Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017

 
 
 


Barong: presente onde a vida aconteceBarong: presente onde a vida acontece

Marta McBritton*

“Todo o artista tem que ir aonde o povo está... se for assim, assim será!”

31/08/2015 - Há 19 anos, o Barong saiu das quatro paredes para dialogar com as pessoas sobre aquilo que elas poderiam fazer com segurança entre quatros paredes: a prevenção do HIV/aids. Além disso, se propôs a combater estigmas, incluindo aqueles que na época eram chamados de “grupos de riscos”, atraindo a atenção para o que realmente são os “comportamentos de riscos”. E assim, desenvolveu estratégias de comunicação visando à prevenção. Com recursos escassos, mas que permitiram a compra de um trailer usado, utilizando a criatividade para equipá-lo foi instalado um inflável em formato de preservativo com quatro metros para realizar ações de rua com a população. 

Estreamos o trailer em Santos, na praia do Embaré, durante os shows de verão, montado ao lado do palco, em frente à Igreja de Santo Antônio do Embaré.  Essa igreja ficou com sua porta principal fechada no mês em que por lá permanecemos. Seria coincidência? Além dessa inicial "receptividade", que nos mostrou o quanto o tema da sexualidade é tabu em nosso país, durante os 14 anos iniciais de atuação (de 1996 a 2010), enfrentamos inúmeras dificuldades com autoridades locais para realizar nossas ações de rua: dificuldade de permissões para uso do espaço público (que deveriam ser fornecidas pelas subprefeituras ou outros órgãos públicos), demostrando a dificuldade de gestores dialogarem sobre novas iniciativas de promoção da saúde sexual. Inúmeras vezes, as autoridades alegavam que nosso projeto era obsceno e incentivava o sexo. 

Apesar desses percalços, nossas intervenções continuaram. Sabíamos que a estratégia adotada era eficaz: trabalhar na rua significa dar espaço para o contato direto com as pessoas; significa que pessoas podem falar de forma individual sobre suas intimidades; que as pessoas tímidas ou aquelas pertencentes a grupos marginalizados socialmente podem se expressar anonimamente; em pequenos municípios, significa conversar com os profissionais de saúde que não tenham vínculo local, por exemplo, para revelar a orientação sexual, ou dizer que é profissional do sexo, ou contar o seu estado sorológico de portador de HIV/aids; tudo isso pode ser facilitado no anonimato, representando um divisor de águas na vida de um individuo.

As experiências do Barong demonstram que trabalhar na rua, em espaços de concentração de pessoas, é acolhe-las, é socializar conhecimento sobre saúde sexual e reprodutiva, é promover a qualidade de vida, é uma ação de “advocacy” contínua e fundamental que promove a cidadania combatendo uma cultura neo-concervadora.

Infelizmente, após 2010, ficamos sem unidade móvel, utilizando outros recursos para as ações de educação em saúde, passamos a utilizar barracas e stands fixos. Mas depois de muita luta, nesse mês de setembro de 2015, estamos voltando a atuar e a estar presente "aonde a vida acontece”. Estrearemos com um novo veículo adaptado com equipamentos de última geração, ele nos permitirá realizar ações ainda mais abrangentes. Além da prevenção educativa, o Barong, poderá fazer exames, campanhas de vacinação, sessões de cinema ao ar livre seguido de debates e afins.

Quais serão os novos desafios que nos espera Brasil afora? 

A partir dos dados de pesquisas que apontam a população vulnerável ao HIV/aids, já sabemos o caminho a percorrer. Como seremos recebidos agora? Como atuaremos nas cidades onde a palavra “gênero” foi retirada dos planos municipais de educação? Qual o apoio que receberemos da iniciativa privada que não deveria estar alheia, já que o combate a aids,  é a Meta 6 dos Objetivos do Milênio? Como incentivar a interlocução entre os gestores de saúde e de outras áreas para que a meta 90-90-90 de detecção de 90% das pessoas vivendo com HIV, 90% dessas pessoas tratadas e, depois, 90% delas com carga viral indetectável reduzindo as novas infecções possa ser alcançada? 

Lembramos que nos últimos anos, varias ONGs historicamente ligadas a luta contra a aids fecharam suas portas. Permanecer e, mais, reunir recursos para retornar às ruas exigiu um esforço gigantesco do Barong.  Por persistirmos, percorreremos daqui para frente novos e velhos caminhos, de forma a continuar contribuindo na luta por uma sociedade que possa viver plenamente e de forma segura a sua sexualidade.

 

* Marta McBritton é presidente do Instituto Cultural Barong.