Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

 
 
 


Surto de hepatite A e a heteronorma médico-sanitáriaSurto de hepatite A e a heteronorma médico-sanitária

Carué Contreiras*
 
13/07/2017 - O surto mundial de hepatite A em homens gays e bissexuais expõe a negligência das instituições médicas e de saúde pública em garantir os direitos em saúde dessa minoria. O Brasil e outras partes do mundo foram pegos de surpresa: doentes e mortos. Mas isso não era inevitável.
 
Países como os Estados Unidos já indicam a vacina de hepatite A a gays e bissexuais, por entender sua vulnerabilidade a essa doença que, como se sabe, pode ser fatal quando adquirida na idade adulta. Mas isso não é apenas um avanço técnico. Tal reconhecimento exige conquistas politicas prévias: entender LGBT como sujeitos plenos de direitos civis e sanitários, o que permite reconhecer as práticas sexuais anais como legítimas e considerá-las com objetividade científica.
 
A documentação da epidemia no grupo também foi retardada pelo fato de o monitoramento estatal de epidemias ser cego para agravos de saúde específicos LGBT. Os documentos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação, ferramentas de monitoramento de doenças na população, não colhem informação sobre a orientação sexual ou identidade de gênero.  Foi a experiência internacional que guiou a ação estatal frente a este surto.
 
A negligência para com a saúde dos homens gays e bissexuais não é assunto somente de políticas públicas – a produção de ciência a divulgação do conhecimento pelas sociedades médicas são também heteronormativas.
 
Um exemplo contundente é o manual de infecções sexualmente transmissíveis (IST) do Ministério da Saúde, que não discute proctites (infecções anais) por gonorreia ou clamídia. A lacuna reflete a ausência desta discussão no meio médico brasileiro, como fica patente ao se comparar dois importantes congressos de IST que ocorrerão semana que vem, no Rio de Janeiro. O Internacional conta com ampla programação sobre saúde anal de homens gays e bissexuais. Já o Brasileiro, não.
 
Irônico é que uma grande conquista para a saúde anal dos futuros adultos gays – a recente extensão da vacina contra HPV aos meninos – não tenha sido motivada pela consideração à saúde LGBT, mas pela necessidade de proteção indireta ao colo de útero das meninas, cujas taxas de vacinação caíram muito após boatos de efeitos colaterais na internet.
 
A heteronorma médico-sanitária é o pano de fundo desse surto e conceito necessário para revelar a dimensão política e social de adoecimentos e mortes que, de outra forma, seriam encarados como fenômenos naturais.

* Carué Contreiras é médico sanitarista.