Sábado, 18 de Novembro de 2017

 
 
 


Prevenção Combinada: multiplicando escolhas e colocando o Brasil na vanguardaPrevenção Combinada: multiplicando escolhas e colocando o Brasil na vanguarda

Por Adele Benzaken*

11/09/2017 - Na última semana do mês de setembro, Curitiba recebe um dos principais fóruns de debates no campo do HIV/aids e das hepatites virais do país, a 11º edição do Congresso de HIV/aids e 4º edição do Congresso de Hepatites Virais. O tema do encontro deste ano é Prevenção Combinada: multiplicando escolhas, o que traz para o centro do debate a adoção pelo Ministério da Saúde da Prevenção Combinada como estratégia preventiva na resposta brasileira ao HIV/aids, as Infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e às hepatites virais. Lá receberemos 4 mil pessoas entre ativistas, gestores, pessoas vivendo, cientistas e profissionais de saúde. 

A Prevenção Combinada propõe o uso simultâneo de diferentes abordagens – conjugando intervenções biomédicas, comportamentais e estruturais – para multiplicar a gama de opções que os indivíduos e populações terão para se prevenir do HIV, das ISTs e hepatites virais. A ideia é oferecer mais alternativas, para além do preservativo, incluindo aí uso do tratamento como prevenção, a exemplo das Profilaxias Pós-exposição (PEP) e Pré-Exposição (PreP) de risco à infecção pelo HIV, as quais devem ser vistas e consideradas como novas estratégias preventivas no leque de opções que compõem a Prevenção Combinada.

O terceiro componente da Prevenção Combinada do HIV refere-se às intervenções estruturais e remete a fatores e características sociais, culturais, políticas e econômicas que criam ou potencializam vulnerabilidades de determinadas pessoas ou segmentos sociais. O reconhecimento desses fatores demanda que as abordagens estruturais para a prevenção do HIV sejam desenvolvidas e implementadas de acordo com os contextos e relevâncias locais, sob o risco de os esforços de prevenção do HIV não alcançarem êxito a longo prazo.

Buscamos com essas medidas dar mais condições para garantirmos dois direitos: o de escolha e a autonomia das pessoas e o direito pleno à saúde.

Ao adotarmos a Prevenção Combinada como estratégia preventiva, institucionalizamos uma prática que já realizamos há mais de 20 anos no país; quando em 1996 assumimos a responsabilidade de assegurar o acesso universal ao tratamento a todas as pessoas que vivem com HIV/aids. A despeito das inúmeras resistências a essa posição na época, o presente mostra que estávamos no caminho certo ao adotarmos esse posicionamento. Hoje o SUS fornece gratuitamente tratamento antirretroviral a mais de 500 mil pessoas. 

Foi por ousarmos trilhar um caminho da universalidade do tratamento, que nos últimos quatro anos dobramos o número de testes rápidos distribuídos no país e adotamos estratégias inovadoras, como o programa “Viva Melhor Sabendo” que já promoveu a testagem entre pares em mais de 120 mil pessoas, das quais 50% nunca haviam sido testadas antes. 

A redução de 36% na transmissão vertical do HIV é outra conquista possível graças à ampliação da testagem aliada aos avanços na oferta de medicamentos antirretrovirais para as gestantes.  Fato que permitiu lançarmos neste ano a Certificação da Eliminação da Transmissão Vertical do HIV para municípios brasileiros acima de 100 mil habitantes, conforme parâmetros internacionais da Organização Mundial da Saúde (OMS). 

Embora os avanços, há, entretanto, desafios a enfrentar.  Um deles é reduzir a mortalidade de pessoas vivendo com HIV. Já reduzimos a mortalidade em 42% nos últimos dez anos. No entanto, é inaceitável que tenhamos uma taxa de mortalidade por aids de 5,6 casos a cada 100 mil habitantes, quando no Brasil há tratamento eficaz e gratuito disponível para todos.

A redução do número de casos de HIV, especialmente entre a população mais jovem, é um desafio constante.  Nos últimos dez anos, a taxa de detecção da aids mais que dobrou entre os homens de 20 a 24 anos. Por isso, é preciso avançarmos ainda mais nas estratégias de prevenção e detecção, pois estima-se que no país cerca de 112 mil pessoas estejam vivendo com HIV e não sabem. 
Para as hepatites virais, temos facilitado o acesso ao diagnóstico e ao tratamento com a ampliação da oferta de testes rápidos no SUS. Saltamos de 1,5 milhão de testes da hepatite B e C distribuídos em 2012 para mais de 12 milhões até o final do ano, ampliar ainda mais a detecção de casos da hepatite C e oferecer o tratamento o mais precocemente têm sido o nosso esforço.

Para isso, o SUS passou a adotar tratamento inovador para hepatite c, com taxa de cura de mais de 90%, e incorporando os medicamentos sofosbuvir, daclatasvir e simeprevir e a combinação 3D (ombitasvir, paritaprevir, ritonavir e dasabuvir), independente da gravidade do dano no fígado.  

Acredito que o caminho para superar os obstáculos para o controle do HIV e das hepatites virais no país, passe pela busca por respostas preventivas mais adequadas a realidade local e para cada população-chave, grupo social e indivíduo. Por isso, os Congressos celebram e reforçam o nosso compromisso da construção coletiva na resposta ao HIV/aids e às hepatites virais, com a participação de todos – comunidade científica, sociedade civil organizada, pessoas vivendo com HIV e hepatites, profissionais e gestores do SUS. 

Neste ano de enormes desafios para nós que trabalhamos na construção de um sistema de saúde mais equânime e universal, convido a todos para durante o Congresso voltemos o olhar para o quanto já avançamos até aqui, percebam que no DNA dessas conquistas está o traço da capacidade inovadora e democrática de construção da resposta brasileira ao HIV/aids e às hepatites virais, cuja a base de sustentação está no SUS, sobretudo em suas diretrizes da assistência integral, da promoção da saúde e dos direitos humanos. E o tema dos Congressos desse ano convoca a todos os quatro mil participantes esperados em Curitiba a continuarem defendo o SUS, inovando e contribuindo na construção de políticas públicas de saúde que superem os desafios atuais postos para os dois agravos. 

Te vejo no HepAids2017!

* Adele Benzaken é diretora do Departamento de Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis do HIV/Aids e das Hepatites Virais.