Nise Hitomi Yamaguchi


A diferença entre a matéria orgânica e a inorgânica é mais do que átomos de Carbono: exige uma organização diferente, uma capacidade de organização da matéria, um fluxo vital, presente nos organismos vivos. Existem muitas conceituações filosóficas, porém no contexto da Medicina, a manutenção da Vida com competência se expressa na Saúde. Saúde esta caracterizada pelo bem estar físico, emocional e espiritual. Nada mais vago, nem por isso menos fundamental. Pois a Vida se esvai quando não se tem saúde e nem o melhor emprego ou a maior fortuna representam algo, sem saúde. É algo que, muitas vezes, o mais simplório dos homens tem e o mais erudito, não tem. Parece que pertence a um lado “automático”, por assim dizer, do funcionamento da engrenagem. Por exemplo, o coração bate de 80 a 120 vezes por minuto, 24 horas por dia, em   uma vida inteira. O pulmão, de 16 a 20 vezes por minuto. Aceleram-se ou diminuem-se os ritmos das funções, de acordo com as emoções, liberação de adrenalina, de serotonina, de endorfinas e outros que tais. Interessante, não? Digamos que o coração ou o pulmão necessitassem de nossa lembrança para funcionarem: ao nos interessarmos por algo diferente, nos esqueceríamos de mandar o coração bater, o pulmão de respirar, ou por exemplo, o estõmago de secretar ácidos e o fígado , de produzir bile. A digestão naturalmente seria uma confusão total, sem concatenação nenhuma e o simples ato de digerir um pedaço de bife viraria uma odisséia para o organismo, ficando a carne entalada na garganta ou no estômago. Além disto, se voltarmos ao sitema cárdio-respiratório, de tempos em tempos, ficaríamos roxos de falta de ar ou com insuficiência cardíaca por nossa desatenção. Caos total!


O que faz, então, que a engrenagem funcione, o sistema seja gerenciado sem a nossa plena atenção consciente? É um sistema nervoso autônomo, que tem dois ramos: o simpático e o parassimpático. Estes sistemas gerenciam a rapidez automática dos órgãos e nervos em processos de fuga, em momentos de prazer, em momentos de digestão e todas as outras funções que coordenam a manutenção da vida.


A Vida tem uma força rítmica, que trabalha incessantemente, quer estejamos acordados ou dormindo, ativos ou em repouso. Só que de forma diferente, de acordo com o momento. Esta fantástica capacidade de adaptação ao meio e de encontrar mecanismos de sobrevivência, até de vigilância do sistema imunológico, microscópico contra vírus e bactérias, é extraordinária. Além disto, o fato de ocorrer de forma sistemática , mostra que uma parte da inteligência, mesmo que não ao nível da consciência, ocorre em aspectos celulares e moleculares, do micro-ambiente dos tecidos que compõem o organismo. Quer seja; é só não atrapalharmos com alimentos inadequados, emoções inadequadas, stress, substâncias produzidas pelas nossas glândulas que sobrecarreguem este sábio sistema, que o organismo funciona muito bem. Naturalmente, existem os desgastes de uso, quando ficamos mais velhos, além de aspectos genéticos que determinam muita coisa  , a maioria ainda desconhecida.


O fato, aliás, de desconhecermos todos os aspectos simultâneos que mantêm a saúde, não torna mais fácil a manutenção da mesma. O processo de cura na relação que se estabelece entre médico e paciente, deve levar em consideração o acordar desta capacidade de regeneração do organismo, bem como a sua essência da manutenção natural da Vida. A cura tão desejada por todos aqueles que estão doentes seria o estado ideal a ser alcançado. O tripé do tratamento deve contemplar a reeducação de hábitos nocivos, a ingestão de medicações corretas e quem sabe, uma percepção da essência do ser humano, uma busca da Força que anima o Ser, uma busca do equilíbrio entre as diversas facetas do indivíduo. A ciência cartesiana esqueceu as sutilezas do ser humano e neste momento, a Humanidade necessita se voltar  para valores mais profundos de ética, de compreensão e de aprimoramento do Ser.


Sócrates teria dito:
“Como não é apropriado curar os olhos sem a cabeça, nem a cabeça sem o corpo, então também não é apropriado curar o corpo sem a alma”        


(Charmides, Platão citando Sócrates).
Assim sendo, possamos enquanto profissionais da área médica levarmos em consideração o ser global, na busca de mais vida e consequentemente, da Saúde na sua plenitude!

Nise Hitomi Yamaguchi é Cancerologista e Imunologista, Diretora do Instituto Avanços em Medicina, Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Cancerologia, Coordenadora de Pesquisa em Oncologia-Divisão de Pneumologia do HCFMUSP e de Oncologia Geral do Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho. Fez Doutorado em Medicina pela Faculdade de Medicina da USP. Contato por e-mail: nisehy@uol.com.br