, além das visitas e consultas ao médico. Cerca de 73% dos pacientes do Lincs seguiram com o tratamento e têm o dobro de chances de chegar à “supressão viral” em relação àqueles que não se cuidaram.

A cidade está mudando a psicologia do sexo gay das formas mais inesperadas. E o medo da morte, que há tanto tempo é parte intrínseca da homossexualidade no país, parece estar diminuindo.

É o caso do havaiano Paul, 53, que foi à clínica para fazer exame de gonorreia e conta que provavelmente foi infectado com o HIV quando ainda era adolescente. Ele viu muitos amigos morrerem décadas atrás. “É doideira, mas ainda estou vivo”, diz.


 

Fonte : The New York Times com tradução da Folha de São Paulo