Sábado, 18 de Novembro de 2017

 
 
 


Nova York e políticas públicas sobre HIV/aidsNova York e políticas públicas sobre HIV/aids

por João Nemi Neto*

11/11/2017 - Em 2014, o governador do estado de Nova York, Mario Cuomo, se comprometeu a zerar os números de novos casos de HIV até 2020. Já a proposta da cidade de Nova York é de reduzir a 600 novos casos por ano até 2020. Ambas propostas parecem ambiciosas e ainda é cedo para saber se serão cumpridas. De acordo com o GMHC – Gay Men Health Center – um dos primeiros centros de ajuda a pessoas vivendo com HIV e aids nos Estados Unidos fundado em 1982, Nova York é líder em novos casos de HIV. Atualmente, 114 mil pessoas vivem com HIV na cidade e 20% dessas pessoas não sabem o seu status. Dentro dessas estatísticas, homens que fazem sexo com homens representam 68% dos novos casos e dentro deste grupo 81% são homens negros e latinos (dois grupos não-brancos dentro das definições étnicas norte-americanas).

Como diz Jim Eigo do ACT UP NY, “desde o começo da epidemia, ativistas e agentes de saúde entenderam que era preciso fazer mais do que tratar o vírus, a luta contra a aids requer engajamento do indivíduo como seres complexos”. O estigma associado ao vírus ainda é muito grande e as informações ainda não são amplamente divulgadas. Como mostrou uma reportagem da "Revista Época", de 2017, o preconceito ainda atrapalha muito as estratégias de prevenção. 

Pensando nas questões colocadas acima a cidade de Nova York tem criado campanhas e serviços que tentam oferecer informação e tratamento através de variados meios procurando desmistificar as formas de proteção seja quais forem as práticas sexuais das pessoas.

Há muito que se fazer para que a proposta do governo de Nova York seja alcançada. Contudo a cidade tem investido bastante para a erradicação do vírus e de outras DSTs (vale lembrar que casos de sífilis e gonorreia têm aumentado significativamente nos últimos anos). A primeira medida da cidade é uma campanha ampla em vários meios de comunicação para erradicar o estigma sobre o vírus. A campanha em inglês e espanhol fala abertamente de práticas sexuais como ‘barebacking’ de maneira simples e direta. As clínicas de saúde sexual atendem qualquer pessoa a partir de 12 anos sem se preocupar com o status imigratório ou se a pessoa tem seguro de saúde, dois pontos fundamentais para o tratamento universal nos Estados Unidos. 

E além da campanha visual nos meios de transporte e na cidade em geral, as clínicas oferecem o maior programa de PrEP do país, PEP, teste rápidos grátis e aconselhamento. Com o nome de “Stay Sure”, algo como ‘mantenha-se informado/ seguro’. 

O PrEP faz parte dessa nova estratégia de prevenção contra o HIV da cidade de Nova York. Através de uma série de livretos explicativos que deixam claro que o remédio pode prevenir contra o HIV desde que seja usado todos os dias e que se propõe a união de diversos métodos como camisinha. 

O PrEP, de acordo com as pesquisas apresentadas, pode chegar a evitar a propagação do vírus em até 95%. As campanhas iniciais visavam os casais sorodiscordantes e profissionais em situações de risco, porém após alguns meses, o novo foco foi a população homossexual adulta visando o aumento de casos especialmente entre jovens, um dos grupos populacionais em que a infecção mais cresce. Como o remédio é muito caro, a cidade de Nova York procura através dessa campanha oferecer a opção do PrEP como uma alternativa a todos os indivíduos com uma vida sexual ativa. 

Nova York, tendo sido um dos epicentros da crise nos anos 80 e ainda uma das regiões com maior número de casos entre os países desenvolvidos, busca, através de tais medidas, oferecer a população local maneiras de se proteger evitando o estigma ou a culpa. Questões relacionadas a HIV/aids ainda são marcadas por um sentido de vergonha. Tais medidas buscam erradicar não só o vírus, mas também o silêncio que envolve os assuntos relacionados ao HIV. 

* João Nemi Neto é professor de Língua Portuguesa na Columbia University, em Nova York,  e pesquisador de questões de gênero e sexualidade em diferentes mídias e na educação. Também escreve ficção sob o nome João Maria Cícero.